Correio braziliense, n. 20021, 15/03/2018. Mundo, p. 14
Diplomatas expulsos
15/03/2018
A primeira-ministra Theresa May deu ontem nomes e números à mais séria crise diplomática entre o Reino Unido e a Rússia desde o fim da Guerra Fria, no início dos anos 1990. Depois de reunir o Conselho de Segurança Nacional na residência oficial de Downing Street, a chefe de governo foi ao parlamento anunciar as represálias contra Moscou pelo envenamento do ex-agente duplo Sergei Skripal e da filha, Yulia, na cidade inglesa de Salisbury. May decidiu expulsar 23 diplomatas, apontados como “agentes de inteligência não oficiais”, e congelou os contatos bilaterais — inclusive uma visita prevista do chanceler Sergei Lavrov. A chancelaria russa lamentou que Londres tenha feito “a escolha da confrontação” e prometeu que sua resposta “não tardará”.
Passados 10 dias desde que Sergei e Yulia Skripal foram encontrados no banco de um parque, sob os efeitos de um agente químico neurotóxico de uso militar e origem russa, a premiê denunciou perante os deputados o “uso ilegal da força pelo Estado russo contra o Reino Unido”. Considerou “trágico o caminho escolhido” pelo presidente Vladimir Putin, que ignorou o prazo dado para que o Kremlin desse “uma explicação convincente” sobre a presença do agente neurotóxico conhecido como Novichok. As represálias de Londres incluem também a ausência de representantes da família real e da diplomacia britânica para assistir aos jogos da Copa do Mundo da Rússia, dentro de três meses.
A Rússia dispunha de 59 diplomatas credenciados no Reino Unido. Os 23 que foram expulsos terão uma semana para deixar o país, informou May. Embora tenha decidido suspender “todos os contatos bilaterais planejados de alto nível” e revogado “o convite ao ministro das Relações Exteriores para visitar” Londres, a premiê “continua a acreditar que não é do nosso interesse nacional cortar todo o diálogo” com Moscou.
Buscando reunir o apoio dos aliados e da comunidade internacional, no momento em que o país se prepara para deixar a União Europeia (UE), a chefe do governo britânico pediu uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas para informar os demais países-membros sobre o caso. Antes, a crise diplomática foi discutida no Conselho Atlântico, órgão de deliberação política da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que ratificou a solidariedade ao Reino Unido e condenou o uso de um agente neurotóxico, em “flagrante violação” ao tratado internacional que baniu as armas químicas — texto do qual a Rússia é signatária.
Reação
Antes mesmo do anúncio oficial das sanções britânicas, o Kremlin voltou a desmentir qualquer envolvimento com o atentado e a exigir acesso aos elementos da investigação iniciada pelas autoridades britânicas. “A Rússia não tem nada a ver com o que ocorreu no Reino Unido e não aceita acusações sem evidências”, comentou o porta-voz Dmitri Peskov, que disse esperar que “o bom senso prevaleça”. O chanceler Sergei Lavrov mencionou o acordo sobre armas químicas para sustentar a reivindicação russa de uma investigação conjunta sobre o incidente.
Skripal, 66 anos, e a filha, de 33, continuam hospitalizados em estado definido como “crítico”. O detetive da polícia Nick Bailey, que atendeu as vítimas, é considerado em situação “grave”. Um restaurante e um pub onde pai e filha tinham estado seguem interditados, e os frequentadores foram orientados a desinfetar roupas e pertences. O ex-agente vive no Reino Unido desde 2010, quando foi libertado em uma “troca de espiões” entre Moscou e Londres. Skripal cumpria pena por ter fornecido documentos sigilosos para a inteligência britânica.
O atentado contra o ex-agente remeteu as autoridades britânicas à morte, em 2010, de outro espião russo exilado, Alexander Litvinenko, envenenado em Londres com o elemento radioativo polônio. Na época, Theresa May era ministra do Interior e sua pasta esteve diretamente envolvida nas investigações. As relações com Moscou podem ser ainda mais comprometidas pela morte de outro exilado russo, Nikolai Glushkov, que foi sócio do bilionário Boris Berezovsky, adversário de Putin e também radicado em Londres. Berezovsky foi encontrado morto por enforcamento, em 2013.
Frase
“A Rússia não tem nada a ver com o que aconteceu no Reino Unido e não admite acusações sem evidências”
Dmitri Peskov, orta-voz do Kremlin
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De olho no voto da geração Putin
15/03/2018
A crise diplomática com o Reino Unido não tirou o foco do presidente da Rússia, Vladimir Putin, de sua campanha à reeleição. Ontem, Putin participou de celebrações do quarto aniversário da anexação da Crimeia à Rússia, na Praça Nakhimov, em Sevastopol, onde foi saudado como um popstar por uma multidão. Antes, sempre demonstrando bom humor, ele inspecionou as obras da ponte sobre o Estreito de Kerch, que garantirá o acesso direto do território russo à península.
Na reta final da campanha, o presidente russo investe forte na conquista de votos da chamada “geração Putin”, que recebeu esse nome porque praticamente só o conheceu como chefe do país. Desde 1999, o líder está no comando, como presidente ou primeiro-ministro. O interesse pelos jovens eleitores se potencializou desde que o opositor Alexei Navalni mobilizou, em 2017, dezenas de milhares de partidários saindo da adolescência ou ainda nela. Navalni, que não conseguiu se candidatar à Presidência este ano, chama seus seguidores a boicotar as eleições.
No dia do anúncio de sua candidatura para disputar o quarto mandato, Putin participou de um fórum da juventude. Quando perguntou ao público se ele o apoiaria se buscasse a reeleição, os jovens gritaram: “Sim!”. Desde então, o presidente participou de vários eventos dedicados à juventude e, para seduzi-los, nomeou Elena Shmelieva como chefe da campanha. Ela administra um centro de desenvolvimento de jovens em Sochi.
“É forte, diplomático, próximo do povo, pratica esportes”, enumerou a universitária russa Irina Papandopoulo ao ser perguntada sobre as qualidades de Putin. A jovem de 21 anos, que estuda turismo, votará pela primeira vez nas eleições presidenciais de domingo.
Os contemporâneos de Irina não estão animados a ir às urnas. Menos da metade dos jovens entre 18 e 24 anos diz que vai votar, de acordo com uma pesquisa do instituto público VtsIOM. Mas, entre os que confirmam a participação nas eleições, a adesão a Putin é esmagadora: 82% deles afirmaram que vão dar mais seis anos de mandato ao presidente. “A estabilidade é a chave para o sucesso”, diz a estudante de direito Diana Cheniakovskaya, 21 anos, como uma justificativa para seu apoio ao presidente russo. Ela teme um “caos” na Rússia e um retorno à turbulência da década de 1990 se ele deixar o poder.
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Fragilizada, Merkel se reelege
15/03/2018
Ao fim de seis meses de incertezas, depois do pior desempenho de seu partido nas urnas em quatro décadas, a chanceler alemã, Angela Merkel, iniciou ontem o seu quarto mandato, que provavelmente também será o último em que estará à frente da primeira economia europeia. Dos 688 votos válidos, 364 deputados se posicionaram a favor de sua reeleição na votação secreta — apenas nove a mais do mínimo exigido e 35 a menos da maioria teórica de 399 parlamentares conservadores e social-democratas. Um resultado que reflete as dificuldades políticas que Merkel enfrentou nas últimas semanas para formar a coalizão.
A recondução de Merkel, 63 anos, encerrou uma longa busca pela maioria, jamais vista na Alemanha democrática, que acabou por renovar a atual coalizão da União Cristã-Democrata (CDU) da chanceler e seus aliados bávaros da CSU com os social-democratas do SPD. Fragilizada, Merkel dirigirá um país sacudido pela ascensão da extrema-direita da Alternativa para a Alemanha (AfD), que, depois das eleições de setembro do ano passado, se converteu na primeira força da oposição, com 92 deputados.
Analistas políticos acreditam que este deverá o último mandato de Merkel, que está há 12 anos no poder. Alguns, inclusive, preveem um fim prematuro, uma vez que a chanceler colocou em apuros até as fileiras conservadoras nos últimos meses. Os social-democratas já anunciaram que farão um balanço da coalizão dentro de 18 meses.
Partiu de Olaf Scholz, ministro designado das Finanças e peso-pesado dos social-democratas, uma síntese da situação. Scholz, reconheceu que o acordo para a formação do novo governo não era fruto de “um casamento de amor”, mas prometeu que os aliados vão “trabalhar juntos e governar corretamente”.
No continente europeu, a expectativa é grande. Espera-se que a Alemanha esteja pronta para superar os desacertos domésticos que culminaram numa paralisia política. Merkel terá de tranquilizar seus sócios sobre sua capacidade para agir em um momento em que a União Europeia (UE) está sacudida pelo Brexit, pelo recuo de alguns Estados-membros e pela crescente popularidade dos partidos antissistema.