O Estado de São Paulo, n. 45315, 11/11/2017. Economia, p.B6
Por: Fernando Nakagawa Lorenna Rodrigues/
Fernando Nakagawa
Lorenna Rodrigues/ BRASÍLIA
As novas regras da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT) aprovadas pelo Congresso Nacional entram em vigor hoje em meio a reações muito distintas. Empregadores estão otimistas com a aposta de dinamização do mercado de trabalho e a perspectiva de criação de novos empregos. Já os sindicalistas adotam tom mais cauteloso e alertam para o risco de deterioração das condições de trabalho. Mas patrões e empregados coincidem em um ponto: há muitas dúvidas sobre as mudanças.
“A modernização da legislação trabalhista vai permitir a criação de milhões de novas vagas de emprego no médio e longo prazos. Haverá, sem dúvida, melhora no ambiente de negócios, o que estimulará novas contratações”, disse ao Estado o ministro do Trabalho, Ronaldo Nogueira. Além de gerar empregos, a reforma deve reduzir o litígio na Justiça do Trabalho, diz o ministro. “Apenas no ano passado, foram 3 milhões de novas ações de processos protocolados. Isso não é bom nem para as empresas, nem para os trabalhadores porque demonstra que falta segurança jurídica”.
Desde o início, a reforma trabalhista teve a aprovação comemorada pelos empresários. Um dos maiores entusiastas do projeto, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Braga de Andrade, diz que as novas regras “modernizam as relações do trabalho tendo como premissas a valorização do diálogo, a segurança jurídica e a redução da burocracia”.
Um dos temas mais apoiados entre empregadores é a possibilidade de que os acordos poderão se sobrepor à legislação. Assim, será possível empregados concordarem com condições diferentes daquelas previstas na legislação. Para as empresas, isso dará flexibilidade às relações do trabalho e poderão criar novos empregos. Para os trabalhadores, o temor é que o desnível do poder de barganha entre as duas partes prejudique os funcionários.
O presidente da União Geral dos Trabalhadores, Ricardo Patah, rebate a promessa dos patrões. “A reforma trabalhista não vai gerar nenhum emprego. O que gera emprego é reforma tributária, reforma do Estado e o fim da corrupção”, disse, durante protesto realizado ontem. Ao citar que a reforma é “essencialmente empresarial”, ele acusa a reforma de abrir brechas para a piora das condições de trabalho e, ao mesmo tempo, de sufocar o movimento sindical ao acabar com as fontes de financiamento das entidades.
Dúvidas. Para além dos elogios e críticas, há dúvidas e entendimentos contrários em várias questões, como jornada intermitente e “home office” (trabalho em casa). Um dos questionamentos é se as novas regras já alcançam todos os trabalhadores empregados imediatamente. De acordo com o Ministério do Trabalho, as novas regras valem para todos os trabalhadores com carteira assinada, exceto os que têm contrato específico firmado com o empregador. Nesse caso, terão de ser firmados aditivos contratuais com as modificações. Outro caso em que será necessário aditivo é para a migração para o teletrabalho.
Outra dúvida é sobre que pontos poderão ser negociados diretamente entre patrão e o empregado, sem a participação de sindicatos. A lei prevê que regras de banco de horas e compensação de jornada, demissão em comum acordo, parcelamento de férias em até três vezes e trabalho em home office pode ser acordado com o trabalhador diretamente. Já a redução do horário de almoço de uma hora para 30 minutos deve ser feita por convenção coletiva.
Para o presidente da Central dos Sindicatos Brasileiros (CSB), Antônio Neto, as dúvidas acerca da reforma foram geradas porque as alterações não foram suficientemente discutidas: “Temos agora a chance de ter acordos que ultrapassem o legislado, o que queremos é ter uma relação que respeite as categorias e os trabalhadores. Não vamos permitir que o trabalhador seja prejudicado.”
O crescimento potencial da economia pode chegar a 3,7% ao ano na próxima década com a aprovação das reformas, disse ontem o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles.
Sempre frisando que esse patamar ainda poderá ser superado, ele exibiu em apresentação a empresários em Porto Alegre uma estimativa “otimista” de crescimento médio de 4,5% nos próximos dez anos. A projeção “pessimista”, por sua vez, fica em 2% ao ano.
O ministro apresentou as mesmas projeções para o PIB per capita, com avanços médios na próxima década de 3,8% (cenário otimista), 3,1% (cenário com reformas) e 1,3% (cenário pessimista).
Confiante na aprovação da reforma da Previdência, Meirelles disse que essa será mais uma dentro da “agenda intensa” de reformas já aprovadas na gestão Michel Temer. É esse conjunto de mudanças, segundo o ministro, que vai permitir que o País cresça “a taxas bastante elevadas já nos próximos três anos”.
“Depois disso, vai depender das reformas estruturais”, afirmou, citando a reforma da Previdência e, em seguida, a tributária. “Estamos entrando em ciclo de crescimento de longa duração e baixa volatilidade”, frisou o ministro. / IDIANA TOMAZELLI