O Estado de São Paulo, n. 45234, 20/11/2017. Política, p. A4.
Temer fortalece Maia em trocas no primeiro escalão
Igor Gadelha
20/11/2017
As mudanças no primeiro escalão que o presidente Michel Temer vai anunciar nos próximos dias irão fortalecer o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEMRJ). Além de decidir entregar o Ministério das Cidades a um aliado de Maia, o governo já prepara a troca do comando do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) – defendida pelo presidente da Câmara.
Temer quer manter uma boa relação com Maia em razão da posição estratégica do deputado. Como presidente da Câmara, ele é responsável pelo cronograma de votação do plenário, o que inclui a reforma da Previdência e as medidas fiscais já enviadas pelo governo. O governo também precisa de Maia para votar os ajustes na reforma trabalhista, na medida provisória enviada pelo Planalto, o que contrariou o deputado, que defendia as mudanças por projeto de lei.
Ontem, Temer foi à casa de Maia para um almoço do qual participou o deputado Alexandre Baldy (sem partido-GO). Um dos principais aliados de Maia, Baldy foi convidado oficialmente para substituir Bruno Araújo (PSDB-PE) nas Cidades e aceitou. Parlamentares da base aliada e integrantes do núcleo político do governo também participaram do encontro, que se estendeu por toda a tarde.
Segundo um ministro próximo de Temer, o presidente deve indicar um nome que tenha aval de Maia para comandar o BNDES, maior fonte de financiamento hoje no País.
O atual titular do BNDES, Paulo Rabello de Castro, é alvo de pressão por parte de líderes da base governista. As críticas aumentaram após ele ter sido lançado pelo PSC como précandidato à Presidência, durante convenção do partido em Salvador (BA), anteontem.
O argumento é de que Rabello de Castro não pode continuar no cargo sendo pré-candidato. “Ele deve sair para cuidar só da candidatura dele agora”, disse o líder do PR na Câmara, José Rocha (BA). “O Paulo Rabello não pode falar e fazer determinadas coisas na presidência do BNDES e continuar no governo. Por mim, ele já estaria fora”, afirmou o vice-líder do DEM, deputado Pauderney Avelino (AM).
Temer, porém, ainda não bateu martelo sobre o nome do novo comandante do BNDES. Amigo do presidente, Rabello de Castro assumiu o BNDES em junho, após a saída de Maria Silvia Bastos Marques. A nomeação, contudo, nunca teve a simpatia de Maia. O presidente da Câmara não gostou de não ter sido consultado pelo governo sobre a escolha. Na época, ele defendia o nome de Luciano Snel, da Icatu Seguros, para o posto.
Rabello de Castro vem sendo alvo de “fogo amigo” desde que assumiu o cargo, por bater de frente com o governo em algumas situações (mais informações nesta página). A principal delas, a antecipação de pagamento ao Tesouro Nacional de empréstimos feitos ao banco de fomento.
‘Diarista’. Ao Estado, o economista afirmou que a cobrança por sua saída “perdeu o objeto”, pois não é candidato. Ele disse ter se filiado ao PSC para contribuir com uma “agenda para o debate nacional”, mas não descartou se candidatar. “Sou candidato a continuar meu trabalho. No futuro, se o Brasil insistir e se o presidente Temer insistir, posso ter outra missão para cumprir no aspecto político.”
Em entrevista durante a convenção partidária, no sábado, o presidente do BNDES afirmou que só se considerará candidato após a convenção do partido. “Meu cargo pertence ao ministro do Planejamento e, por sua vez, é um cargo do presidente. Brinco que sou um presidente diarista”, declarou.
No evento, Rabello de Castro, contudo, fez um discurso de candidato: “É preciso coragem para desafios do próximo ano e virada do Brasil para a prosperidade, que nós vamos ter”. Mas, ontem, atribuiu o lançamento de sua pré-candidatura à imprensa. “Se eu também fosse da imprensa estaria desejoso de aparecer mais nomes”, desconversou.
Na troca do comando do Ministério das Cidades, a indicação de Baldy vinha sendo articulada por Maia desde outubro e tem apoio do PMDB e de partidos do Centrão, entre eles PR, PSD e PP – sigla à qual o futuro ministro deverá se filiar, mas ainda sem data.
No encontro de ontem na casa de Maia foi discutida não só a reforma ministerial, como a da Previdência. Temer também tem ouvido Maia para escolher o substituto de Antonio Imbassahy (PSDB-BA) na Secretaria de Governo. O PMDB de Minas reivindica o posto e já apresentou ao presidente dois nomes: o dos deputados Mauro Lopes e Saraiva Felipe.
Ao deixar a residência oficial, Temer fez questão de se deixar filmar e fotografar ao lado do presidente da Câmara.
‘Fora’
“O Paulo Rabello não pode falar e fazer determinadas coisas na presidência do BNDES e continuar no governo. Por mim, ele já estaria fora.”
Pauderney Avenilino
VICE-LÍDER DO DEM
PARA LEMBRAR
Polêmicas à frente do banco
Em menos de seis meses na presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), principal instrumento do governo para financiar empreendimentos públicos e privados no País, o economista Paulo Rabello de Castro (foto) acumula uma série de polêmicas. Todas elas acompanhadas de frases de efeito que, por vezes, parecem vir de um opositor do governo e não de um de seus integrantes. “O BNDES não tem tanto cheque para passar para a viúva”, disse, em outubro, questionando uma determinação da equipe econômica para que o banco prepare novas devoluções de recursos ao Tesouro em 2018, de R$ 130 bilhões. De 2009 a 2015 o Tesouro repassou ao banco de fomento mais de R$ 500 bilhões, em empréstimos de longo prazo. Agora, o governo quer antecipar os pagamentos para ajudar as fechar as contas da União. Escolha pessoal do presidente Michel Temer, antes de assumir o BNDES Rabello de Castro presidiu por 11 meses o IBGE. Ao deixar o cargo disse que “não gostaria de sair do IBGE, a não ser por efeito de uma missão”. No banco, já no mês seguinte à sua posse, iniciou uma cruzada contra a mudança na fórmula para a taxa de juros de longo prazo cobrada nos empréstimos feitos pela instituição. Mesmo com muita resistência de Rabello de Castro, a taxa foi mudada. Depois, veio a questão da devolução de recursos. Na época, representantes da área econômica atribuíram as declarações do economista ao fato de estar “em campanha” para as eleições de 2018. Já eram fortes os rumores de que ele teria a intenção de ser candidato. Sinal nessa direção seria a filiação de Rabello ao PSC, mas ele afirmou que o ato indica apenas um “movimento proativo”. “Sou candidato a fazer o melhor possível no BNDES”, disse. As resistências ao economista, antes restritas a parlamentares da base aliada, passaram a ser compartilhadas pela área econômica do governo.