Título: Para contornar o tédio
Autor: Mariz, Renata
Fonte: Correio Braziliense, 18/03/2012, Brasil, p. 11
Desafio dos pais e professores de superdotados é evitar lacunas no aprendizado e estimular o desenvolvimento social. Pular séries motiva polêmica entre os educadores
No tabuleiro de xadrez, o que sobressai é uma característica inata dos superdotados: uma alta capacidade de solucionar problemas. Em áreas do conhecimento formal, cada oponente tem a sua preferência. Enquanto Paulo Victor Reis Moreira dá show com números, os ensinamentos de história e geografia são o forte de Ramon de Souza Rocha. Além de uma inteligência superior à média da população e de serem alunos da rede pública, os dois garotos de 15 anos têm em comum a aceleração na trajetória escolar. Fonte de muita controvérsia entre educadores e pedagogos, o mecanismo de pular séries, muitas vezes, é a única forma de o aluno superdotado não desistir dos estudos.
"Esses meninos geralmente não têm interlocutores na sala de aula, o que os deixa frustrados. Por outro lado, ao pular séries, você pode criar lacunas no aprendizado e interferir no desenvolvimento social, embora pesquisas apontem mais benefícios que prejuízos", explica Denise de Souza Fleith, professora do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB). As discordâncias são tantas que, em São Paulo, pelo menos quatro pedidos judiciais foram ajuizados neste ano por pais pedindo que a escola acelere o filho superdotado. No DF, a Secretaria de Educação não tem levantamento sobre isso. Polêmicas à parte, Ramon sentiu um alívio quando pulou da 7ª para a 8ª série. "Comecei a achar muito chato ver tudo o que eu já sabia", conta o garoto, hoje no 2º ano, que pretende cursar ciências sociais na UnB.
Para Paulo, a certeza de que precisava ser acelerado veio ainda na 3ª série. "Fiz uma prova e me saí melhor que metade da turma da 4ª. Aí eu pulei de série", conta o garoto, homenageado com menção honrosa, da 5ª à 8ª série, na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas. Íntimo de álgebra e aritmética, entre outras disciplinas que são verdadeiros mistérios para a maior parte da população, Paulo sabe que pode realizar o sonho de estudar engenharia mecatrônica, mas tem humildade para contar das dificuldades em história. Do lado do rival do xadrez, a encrenca é com os números. "Já tirei nota baixa em função e equação", diz Ramon.
"Além de acreditar que o superdotado tem que ser bom em tudo, outro mito é tratá-lo como gênio. Gênio é o superdotado que rompeu os paradigmas, como Einstein ou Picasso", diz Denise. O diferencial do superdotado em relação aos demais indivíduos, segundo a professora, reside na capacidade de criar, gerar produtos ou ideias, e não apenas reproduzir o que já existe. Mas tudo vai depender de serem estimulados. Uma área especial da superdotação é a liderança. "São meninos carismáticos, que agregam pessoas. Se formados com aspectos éticos, morais e emocionais, podem dar uma grande contribuição à sociedade", afirma Denise.