Valor econômico, v. 17, n. 4370, 27/10/2017. Política, p. A8.

 

 

Pressão nas bases fez deputados mudarem voto

Fabio Murakawa

27/10/2017

 

 

A pressão nas bases eleitorais sobre os deputados e os cálculos dos parlamentares visando as eleições de 2018 explicam em boa parte a perda de força do presidente Michel Temer na votação de anteontem da segunda denúncia contra ele na Câmara, em comparação ao que ocorreu na votação da primeira peça acusatória, em 2 de agosto.

Há quase três meses, 263 deputados optaram por negar ao Supremo Tribunal Federal (STF) autorização para julgar a denúncia contra Temer, contra 227 votos pela abertura do processo. Ontem, foram 233 votos contra o pemedebista e 251 a favor menos do que os 257 que representam a maioria absoluta do plenário.

Ouvidos pelo Valor, parlamentares que mudaram de posição para votar contra o presidente afirmaram ter votado de acordo com as suas consciência. Mas admitem também a repercussão negativa que seu voto contra o prosseguimento da denúncia em agosto teve nas bases. Alguns, inclusive, chegaram a abrir enquetes na internet dias antes da sessão para sentir a temperatura de seu eleitorado.

Caso de Cícero Almeida, ex - prefeito de Maceió atualmente sem partido, e que tem um programa em uma rádio local. Ele diz ter lançado uma enquete na semana passada sobre como deveria votar na sessão de análise da denúncia.

Segundo o deputado, 60 mil pessoas responderam e 97% opinaram que ele deveria votar contra o presidente  -  um número que se assemelha à atual popularidade de Temer . “Votei com o meu povo", diz o deputado, que não pretende voltar a Brasília em 2018. “Meu plano, hoje, é concorrer a deputado estadual.”  Sobre a repercussão no Estado de seu voto em agosto, Almeida resume: “Apanhei muito".

Heuler Cruvinel (PSD-GO) é outro que votou a favor de Temer em agosto e mudou de ideia anteontem. Ele afirma ter convicção de que a nova denúncia contra Temer por formação de quadrilha e obstrução de Justiça é “mais embasada” do que a anterior, que teve como foco principal a gravação da conversa entre Temer e o empresário Joesley Batista no Palácio do Jaburu.

Mas afirma que na semana passada reuniu-se com membros de diversas entidades da região Rio Verde para ouvir sua opinião a respeito. “Foi um encontro com a associação comercial, sindicato rural, câmara de lojistas, o Conselho de Desenvolvimento Econômico. E a maioria dos que ouvi foi a favor da denúncia”, afirma. “Isso embasou o meu voto."  O deputado João Campos (PRB-GO) também afirma ter votado contra o prosseguimento da denúncia em agosto porque seu partido havia fechado questão sobre o tema. Diante da repercussão negativa, ele gravou um video à época para se explicar à população. Afirma, no entanto, ter votado na quarta - feira contra o presidente “de acordo com a minha consciência". “Eu levo em conta e tenho muito respeito pelo meu eleitor", diz ele. “Mas, dependendo do do nível de importância da matéria, eu contrario a minha base e depois me explico."  Ao votar a favor de Temer, em agosto, Jaime Martins (PSD-MG) argumentou que a troca do presidente traria grande instabilidade política e econômica. “Eu sinto que, para a opinião pública, quem vota contra o afastamento e a favor da corrupção", disse ele ontem ao Valor. “Meu voto foi um gesto, um símbolo que quero dar como apoio à Operação Lava - Jato." Deputados tucanos, por sua vez, relatam que o enfraquecimento do senador Aécio Neves (PSDB - MG) contribuiu para que o partido tivesse uma maioria de votos contra Temer anteontem   23 a 20.

O deputado Pedro Vilela (PSDB - AL) não votou na sessão de 2 de agosto, apesar de ter sido visto naquele dia no Congresso Nacional. Na quarta - feira, votou pelo prosseguimento da denúncia. Questionado, disse ao Valor que teve que se ausentar da votação há três meses “por razões pessoais”, mas que teria votado da mesma maneira, contra o presidente Michel Temer.

Na outra ponta, deputados que mudaram em favor do presidente usam o argumento da estabilidade política e econômica e também conversas com a base  para justificar seu voto. Carlos Gomes (PRB - RS) diz ter levado em conta o impacto na economia que teria o afastamento do presidente a menos de um ano das eleições.

César Halum (PRB - GO) diz conta ouvido representantes da indústria e do agronegócio 'Todos pediram para não deixar que uma investigação como essa interfira na recuperação econômica”, afirmou. Ele relata que perdeu dois cargos federais em seu Estado após ter votado contra Temer em agosto. Mas diz que isso não interferiu na em seu voto na quarta - feira.

Ele relata ter recebido do líder do partido, Cleber Verde (MA), a oferta de receber os cargos de volta. Mas rejeitou.