Título: Mais IOF leva dólar a R$ 1,80
Autor: Hessel , Rosana
Fonte: Correio Braziliense, 13/03/2012, Economia, p. 11
O governo deu ontem mais um sinal de que não ficará apenas na promessa de proteger a economia do país da enxurrada de dólares, que valoriza o real e tira a competitividade dos produtos brasileiros no exterior. O Palácio do Planalto baixou decreto no qual ampliou para cinco anos o prazo dos financiamentos realizados fora do país que terão de pagar 6% de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). Há menos de duas semanas, o Ministério da Fazenda havia ampliado, de dois para três anos, o vencimento dos empréstimos alvos de tributação. Com isso, os investidores foram às compras e a moeda norte-americana encerrou a segunda-feira cotada a R$ 1,805, com alta de 1,12%. Em alguns momentos do dia, a divisa chegou a ser negociada a R$ 1,83.
Apesar de reconhecerem os efeitos das ações tomadas pelo governo, os especialistas acreditam que a tendência do dólar ainda é de baixa em relação ao real. "Vamos ver até quando o mercado se ajustará às medidas. Temos de lembrar que, num passado recente, as ações do governo não foram suficientes para conter a valorização da moeda brasileira. Além disso, o decreto baixado ontem não afeta muito o fluxo das captações externas, pois a maioria delas tem prazo de vencimento superior a cinco anos", disse Sílvio Campos Neto, da Tendências Consultoria. Na avaliação de Inês Filipa, economista-chefe da Icap Brasil, no curtíssimo prazo, pode-se esperar uma reação do dólar. "Mas tudo indica que a moeda voltará a romper o piso de R$ 1,70", afirmou.
Para o diretor executivo da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme, em vez de ações paliativas, o governo deveria atacar, com vigor, os problemas estruturais que realmente minam a competitividade dos produtos nacionais tanto no exterior quanto no mercado doméstico, como a infraestrutura deficiente e a pesada carga de impostos que inibe os investimentos produtivos e encarece a contratação de mão de obra. "O que estamos vendo é um arsenal de baixíssimo alcance e efeito", destacou. A seu ver, ao usar termos como "guerra cambial e tsunami monetário", a presidente Dilma Rousseff recorre a "sofismas", transferindo para os outros, problemas que têm origem na falta de virtudes do Brasil.
Especulação Sendo assim, acrescentou Campos Neto, da Tendências, o governo precisa melhorar o arsenal de longo prazo. "O momento pede uma estratégia para reduzir os custos de produção, pois, se não, continuaremos apenas elevando impostos sobre o câmbio", enfatizou. O Ministério da Fazenda ressaltou, porém, que o governo está no caminho certo. "O ministro (Mantega) já tinha avisado que o governo adotaria medidas para defender o real e que a equipe econômica não ficará assistindo à guerra cambial de forma impassível", assinalou a pasta por meio de nota. É provável que, ainda nesta semana, o Planalto aprove a ampliação do prazo de vigência da redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) dos eletrodomésticos. O benefício acaba em 31 de março.
Na opinião de Campos Neto, ao taxar os empréstimos no exterior, o governo não pegou apenas o capital especulativo, que vem para o Brasil atrás do diferencial de juros — aqui, a taxa básica (Selic) está em 9,75% ao ano e, nos Estados Unidos, Japão e Europa, em 1% anual. "Com certeza, as pequenas e médias empresas, que vinham tentando se financiar fora do país, onde os juros são infinitamente menores, serão as grande prejudicadas", afirmou. "É preciso ser mais técnico, agir sobre a causa principal, que é a arbitragem especulativa atraída pela nossa taxa de juros ainda exuberante", emendou Nehme, da NGO.
Tesouro emite R$ 1,5 bilhão O Tesouro Nacional finalizou, na sexta-feira passada, a primeira oferta no ano de títulos prefixados, com vencimento em janeiro de 2023. Foram emitidos 1,5 milhão de papéis, no valor de quase R$ 1,5 bilhão, que vencerão nos próximos 10 anos. É a terceira vez que o Tesouro coloca esses papéis no mercado brasileiro — as operações anteriores foram realizadas em 2007 e em 2011. A estratégia da instituição é ampliar os prazos de vencimento do endividamento federal e baratear seu financiamento ao longo do tempo. "O resultado foi muito bom. Tivemos uma procura 3,5 vezes maior do que a oferta", disse o subsecretário do Tesouro e responsável pela dívida pública, Paulo Valle. Segundo ele, a taxa de juros para a remuneração do papel ficou em 11,55% ao ano