O Estado de São Paulo, n. 45314, 10/11/2017. Política, p.A8

 

 

 

 

Troca na PF enfraquece titular da Justiça

Por: Vera Rosa

 

Vera Rosa / BRASÍLIA

 

A escolha do delegado Fernando Segóvia para comandar a Polícia Federal enfraqueceu o ministro da Justiça, Torquato Jardim. Nos bastidores, o PMDB fez pressão para que o sucessor de Leandro Daiello na PF fosse alguém ligado ao partido após a Operação Lava Jato atingir o núcleo político do governo Michel Temer. A cobrança aumentou depois que um relatório da Polícia Federal apontou o presidente como chefe do “quadrilhão” do PMDB.

Em setembro, Torquato convenceu Daiello – que já havia pedido para sair e desejava se aposentar – a permanecer no cargo. À época, o nome de Segóvia já era dado como o mais cotado. Ex-superintendente no Maranhão, ele tinha o apoio do ex-senador José Sarney (PMDB-AP).

O delegado contava também com o aval do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, investigado na Lava Jato e denunciado pela Procuradoria-Geral da República por obstrução da Justiça e organização criminosa. A denúncia, que inclui Temer e o ministro Moreira Franco (Secretaria-Geral), foi barrada na Câmara. Segóvia foi apresentado a Padilha pelo ministro Augusto Nardes, do Tribunal de Contas da União (TCU).

As negociações para a troca da direção na PF estavam sendo feitas entre Daiello e Torquato desde que ele assumiu a Justiça, no fim de maio. O então diretor-geral da PF havia sugerido a escolha de um delegado com experiência e bom trânsito na corporação. Em conversas reservadas, Segóvia sempre foi visto como “homem do PMDB”.

 

Troca na Justiça. Torquato queria emplacar o número 2 da Polícia Federal, Rogério Galloro, no comando da instituição, mas não conseguiu. Ontem, um dia após a troca do diretor-geral, Galloro foi nomeado secretário nacional de Justiça, no lugar de Astério Pereira dos Santos.

Segundo o ministro da Justiça, Santos pediu demissão, mas isso nada tem a ver com a entrada de Segóvia. “Foi uma questão de foro íntimo”, afirmou Torquato ao Estado.

No Palácio do Planalto, o comentário era de que a nomeação de Galloro para a Secretaria Nacional de Justiça foi uma “compensação” para Torquato e uma ala da PF que queria ver o delegado como diretor-geral.

Galloro também vai acumular o cargo no ministério com o Comitê Executivo da Interpol.

 

Pressão. Em recente jantar com peemedebistas dissidentes, um deputado com trânsito no Planalto relatou aos presentes que Sarney estava fazendo “muita pressão” pela rápida nomeação de Segóvia.

Quando Torquato deu entrevista, na semana passada, dizendo que “comandantes da Polícia Militar são sócios do crime organizado no Rio”, Temer o chamou e pediu que ficasse em silêncio. Padilha acompanhou de perto esse movimento e, a portas fechadas, não escondeu a contrariedade com os petardos lançados pelo titular da Justiça.

As declarações de Torquato serviram como combustível para o PMDB voltar à carga pela saída do diretor-geral da PF. A manifestação do ministro foi interpretada no partido e no núcleo do governo como “vazamento” de investigações conduzidas pela PF, então sob o controle de Daiello.

O fato, somado ao relatório da PF sobre o chefe do “quadrilhão” do PMDB e à ação que resultou na descoberta do “bunker” do ex-ministro Geddel Vieira Lima (PMDB), em Salvador, com R$ 51 milhões, selou o destino de Daiello. Além disso, esvaziou o poder de Torquato. Amigo de Temer, o ministro foi escolhido na “cota pessoal”, sem ter vínculo partidário.

 

Segurança pública. Em mais de uma ocasião, Torquato contou que, ao convidá-lo para o cargo, o presidente lhe deu como prioridade a tarefa de cuidar da segurança pública. No Congresso, parlamentares do PMDB argumentam que ele perdeu a autonomia e hoje passa a imagem de “rainha da Inglaterra”, que reina, mas não governa. Não seria nem mesmo um conselheiro de Temer.

Ao Estado, Torquato disse ter ficado “surpreso” com a interpretação de que havia sido atropelado pelo Planalto na nomeação de Segóvia. Em nota, divulgada anteontem logo após a colunista Eliane Cantanhêde antecipar no estadao.com.br a troca do comando na PF, o ministro afirmava que “o senhor presidente da República escolheu nomear o delegado Fernando Segóvia como novo diretorgeral”. Em seguida, expressava “agradecimento pessoal e institucional” a Daiello.

“Ali eu disse o óbvio. Quem nomeia é o presidente da República. A decisão final é sempre dele”, comentou Torquato. / COLABOROU TÂNIA MONTEIRO

 

Mudança. Ministro da Justiça, Torquato Jardim, durante evento no Rio em agosto; segundo ele, decisão final é do presidente

 

Decisão

“Ali eu disse o óbvio. Quem nomeia é o presidente da República. A decisão final é sempre dele.”

Torquato Jardim

MINISTRO DA JUSTIÇA

 

“O ministro da Justiça expressa ao delegado Leandro Daiello seu agradecimento pessoal e institucional pela competente e admirável administração da Polícia Federal nos últimos seis anos e dez meses.”

Ministério da Justiça

EM NOTA DIVULGADA ANTEONTEM

 

 

 

 

Ex-peemedebista é cotado para nº 2 da corporação

Por: Fabio Serapião

 

Fabio Serapião / BRASÍLIA

 

O delegado Sandro Avelar deve ocupar o cargo de diretor executivo da Polícia Federal e ser o novo número 2 na hierarquia da corporação. Ontem, o novo diretor-geral da PF, Fernando Segóvia, começou a discutir a composição de sua diretoria.

Atual presidente da Federação Nacional dos Delegados de Polícia Federal, Avelar foi secretário de Segurança do Distrito Federal na gestão Tadeu Filippelli (PMDB), alvo da Lava Jato e ex-assessor do presidente Michel Temer. O delegado ficou no cargo de 2011 a 2014, quando saiu para concorrer à Câmara pelo PMDB. Sem conseguir se eleger, se desfiliou da sigla.

Uma das principais diretorias, a de Combate ao Crime Organizado, tem como o mais cotado para o posto o delegado Eugênio Ricas, que foi o número 2 de Segóvia na Superintendência da PF no Maranhão, entre 2008 e 2011. Ricas é hoje secretário estadual de Controle de Transparência no Espírito Santo.

A Diretoria de Combate ao Crime Organizado é responsável pelas delegacias que conduzem operações de combate à corrupção. Se nomeado, Ricas terá de escolher o novo coordenador de combate à corrupção da PF. Já o delegado Cláudio Ferreira Gomes, ex-corregedor da PF, é cotado para a Diretoria de Inteligência Policial.

 

Perfil. Nos 22 anos na corporação, Segóvia passou a última metade em cargos administrativos. Entre 2008 e 2011, esteve no comando da Superintendência no Maranhão. Com 48 anos, o delegado entrou na PF em 1995. Foi chefe da Coordenação-Geral de Defesa Institucional e do Serviço Nacional de Armas, entre 2003 e 2007, adido na África do Sul e número 2 na corregedoria da PF, cargo que ocupava antes de ser escolhido para suceder a Leandro Daiello na chefia da instituição.