O globo, n. 30728, 23/09/2017. País, p. 3.

 

O legado de Cabral e Adriana

Juliana Castro 

23/09/2017

 

 

Visita à casa de Mangaratiba, que será vendida, revela predileções do ex-governador, como as obras de Romero Britto e o livro ‘Flanando em Paris’

 

 

Na casa do ex-governador do Rio Sérgio Cabral (PMDB) e da ex-primeiradama Adriana Ancelmo em Mangaratiba, no Sul Fluminense, as imagens sacras dividem espaço com obras do artista plástico Romero Britto, presentes em quase todos os cômodos. No corredor que leva às cinco suítes do imóvel — três delas com vista para o mar da Praia São Braz —, um quadro com o rosto de Adriana, pintado pelo pernambucano, fica em uma extremidade; na outra ponta, está a homenagem a Cabral. É o colorido das obras do artista que quebra o branco e os tons pastéis que predominam na casa

Cenário. Quarto do casal, uma das cinco suítes da residência: tons pastéis, vista para o mar e alguns objetos pessoais deixados para trás

O imóvel, ainda repleto de fotografias de família e outros objetos pessoais, vai a leilão no dia 3 de outubro. O lance mínimo é de R$ 8 milhões, valor pelo qual a casa com 462 metros quadrados de área construída foi avaliada pela Justiça. Contando a área externa, com duas piscinas, sauna e churrasqueira, são mil metros quadrados. Se não for arrematado, um segundo certame será realizado em 11 de outubro. Neste caso, o lance mínimo passa a ser de R$ 6,4 milhões — o equivalente a 80% do valor de avaliação.

Um pela mansão revelou o quanto a família é fanática pelo Vasco da Gama e algumas preciosidades na biblioteca de Cabral. Em uma mesma pilha de livros, estavam as obras “Antologia da Maldade”, de Gustavo Franco e Fabio Giambiagi, “Estado de Crise”, de Zygmunt Bauman e Carlo Bordoni, e “Flanando em Paris”, de José Carlos Oliveira. O livro sobre a capital francesa traz à memória as constantes referências do colunista do GLOBO Jorge Bastos Moreno, morto em junho, que sempre ironizava a predileção do ex-governador por Paris.

Na cozinha, com fogão industrial, há três geladeiras. Uma delas é da Cervejaria Itaipava, do mesmo modelo visto em bares, e que remete às investigações da Lava-Jato que ligam a empresa a pagamentos de propina e doações ilegais para a campanha do ex-governador.

Quem arrematar a mansão vai levar a geladeira da Itaipava, outros eletrodomésticos, móveis e eletrônicos que lá estão. E eles não são poucos. Ainda há dois carrinhos de golfe que eram usados para andar pelo condomínio Portobello, onde fica o imóvel. É lá, aliás, que muitos investigados na Lava-Jato compraram ou alugaram casas, entre eles o empreiteiro Fernando Cavendish e o empresário Arthur Cesar Menezes Soares Filho, conhecido como “Rei Arthur” — os dois são acusados de pagar propina a Cabral para obter contratos com o governo.

O ex-governador já deu festas no imóvel durante o réveillon, com DJ contratado, diversos secretários e mergulho no mar para celebrar o novo ano. Mas, na maior parte do tempo, a mansão serviu mesmo para o refúgio da família durante os finais de semana, quando eles usavam o helicóptero do governo do estado para o deslocamento entre Rio e Mangaratiba, como revelou uma reportagem da revista “Veja”, em 2013.

Lá, a família Cabral poderia usar a lancha Manhattan Rio, que o Ministério Público Federal apontou ser do ex-governador, apesar de estar em nome de um ex-assessor. A embarcação, com 24 metros de comprimento, foi avaliada em R$ 4 milhões e também será leiloada. Na parte interior, há TV, aparelhagem de vídeo, geladeira e fogão. São dois deques, duas suítes, duas cabines laterais com camas de solteiro, um bar lounge, uma sala de estar, uma sala de jantar e quatro banheiros. No certame, o leiloeiro Renato Guedes vai receber ainda lances para três veículos, um jet ski e uma embarcação de menor porte.

 

ENTRADA DE 25%, E MAIS 30 PARCELAS

Os lances serão presenciais, na sede da Justiça Federal do Rio, mas podem ser feitos pela internet (www.rioleiloes.com.br), desde que o cadastro tenha sido feito até 24 horas antes do leilão. A regra de pagamento para os bens é a mesma: ao menos 25% do valor arrematado como entrada, e o restante em até 30 parcelas. Quem quiser fazer lances poderá agendar uma visita à mansão de Cabral. Entretanto, a empresa responsável pelo certame faz a checagem de dados do interessado, incluindo a renda.

Os sete bens de Cabral e Adriana a serem leiloados estão avaliados em R$ 12,5 milhões. O dinheiro será usado para ressarcir os cofres públicos. A decisão foi do juiz Marcelo Bretas, que entendeu que os bens poderiam se depreciar e perder valor. Na quarta-feira, ele condenou o ex-governador a 45 anos e 2 meses de prisão — a pena de Adriana é de 18 anos e 3 meses.

O advogado Rodrigo Roca, que defende Cabral, condenou a autorização para que a imprensa visitasse a casa do ex-governador e disse que analisa a viabilidade de uma representação contra o juiz no Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

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Bretas afirma que está perto de descobrir omissão em delação premiada

Miguel Caballero

23/09/2017

 

 

‘Quem vai pagar o preço de ser espertinho é ele’, diz juiz da Lava-Jato

 

 

Dois dias depois de condenar o ex-governador Sérgio Cabral (PMDB) a 45 anos de prisão, o juiz Marcelo Bretas, titular da 7ª Vara Federal Criminal do Rio, revelou que está perto de comprovar que um dos delatores de casos da Lava-Jato no estado omitiu informações à Justiça e pode perder benefícios por isso.

Bem-humorado, em palestra para estudantes de Direito da FGV, ontem, Bretas fez piadas. Alertado de que seu tempo estava perto do fim, brincou: “O único lugar onde eu posso roubar é aqui, roubar o tempo das pessoas” — e comentou alguns dos temas mais polêmicos nos debates jurídicos no país, como as delações premiadas.

— (O mecanismo da delação) Pode ter defeito? Pode ter problema? Pode. E daí? A gente corrige. Se o sujeito mentir, esconder, isso vai ser descoberto. Estou diante de uma situação em que estou próximo de alcançar isso — contou. — Ah, mas está escondendo alguma coisa? Ah, esse assunto não falou? A gente anota ali. Quem vai pagar o preço de ser espertinho é ele (eventual colaborador que omitir fatos). Porque a lei é clara: vale tudo que ele falou, só que perde o direito de não ser preso, de não ser processado. Então não vale a pena ser engraçadinho nessa hora.

Na quinta-feira, o ex-secretário de Saúde Sérgio Côrtes prestou depoimento no processo em que é acusado de obstrução à Justiça por ter tentado influenciar a delação de Cesar Romero, ex-subsecretário de Saúde e delator do esquema. Côrtes acusou o ex-subordinado de ter omitido fatos em sua delação.

 

SEM PRAZER EM PRENDER

A pedido da defesa do ex-secretário, que sustenta ter sido Romero quem tentou combinar versões para uma delação conjunta, origem da acusação de obstrução, Bretas determinou que a companhia telefônica apresente informações sobre as ligações recebidas por Côrtes.

O juiz contou também que alguns acusados em processos na Justiça Federal do Rio teriam ficado satisfeitos quando seus casos vieram para os tribunais do estado.

— Havia desconfiança sobre a Justiça do Rio, de que o pessoal (do Judiciário) fica mais na praia do que no Fórum... Fiquei meio contrariado quando vi pessoas festejando o fato de ter vindo para o Rio. Falei: “Como assim, festejando? Não sei, talvez seja um pouco cedo para festejar”. Não que sejamos melhores ou piores que ninguém, mas eu não compactuo com irregularidade.

Depois dizer que “a corrupção sistêmica pode ser comparada ao genocídio, porque tira a vida de muitas pessoas”, Bretas garantiu que não tem prazer em condenar corruptos.

— Meu prazer não é prender. O prazer de um juiz é cumprir a lei. Posso assinar uma ordem de prisão chorando com pena, mas vou assinar, porque não tenho direito de ter pena.

Sobre acusação de imparcialidade de juízes, Bretas pediu para que as pessoas desconfiem dos magistrados.

— Não tenho dúvida da minha imparcialidade, mas fiquem à vontade para arguir.