O globo, n.30754 , 19/10/2017. PAÍS, p.4

PSB troca líder e partido vota contra presidente

CATARINA ALENCASTRO

CRISTIANE JUNGBLUT

 
 
 
Júlio Delgado exibe vídeo de Lúcio Funaro na votação da CCJ sobre Temer

A direção nacional do PSB cumpriu a promessa e enquadrou o partido na Câmara. Menos de uma hora após saber que o presidente Michel Temer exonerou dois ministros para evitar a perda de dois votos na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), o PSB agiu para conter a manobra e destituiu a líder do partido, Tereza Cristina (MS), que é da ala pró-governo, e colocou como novo líder o deputado Júlio Delgado (MG), que não perdeu tempo: trocou dois deputados que votariam com Temer e ainda fez a CCJ assistir a um vídeo compilado, de três minutos, da delação de Lúcio Funaro, com trechos citando Temer.

— Vamos trocar Danilo Forte (CE) e Fábio Garcia (MT) por Danilo Cabral (PE) e Hugo Leal (RJ) — anunciou Delgado.

Com as trocas, os quatro votos do PSB foram contra Temer. Na votação anterior, o partido tinha rachado.

Enfático, o novo líder falou várias vezes e chamou Temer de “o sol” da organização criminosa do PMDB. Ele conseguiu que fosse exibido no telão o vídeo compilado da delação de Lúcio Funaro. O presidente da CCJ, deputado Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), permitiu que o vídeo de três minutos fosse mostrado porque está dentro do rol de documentos enviados pelo Supremo Tribunal Federal (STF) à Câmara dentro da segunda denúncia contra Temer.

No vídeo, Lúcio cita Temer e fala sobre a “bancada de Eduardo Cunha (ex-presidente da Câmara)”.

— Michel Temer fala em conspiração em carta que nem recebi. É uma carta-desespero do Michel Temer. Conspiração, o Michel Temer para falar nisso? A organização criminosa tem um sol no centro, que é Michel Temer — disse Júlio Delgado.

O PSB está rachado em relação ao governo. Por isso, em plenário, Temer deverá ter votos de parte da bancada, que já negocia com outros partidos. O deputado Danilo Forte (PSBCE) discute com o DEM, por exemplo. Mas, na CCJ, o partido votou de forma unânime contra Temer, dando quatro votos pelo prosseguimento da denúncia.

O movimento do partido aconteceu rapidamente depois que foi tornada pública a informação de que Temer havia exonerado os ministros Raul Jungmann (Defesa) e Fernando Bezerra Coelho Filho (Minas e Energia). Ambos reassumiriam seus mandatos de deputado temporariamente para evitar a perda de dois votos do PSB na CCJ. Jungmann é do PPS, mas entraria como suplente de um dos deputados do PSB que seriam trocados. Coelho Filho é do PSB e também assumiria no lugar de um dos correligionários substituídos.

 

LENTIDÃO DO GOVERNO

O governo demorou demais para enviar os ministros à Câmara. A manobra acabou não dando certo na Comissão de Constituição e Justiça.

— Temer é o sol da organização criminosa do PMDB — disse Júlio Delgado.