Título: Sequestro de brasileiras dura cerca de sete horas
Autor: Garcia, Larissa
Fonte: Correio Braziliense, 19/03/2012, Mundo, p. 13
Beduínos pararam ônibus de excursão a tiros. Insegurança na região do Sinai explode
Duas turistas brasileiras, um guia e um segurança locais foram sequestrados ontem, durante uma excursão ao mosteiro histórico de Santa Catarina, no sudeste do Sinai, no Egito, por beduínos armados. O ataque a tiros ao ônibus assustou duramente o grupo. Depois de pouco mais de sete horas em cativeiro, com as negociações conduzidas pelo Ministério do Interior egípcio, todos os reféns foram liberados. A Embaixada do Brasil no Cairo acompanhou de perto o diálogo entre as autoridades egípcias e os sequestradores. Foi o quarto crime desse tipo na região desde o início do ano.
Em entrevista ao portal G1, o pastor Dejair Batista Silvério, 60 anos, contou que o sequestro "foi muito assustador". Segundo ele, a filha, Sara Lima Silvério, 18 anos, e uma amiga, Zélia Magalhães de Mello, 45, foram levadas após homens armados "metralharem" o ônibus de turismo. O veículo transportava 45 brasileiros, que, segundo o Itamaraty, chegaram a salvo a um hotel. De acordo com uma fonte policial, ouvida pela agência de notícias France-Presse, um dos suspeitos é pai de um homem preso por tráfico de drogas e porte ilegal de armas e pretendia negociar a libertação do filho em troca dos reféns. Silvério garantiu que o governo brasileiro agiu rapidamente e agradeceu. "Recebi uma ligação do embaixador", disse.
Desde a queda do ditador Hosni Mubarak, há um ano, a incidência de sequestros a turistas por beduínos na região do Sinai aumentou. Com a onda de violência, a própria embaixada brasileira no país desaconselha viagens à região. Em nota, a representação divulgou um alerta e afirmou que não garante a segurança de visitantes na região. Isso mostra a dificuldade do poder militar egípcio para impor sua autoridade naquela conturbada área após a saída de Mubarak.
Problema crescente Em fevereiro deste ano, três sul-coreanos foram sequestrados por beduínos na região. Na ocasião, eles pediram a libertação de amigos e parentes presos. Os turistas foram libertados em poucas horas. Duas norte-americanas viveram situação parecidas — foram soltas depois de poucas horas. Também no mês passado, 25 trabalhadores chineses ficaram cerca de 20 horas como reféns do grupo. Os beduínos reivindicam, frequentemente, a libertação de membros detidos pelo governo egípcio.
Na última sexta-feira, depois de cercarem durante oito dias o campo da Força Multinacional de Observadores no Sinai (FMO), os beduínos levantaram acampamento, mas deram um mês às autoridades para soltar integrantes de sua tribo — muitos acusados de terrorismo. O Exército prometeu analisar o pedido. Grande parte do bando vive em Sinai, onde estão os pontos turísticos mais lucrativos do Egito. Eles acham que não foram beneficiados com a queda do ex-ditador, apesar de terem apoiado o movimento.
Uma rota de tráfico de drogas também passa pela península, que serve ainda como rota de passagem para imigrantes clandestinos rumo a países vizinhos e para o contrabando de armas para a Faixa de Gaza. O Exército, no poder desde a queda de Mubarak, tem dificuldades para tirar os grupos radicais da região, que é de difícil acesso — desértica e montanhosa. Enquanto a população beduína possui armas pesadas, as forças de segurança contam com poucos soldados, devido à desmilitarização do setor, prevista pelo acordo de paz egípcio-israelense. O problema não é recente. Entre 2004 e 2006, dezenas de turistas foram mortos em atentados e, como represália, as forças de Mubarak prenderam milhares de integrantes do grupo, dos quais muitos foram torturados e outros tantos permanecem presos. Com isso, a tensão na área não para de crescer.
Foi muito assustador. A gente pensou que fosse um assalto. No começo, a gente achou que eles iam usar as duas como reféns para roubar as pessoas do ônibus"
Dejair Batista Silvério, pastor e pai de uma das reféns, ao site G1