Título: Exército impede socorro
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 03/03/2012, Mundo, p. 18
Tropas proíbem comboio humanitário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho de entrar no bairro de Baba Amr, em Homs, com remédios e alimentos. ONU e Estados Unidos reforçam pressão sobre o ditador Bashar Al-AssadNotíciaGráfico
O ditador Bashar Al-Assad deu ontem mais uma prova de desprezo pela população civil, ao impedir que um comboio humanitário do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) e do Crescente Vermelho Árabe Sírio entrasse em Baba Amr. O devastado bairro da cidade de Homs está à mercê das forças do regime, depois que o insurgente Exército Sírio Livre abandonou o local, na última quinta-feira. "É inaceitável que as pessoas que têm estado em necessidade de assistência emergencial durante semanas ainda não tenham recebido qualquer ajuda", declarou Jakob Kellenberger, presidente do CICV. "Muitas famílias fugiram de Baba Amr, e nós as ajudaremos tão logo possamos", acrescentou. Segundo ele, a situação humanitária, que já era "muito grave", piorou nas últimas horas. "Nós reiteramos o apelo que fizemos vários dias atrás por uma suspensão diária de duas horas nos combates, a fim de permitir a assistência humanitária", comentou Kellenberger.
Saleh Dabbakeh, porta-voz do CICV em Damasco, contou ao Correio que o Exército tentou justificar a proibição, ao alegar que não podia garantir a segurança dos voluntários. "Tentaremos entrar em Baba Amr amanhã, pois já temos a permissão do governo para tanto. Eles (oficiais sírios) falaram em minas espalhadas pelas ruas e armadilhas nos prédios. Também disseram que temiam por nossa segurança e que, por isso, não deixariam que entrássemos", comentou, na tarde de ontem. O ativista sírio Sami, 25 anos, morador do bairro de Insha"at, admitiu ter presenciado, "por várias vezes", veículos do Crescente Vermelho tentando levar alimentos e remédios para o distrito vizinho de Baba Amr. "Nós os vimos retornar, sem alcançar a área", afirmou à reportagem, por meio do microblog Twitter.
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, classificou a situação na Síria de "inaceitável e intolerável" e voltou a pressionar Al-Assad. "Peço que ponham fim imediatamente à violência e autorizem o acesso humanitário", declarou, acrescentando que isso é uma "prioridade". "Além disso, o país deve cessar toda a violência", disse. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, garantiu que o ditador sírio está "com os dias contados". "Não é um assunto sobre se acontecerá ou não, e sim quando", afirmou à revista The Atlantic. "Então, podemos acelerar isso? Estamos trabalhando com a comunidade internacional para fazê-lo." O premiê britânico, David Cameron, chamou o regime de "criminoso" e disse que chegará o dia em que Al-Assad responderá por seus atos. Por sua vez, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, declarou que a repressão é "um escândalo" e "inaceitável".
Enquanto China e Rússia travam resoluções de caráter efetivo contra a ditadura síria, o bairro de Baba Amr assiste a flagrantes violações dos direitos humanos e a crimes contra a humanidade. A oposição denunciou que "marginais" de Al-Assad executaram sumariamente 14 cidadãos de Baba Amr, em um campo próximo ao prédio da Companhia de Consumo — uma cooperativa do governo que vende comida subsidiada. "A situação é realmente ruim aqui em Homs, onde 1,5 milhão de pessoas não têm água, eletricidade, comunicações e internet", relatou Mulham Al-Jundi, 26 anos, morador da Cidade Velha. "Eles atacaram Baba Amr e prenderam todos os homens com mais de 14 anos", emendou. Pelo menos 75 pessoas foram mortas ontem, incluindo os 14 civis de Baba Amr e 16 moradores de Al-Rastan (a 20km de Homs), surpreendidos quando um morteiro explodiu em meio à multidão de manifestantes.
Sami confirmou à reportagem que os 4 mil moradores remanescentes de Baba Amr temem um ataque pesado das forças de Al-Assad. "Uma operação de vingança é possível, porque o bairro apoiava o Exército Sírio Livre. Civis que fugiram de lá contaram que soldados estavam reunindo os homens com mais de 14 anos em um parque", disse o ativista.
Milhares pedem oposição armada Os comandantes do Exército Sírio Livre não dispõem de armamentos pesados para enfrentar os tanques de guerra utilizados pelo regime de Bashar Al-Assad. Manifestantes pró-democracia já se articulam para que os empresários sírios e árabes financiem as operações rebeldes. Alguns países, como o Catar, já estão prontos para fornecer armamentos aos insurgentes. O Conselho Nacional Sírio (CNS) criou um "bureau militar" para supervisionar o abastecimento de armas à milícia insurgente, fornecendo apoio formal à luta armada. A campanha ganhou força no site de relacionamentos Facebook, no qual a página "The Syrian Revolution 2011" fazia menção à "Sexta-feira do armamento do Exército Sírio Livre... para defender nossas famílias".