Correio braziliense, n. 19961, 17/01/2018. Política, p. 4

 

Foco no apoio dos evangélicos

Rodolfo Costa e Paulo de Tarso Lyra 

17/01/2018

 

 

PODER » Temer abre espaço na agenda para encontros com pastores de olho na aprovação da reforma da Previdência na Câmara

Depois de encontros com empresários, prefeitos e governadores, o presidente Michel Temer tenta, agora, o apoio de líderes evangélicos pela reforma da Previdência. Nos últimos dois dias, ele se reuniu no Palácio do Planalto com o fundador da Igreja Mundial do Poder de Deus, apóstolo Valdemiro Santiago, e com o presidente da Assembleia de Deus em São Paulo, pastor José Wellington. Hoje, recebe o líder da Igreja Internacional da Graça de Deus, missionário Romildo Ribeiro Soares.

A estratégia do peemedebista é não poupar esforços no trabalho de convencimento. Tanto que outros líderes religiosos estão no radar de Temer. Na sexta-feira, pediu que o gabinete do ministro-chefe da Secretaria de Governo, Carlos Marun, se encarregasse de agendar uma reunião com o líder do ministério Vitória em Cristo — ligado à Assembleia de Deus —, Silas Malafaia.

O encontro não ocorreu porque o religioso se encontra em descanso com a família, mas é dado como certo no Planalto. Outro pastor que deve ser recebido pelo chefe do Executivo Federal é o presidente executivo da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), pastor Samuel Ferreira, filho do ex-deputado federal bispo Manoel Ferreira.

Não é para menos o apelo pelos evangélicos. É a religião que mais cresce, contando, atualmente, com mais de 48 milhões de fiéis. Diante disso, Temer pediu apoio tanto no processo de convencimento a parlamentares da bancada evangélica, como também nos cultos. “Ele cobrou comprometimento nas duas frentes. E que seja transmitido o recado de que é uma reforma que não prejudica os mais pobres”, afirmou um interlocutor do peemedebista.

A aproximação de representantes do governo federal com os evangélicos não é recente. Desde o fim do ano passado, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, tem participado de cultos. Aliados de Temer fazem boa avaliação dessa proximidade. “Os evangélicos têm gostado disso por estarem se sentindo prestigiados”, sustentou um governista. Outro aliado destaca a importância de obter apoio da bancada evangélica. “Será importante para obter apoio de outros parlamentares”, analisou um líder da base.

O convencimento dos líderes evangélicos juntamente às bancadas da religião no Congresso, no entanto, não será tarefa fácil. O deputado federal Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) destaca que a omissão do governo em pautas que desagradam aos religiosos no Senado — como o projeto que legaliza os jogos de azar, o que regulamenta a união homoafetiva e o que descriminaliza o uso de drogas — e a postura de Temer em apoiar a Palestina na ONU, em detrimento a Israel, complicam o apoio de parlamentares e dos fiéis.

“Isso gerou atrito e desgastes com a bancada evangélica. É bem verdade que o governo retirou da Base Nacional Comum Curricular menções à ideologia de gênero, mas ainda está em dívida conosco”, ponderou Cavalcante. O parlamentar ressalta que o diálogo com os evangélicos deve ser ideológico. “A política fisiológica, de negociação de emendas, cargos, e espaço no governo, pode até existir, mas é secundária”, advertiu.