Título: Mantega assume que controla o câmbio
Autor: Cristino, Vânia; Hessel, Rosana
Fonte: Correio Braziliense, 14/03/2012, Economia, p. 11
Em audiência pública no Senado, ministro da Fazenda afirma que o sistema, oficialmente flutuante, é administrado pelo governo para proteger a indústria
O governo estava preparado para o pior. Mas o ministro da Fazenda, Guido Mantega, encontrou um ambiente bem menos hostil do que imaginava ontem na audiência da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), no Senado. Respondeu a todas as perguntas feitas pelos senadores, mesmo as temidas sobre a crise no Banco do Brasil e no fundo de pensão Previ e os rolos na Casa da Moeda. Porém, o que mais surpreendeu foi o ministro admitir, pela primeira vez, que o governo faz algum tipo de controle sobre o câmbio para mantê-lo em patamar que alivie a indústria. Mantega disse que o governo adotará tantas medidas quantas forem necessárias para conter a queda do dólar e que a cotação atual, de R$ 1,80, não é suficiente para reativar a indústria nacional.
Para os senadores, Mantega afirmou ser partidário do câmbio flutuante mas, que, diante da manipulação cambial dos demais países, o governo não tem outra alternativa se não reagir. "Não podemos fazer papel de bobos", disse. E indicou que a tendência da taxa básica de juros (Selic), hoje de 9,75% ao ano, é de convergir para 6% ao ano, nível atual da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP)
O ministro garantiu que o governo brasileiro continuará tentando convencer seus colegas do G-20 (grupo das 19 maiores economias do mundo mais a União Europeia) a não adotar medidas para absorver o excesso de liquidez. Ele assegurou, no entanto, que o Brasil tem condições de segurar o tsunami monetário — invasão de dólares do exterior.
"Não vai ter bolha financeira nem valorização excessiva do real", garantiu. Ele disse ser "uma luta" manter o câmbio competitivo. Mantega admitiu que as medidas adotadas provocam efeitos colaterais não desejáveis. " Você dá o tiro, acerta o urubu, mas também atinge o gavião que está ao lado", rebateu, ao ouvir críticas dos senadores de que as pequenas e médias empresas que tomam empréstimos no exterior foram prejudicados pela última medida do governo, que passou a cobrar IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) de 6% sobre o capital externo com prazo de até cinco anos.
O ministro reconheceu que isso realmente pode ter acontecido. "Ao mexer no IOF, você pode prejudicar, de fato, algum exportador. Temos tentado contornar isso, mas não podemos deixar de tomar medidas. Vamos aperfeiçoar os instrumentos para acertar somente o alvo, que é aquele que ganha com a arbitragem,(em cima das altas taxas de juros pagas pelos títulos públicos)" disse, comparando a medida a um tiro de carabina, ou seja, com vários estilhaços. "Primeiro fazemos a medida. Depois, estudamos como eliminar o efeito colateral."
No momento, o próprio ministro da Fazenda admitiu que o calcanhar de Aquiles da economia é o setor industrial, que vem sofrend desde a crise de 2008. "Nós não vamos abandonar a indústria. Um país que só vende commodities não é um país forte", afirmou.
O ministro assegurou que, em breve, anunciará quais setores serão integrados ao projeto de desoneração da folha, com alíquotas de tributos ainda menores dos que as vigentes. Ele defendeu as decisões tomadas pelo governo. "A eficácia das medidas é inequívoca. Se elas não tivessem sido adotadas, o dólar estaria cotado a R$ 1,40 ou menos que isso e toda a indústria brasileira estaria quebrada", declarou.
Dívida de estados O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse ontem ser favorável à troca do índice que corrige as dívidas de estados e municípios. Com a queda da taxa básica de juros (Selic), o atual indexador, IGP-DI mais 6% a 9% ao ano, ficou pesado demais. O senador Lindbergh Farias (PT-RJ) defendeu a adoção da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). Mantega prefere a Selic.
Redução do IPI O ministro da Fazenda, Guido Mantega, sinalizou ontem que o governo deve mesmo prorrogar a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) cobrado dos eletrodomésticos. O benefício acaba em 31 de março. Segundo ele, a medida é justificável diante da perda de competitividade dos produtos nacionais ante os importados, que ficaram muito baratos por causa do derretimento do dólar.
O governo também já bateu o martelo sobre a redução dos encargos na folha de pagamento da indústria, o setor mais afetado pelo tsunami monetário criticado pela presidente Dilma Rousseff. Mantega destacou que novos setores serão contemplados.
Na semana que vem, ele se reunirá com representantes de pelo menos cinco segmentos. No ano passado, a Fazenda substituiu a contribuição de 20% ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) por alíquotas de 1,5% a 2,5% sobre o faturamento da indústria. (RH e VC)