Título: Servidor na folha de Cachoeira
Autor: Sassine, Vivicius
Fonte: Correio Braziliense, 04/04/2012, Política, p. 3

Tentativa do bicheiro de grilar terras no DF incluiu o pagamento de propina a comissionado

O suposto esquema de grilagem de terras no Distrito Federal, detectado nas investigações da Polícia Federal (PF) sobre a atuação do grupo de Carlinhos Cachoeira, incluiu a habilitação de um rádio internacional e o pagamento de propina a um servidor lotado hoje em órgão vinculado à Casa Civil da Presidência da República. É o que mostram as informações levantadas para a Operação Monte Carlo, deflagrada em 29 de fevereiro.

Os grampos telefônicos usados na operação detectaram conversas entre Gleyb da Cruz, considerado um dos principais integrantes da quadrilha de Cachoeira, e Rodrigo Mello, que exerceu no ano passado o cargo de assessor da Terracap. Rodrigo chegou à estatal em junho, depois de atuar como assistente na Controladoria-Geral da União (CGU). Ficou menos de um ano e, desde fevereiro, exerce o cargo de assistente técnico no Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), autarquia vinculada à Casa Civil.

Cachoeira e mais dois sócios são suspeitos de comprar 4.093 hectares da Fazenda Gama para tentar grilar os terrenos, como o Correio revelou em 8 de março. Segundo as investigações da PF, Cachoeira tentou regularizar a área por meio de pagamento de propina a servidores da Terracap, do Instituto do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos do DF (Ibram) e da superintendência do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).

As terras custaram R$ 2 milhões e o negócio foi fechado com um homem que "se intitulou proprietário do terreno em questão", conforme a PF. "Trata-se de um contrato de risco. Até dezembro de 2010, não existia registro da área nos cartórios do DF", cita a investigação.

"Agilizada" Em maio de 2011, Gleyb e Rodrigo marcaram um encontro pelo rádio internacional habilitado para o então servidor da Terracap. É o mesmo tipo de aparelho, segundo a PF, usado pelos integrantes da organização criminosa para se comunicarem. Eles acreditavam ser impossível a realização de grampo a partir de uma eventual decisão de quebra de sigilo telefônico, o que acabou ocorrendo. Depois de se encontrar com Rodrigo, Gleyb cita numa conversa que "deu uma alinhavada e que o cara cobrou 25 para dar uma agilizada". "Temos indícios claros de que Gleyb teria repassado ou repassaria R$ 25 mil ao servidor que estaria o ajudando. O acompanhamento de rotina de Gleyb sugere que ele estava se referindo a Rodrigo Jardim", sustenta a PF.

Ao Correio, Rodrigo admitiu ter mantido contatos com Gleyb. "Na Terracap, eu atendia "n" pessoas." Ele também afirma que tinha um rádio, usado "como um celular". "Quem me deu o rádio foi um amigo", diz o servidor público, sem revelar quem é o amigo. Rodrigo nega ter recebido pagamento de propina de integrantes do grupo de Cachoeira.

O servidor sustenta ser impossível ter recebido qualquer pagamento de propina para regularizar a área da Fazenda Gama na Terracap, pois, segundo ele, o terreno pertence à Infraero — a empresa nega. A Terracap diz que a Fazenda Gama está registrada em cartório desde 1968, no nome da Base Aérea de Brasília. Pertenceria, portanto, à União.

Jovair pede liberação dos jogosUm dos investigados por associação ao bicheiro Carlinhos Cachoeira, o deputado federal Jovair Arantes (PTB-GO) admitiu ontem que pediu doações de campanha ao contraventor para tentar alcançar a prefeitura de Goiânia. O parlamentar ainda defendeu a legalização dos jogos de azar no Brasil. "É uma vergonha o jogo no Brasil não ser liberado. O Brasil é o único país da América do Sul que não tem jogo", disse Arantes. O deputado ainda defendeu o contraventor. "Ele é um empresário bem-sucedido em Goiás. Todo mundo tem seu pecado e sua virtude. Eu não sou palmatória", afirmou.

-------------------------------------------------------------------------------- adicionada no sistema em: 04/04/2012 02:49