Valor econômico, v. 18, n. 4425, 19/01/2018. Especial, p. A14.
Programa vai reforçar formação de professor, diz Mendonça Filho
Dani Rodrik
19/01/2018
Como ocorre de tempos em tempos, após anos de abertura e integração global, o pêndulo do populismo e da demagogia política voltou a ficar em alta e tornou-se o elemento comum a unir países tão diferentes quanto os da zona do euro, os Estados Unidos e mesmo o Brasil, diz Dani Rodrik, 60 anos, professor de política econômica internacional de Harvard e um dos mais respeitados economistas do mundo. "Os motivos para seu surgimento são diferentes em cada lugar, mas é a mesma ameaça, surgida a partir da perda de confiança na classe política tradicional", diz.
Para Rodrik, que nasceu na Turquia, o eleitor precisa ficar atento aos políticos que não respeitam as instituições, o estado de direito e a liberdade de imprensa, mas deve valorizar os que têm ideias econômicas fora da caixa. "Surgiu um tipo de globalização enviesada, que favoreceu o livre movimento de capital e dinheiro, mas não de trabalhadores, por exemplo", afirma. "Há acordos comerciais que privilegiam investidores e proteção de patentes para indústrias farmacêuticas, mas não necessariamente proteções sociais ou contra a redução de salários e benefícios."
Como o problema é comum, a saída em qualquer país é a mesma: novas soluções para atender a quem tem sido desfavorecido pela desigualdade, de modo a evitar que discursos apoiados em segregação étnico-racial ou outras restrições conquistem os eleitores.
Segundo ele, a luta contra a corrupção no Brasil é um movimento importantíssimo, pelo qual "poucos países na mesma situação atravessariam", mas que pode cobrar um preço alto, caso um populista seja eleito como resposta à rejeição aos políticos tradicionais. "Temos de entender que há uma ânsia por mudança e por um tipo diferente de político, que se conecte com as pessoas comuns", diz.
Valor: Teremos eleições neste ano no Brasil e, até agora, há candidato de perfil populista aparecendo com destaque nas pesquisas de intenção de voto. Seus artigos sobre populismo e demagogia parecem ter sido escritos para a nossa realidade, mas eles devem causar o mesmo efeito em qualquer país do mundo. O que ocorreu para essa sensação estar em todos os lugares?
Dani Rodrik: [Rindo] Infelizmente a realidade é que muitos dos políticos do centro perderam credibilidade e confiança, o que abriu espaço para políticos não convencionais. Às vezes os chamamos de demagogos, às vezes simplesmente de populistas, mas temos de começar entendendo que eles estão respondendo a uma necessidade legítima: o fracasso do sistema político estabelecido. Temos de entender que, até certo ponto, há uma ânsia por mudança, por um tipo diferente de político que talvez seja menos tecnocrático, menos globalista e faça mais conexões com as pessoas comuns. O perigo, é claro, é que isso se configure no velho estilo de populismo, irresponsável em economia e que cause danos em termos dos efeitos a normas liberais [que buscam ativamente mudanças políticas e sociais]. Do meu ponto de vista, o que procuro saber, principalmente, é sobre as atitudes desses políticos não convencionais em suas áreas de atuação. São autocráticos ao fazer política? Respeitam a independência do Judiciário e a liberdade de imprensa? Entendem a necessidade de se comprometer e negociar? Entendem a necessidade de diversidade e tolerância? Ou falam nos tons e na língua da etno-nacionalidade direitista nativista e populista, que é intrinsecamente autocrática e muito perigosa para a política?
"A grande questão não é se queremos mais ou menos globalização, mas que tipo de globalização queremos"
Valor: Não é essencialmente esse discurso que atrai os eleitores?
Rodrik: Coloco um ênfase em [prestar atenção] em suas políticas e atitudes sobre instituições políticas, estado de direito e liberdade de imprensa. Em termos de políticas econômicas, deveríamos ser um pouco mais abertos a mais experimentação, a novas ideias e pensamentos fora da caixa. Estou perfeitamente de acordo com novas ideias, não convencionais em políticas econômicas, mas acredito fortemente que têm de ser feitas no contexto de não violação de normas políticas, democráticas e liberais. Para mim, por exemplo, foi a principal diferença, na última eleição presidencial americana, entre Bernie Sanders e Donald Trump. Sanders tinha mais ideias econômicas, algumas das quais eu concordava, outras não, mas nunca achei que ele pudesse se tornar um autocrata. Ele entende e respeita as normas liberais democráticas. Donald Trump, não. Portanto, ele é muito mais perigoso. Em geral, isso é verdade com populistas de direita.
Valor: Por quê?
Rodrik: Eles tendem a ter uma visão, um certo estilo de governo, em que se sentem falando pelo povo e, portanto, as pessoas não deveriam querer limitar sua atuação. Assim, os métodos tradicionais de controle da autoridade executiva, sejam a mídia ou o Judiciário independentes, podem ou devem ser facilmente dispensáveis. Isso é muito mais perigoso porque é um dano mais difícil de ser desfeito do que políticas econômicas que não funcionem.
Valor: Os políticos tradicionais podem recuperar o espaço que estão perdendo?
Rodrik: Sim, mas eles precisam ter novas ideias. Bernie Sanders tinha algumas dessas ideias, como, por exemplo, a de que os Estados Unidos tinham se tornado muito financeiros. Era preciso cortar o poder de Wall Street, o poder de instituições financeiras e reduzir o papel do dinheiro na política. Ele também tinha políticas muito inclusivas, em termos de acesso a saúde e a educação. De muitos modos, suas políticas eram muito radicais, já que ele se descreve como socialista. Era inimaginável que um socialista chegasse tão longe nos Estados Unidos. De novo, isso fala sobre o tipo de demanda que as pessoas têm, por diferentes tipos de políticas. Todo país, em algum nível, está sofrendo do mesmo problema - as elites centrais sofrendo descrédito por um número diferente de razões. No Brasil, grande parte do problema tem a ver com o escândalo de corrupção, mas, ao mesmo tempo, os detalhes e as especificidades de cada país são diferentes. A resposta tem de ser construída em relação a essas diferenças e especificidades.
Valor: Na onda populista que avança pelo mundo, é preciso escolher entre a hiperglobalização, a soberania nacional e a democracia, como o senhor escreve?
Rodrik: Temos de entender que, quanto mais nos integramos com a economia mundial e nos submetemos ao humor do comércio global, há menos espaço doméstico para experimentação e inovação em políticas ou para fazer coisas diferentes. Reduzimos o escopo para as tomadas de decisões democráticas. Essa limitação nem sempre tem um efeito ruim. Ela fere em formas extremas de globalização ou certos extremos de globalização financeira. O que se pode fazer com o regime de impostos e com suas políticas macroeconômicas é bastante limitado. O problema dos países avançados, em particular na zona do euro, é que há políticos que negam as trocas obtidas ao integrar suas economias num mercado único, uma só moeda e um mercado financeiro. Eles dizem: "Podemos ter o melhor dos dois - os benefícios da integração econômica, e ainda nossa soberania nacional, com a tomada de decisões democráticas".
Valor: Mas não podem?
RodriK: A verdade é que eles não podem. Essencialmente, a tomada de decisões políticas migrou para fora das capitais nacionais, para Bruxelas e Frankfurt. Mas os políticos continuam nas capitais nacionais. Significa um problema duplo: os criadores de políticas nacionais tradicionais se escondem atrás das regras europeias e dizem que não podem fazer nada porque estão de mãos atadas. O processo de integração europeia perde legitimidade porque as instituições europeias são vistas como a razão para o déficit democrático e o mal funcionamento econômico. Mas esse é um problema mais ligado às economias avançadas do que a países como o Brasil ou outros mercados emergentes porque eles não estão tão integrados à economia global. Essas trocas não funcionam do mesmo jeito nessas economias. O trilema fica mais evidente no contexto da zona do euro.
Valor: Como os políticos populistas escolhem os "inimigos do povo"?
Rodrik: Depende de quais são os indivíduos mais suscetíveis da sociedade ou as divisões políticas mais salientes. Obviamente, em muitos países europeus têm sido os imigrantes. Nos Estados Unidos, tem sido, em grande parte, o comércio, pelo crescimento rápido dessa atividade, particularmente com países de baixa renda. No Brasil, presumivelmente é a elite corrupta. O populismo é sempre construído em extremos ou a partir de histórias que explicam o porquê de as pessoas estarem sofrendo, não serem respeitadas, as condições econômicas não estão melhorando suficientemente. O contexto específico determina qual será a divisão que funciona melhor, baseada em etnicidade, religião, diferenças em classes sociais ou acesso a recursos.
"Não consigo imaginar muitos países capazes de lançar, continuar e sustentar um nível de investigação à corrupção tão alto"
Valor: O governo brasileiro tem tentado fazer reformas para o equilíbrio das contas públicas e sido obrigado a reduzir alguns direitos. Essa é uma das principais fontes de insatisfação que conduzem ao populismo, segundo seus artigos. Esse populismo é inevitável?
Rodrik: Não é inevitável. Populismo tem a ver com o tipo de globalização e políticas domésticas buscadas. Temos essa volta do populismo porque a agenda da globalização foi capturada por um grupo particular de interesses: corporações multinacionais, indústrias farmacêuticas, instituições financeiras. Surgiu, então, um tipo de globalização muito enviesada, que favoreceu o livre movimento de capital e dinheiro, mas não de trabalhadores, por exemplo. Há acordos comerciais que enfatizam privilégios para investidores e proteção de patentes para indústrias farmacêuticas, mas não necessariamente proteções sociais ou contra a redução de salários e benefícios sociais. Essa é a fonte dessa volta ao protecionismo. Podemos certamente chegar a uma globalização mais balanceada, que traga mais benefícios para um número maior de pessoas. Essa forma, porém, tem de começar com o entendimento de que a globalização não é uma coisa só. A questão não é se queremos mais ou menos globalização, mas que tipo de globalização queremos, quem está sentado à mesa de negociação e que tópicos são discutidos. É o rebalanceamento da globalização o que verdadeiramente precisamos.
Valor: O Brasil tem um populista de direita por enquanto bem colocado nas pesquisas, mas a América Latina é conhecida por seus populistas mais à esquerda. Há alguma razão especial para essa mudança?
Rodrik: Obviamente, há um ambiente fértil para populistas de direita, tanto por razões domésticas, quanto globais. Isso está acontecendo em todos os lugares do mundo, é quase como se fosse contagioso. Domesticamente, o Brasil tem um ambiente favorável para esse tipo de reação, infelizmente, dado ao impacto que a classe política recebeu, por causa dos escândalos de corrupção. De certa maneira, é uma falta de sorte porque vejo, de certa distância, as ótimas conquistas do Brasil.
Valor: Quais?
Rodrik: Não consigo imaginar muitos países capazes de lançar, continuar e sustentar um nível de investigação à corrupção tão alto, sem o processo ser interrompido por autoridades ou capturado por interesses políticos muito específicos. Geralmente é o que acontece em outros lugares, quando há indícios fortes de corrupção nos grandes negócios da política: são esmagados pelas autoridades ou politizados. É claro que não foi um processo perfeito, mas é bastante extraordinário que nada disso tenha acontecido. De muitas maneiras, essa limpeza pela qual o Brasil tem passado, está deixando o caminho aberto para o futuro. Nesse processo, os políticos tradicionais foram tão enfraquecidos que acabaram substituídos por indivíduos sem ligação com normas liberais e democráticas. Infelizmente, haverá um preço alto a ser pago e será uma consequência lamentável. Por outro lado, o Brasil está se posicionando para um futuro melhor porque, quando se compara o que está acontecendo aí com outros países - tão ou mais corruptos que o Brasil, como o México, a Turquia, a Malásia, a China, a Rússia, a África do Sul -, eles não estão lidando com esse processo contra a corrupção, nem poderiam por causa de seus regimes políticos. Se o Brasil puder atravessar essa fase crítica sem danos significativos a seu sistema político democrático, poderia deixar para trás [esse problema], enquanto todos esses outros países ainda terão o desafio a enfrentar e haverá grandes sequelas nessa estrada no futuro. Poderia ser bom para o Brasil, se o país passasse bem por esse obstáculo.
Valor: O senhor mostra, em seus textos, que esse retorno do populismo acontece de tempos em tempos, ao longo da história. Hoje, porém, temos as redes sociais às quais muitos atribuem a radicalização dos movimentos mais conservadores. Elas têm sua parcela de culpa?
Rodrik: As redes sociais tendem a exacerbar a questão da polarização e provavelmente tornam os políticos mais voláteis. Mas [o populismo] é um problema endêmico, que sempre esteve lá. Não devemos exagerar o papel das mídias sociais. Mesmo se não existissem, teríamos essa volta do populismo e os problemas de políticos não liberais retornando durante períodos de fundamentalismo de mercado extremos e hiperglobalização.
Valor: A hiperglobalização é a principal causa dos problemas?
Rodrik: É uma parte de um problema maior, cuja origem está na mudança da estrutura de políticas econômicas, desde os anos 80. Pode-se chamar de fundamentalismo de mercado, de liberalismo e a hiperglobalização é a dimensão global externa disso. Muitas das coisas que acontecem na política econômica doméstica nos Estados Unidos, por exemplo, como a erosão das redes de proteção, o declínio no salário mínimo real e do progresso da redução de impostos, com o consequente grande aumento da desigualdade, não só é um produto da hiperglobalização, mas um número de políticas. Apesar de não ser o principal problema brasileiro, ainda é o mesmo tipo de resultado. Parece ser a mesma ameaça comum entre países como Brasil e os Estados Unidos e a Europa: a perda de confiança na classe política tradicional.