O Estado de São Paulo, n. 45336, 02/12/2017. Política, p. A4.

 

Lula mira a classe média em nova carta eleitoral

Ricardo Galhardo

02/12/2017

 

 

2018. Ex-presidente tenta recuperar apoios no segmento que culpa o PT pela crise e busca demarcar diferenças com governo Dilma, escolhida por ele para a sua sucessão em 2010

 

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato ao Planalto, prepara uma nova versão da Carta ao Povo Brasileiro. Segundo interlocutores de Lula, o alvo agora, ao contrário de 2002, não é o mercado financeiro, mas a classe média que culpa os governos do PT pela crise econômica. Lula quer fugir do rótulo de populista reafirmando um compromisso com a responsabilidade fiscal.

“Esta carta não será como a outra, que foi mais dirigida ao mercado. Desta vez a ideia é dialogar com o povo brasileiro”, disse o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto.

Em conversas com colaboradores, o ex-presidente tem se referido à ideia como “uma Carta ao Povo Brasileiro só que para o povo brasileiro mesmo”.

Durante a vitoriosa campanha presidencial de 2002 Lula lançou a Carta ao Povo Brasileiro na qual, em síntese, se comprometia a manter os fundamentos da estabilidade econômica depois de décadas de confronto com o grande capital. O alvo era o mercado financeiro.

Em encontro com o PT de São Paulo, ontem, o ex-presidente disse que é alvo de “terrorismo de mercado” e que seus adversários “estão criando uma guerra de classes”.

Na semana passada a XP Investimentos divulgou relatório que aponta risco de queda da Bolsa e alta do dólar em caso de vitória de Lula. O PT avalia que parte da classe média é sensível a essa narrativa. O petista, no entanto, minimiza o poder da banca. Ontem, na reunião com o PT paulista, ele disse que “o mercado não vota”. Por isso o alvo agora é próprio eleitorado.

A nova carta ainda não tem data para ser lançada e nem mesmo começou a ser rascunhada. Segundo pessoas que conversaram com Lula sobre o assunto, o petista quer mostrar que, embora o contexto político e econômico seja muito diferente de 2002, a responsabilidade com a condução econômica é um princípio pessoal.

Para isso, Lula vai listar fatos de seus dois governos, como os seguidos superávits fiscais além da meta, trajetória de queda da dívida pública, obtenção do chamado “grau de investimento”, recordes de valorização de ações na Bolsa e aumento das reservas cambiais.

“Ninguém pode dizer que sou irresponsável. O mercado sabe disso”, tem dito Lula com certa frequência.

 

Governo Dilma. Além disso o petista deve demarcar as diferenças na condução da economia entre seus governos e os da presidente cassada Dilma Rousseff. Um colaborador de Lula destacou que os números da economia saíram de controle no governo Dilma.

O petista ainda não escalou o time que vai redigir a carta, mas, de acordo com colaboradores próximos, já falou sobre o assunto com o ex-presidente do PT Rui Falcão, o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa e o exprefeito de São Paulo Fernando Haddad, entre outros.

Outra estratégia de Lula para reduzir as desconfianças quanto à condução econômica em um possível terceiro mandato é a tentativa de reeditar a vencedora chapa trabalho/capital. Em vez de José Alencar, seu parceiro em 2002, morto em 2011, o petista tenta convencer o filho do ex-vice-presidente, o empresário Josué Gomes da Silva.

Durante a passagem da caravana de Lula por Montes Claros (MG), Josué foi alvo de comentários e brincadeiras sobre sua disposição de concorrer em 2018 como vice de Lula. Em 2014 ele concorreu ao Senado pelo PMDB de Minas. Segundo dirigentes do PT, Josué teria sinalizado que pretende voltar a disputar o Senado. Um dos entraves para que ele seja o “vice dos sonhos” é a filiação partidária.

Lula lidera as pesquisas eleitorais em todos os cenários mas pode ficar inelegível caso o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) confirme a sentença de primeira instância que o condenou a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. ‘Verdades alternativas’. O cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Hilton Cesario Fernandes, observa que a base eleitoral de Lula também sofreu diversas mudanças após sua primeira vitória. “A classe média se distanciou e formou a base da insatisfação popular que culminou na saída de Dilma em 2016, uma presidente mal avaliada mesmo entre as classes mais baixas”, disse.

“Neste contexto, uma nova Carta aos Brasileiros soa como uma tentativa anacrônica de repetir os passos que levaram o PT ao governo federal pela primeira vez. Resta saber, entretanto, se o partido irá apresentar novas lideranças e propostas ou se continuará a oferecer verdades alternativas sobre o passado recente.”

 

Diálogo

“Esta carta não será como a outra, que foi mais dirigida ao mercado. Desta vez a ideia é dialogar com o povo brasileiro.”

 

Paulo Okamoto

PRESIDENTE DO INSTITUTO LULA

 

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato ao Planalto, prepara uma nova versão da Carta ao Povo Brasileiro. Segundo interlocutores de Lula, o alvo agora, ao contrário de 2002, não é o mercado financeiro, mas a classe média que culpa os governos do PT pela crise econômica. Lula quer fugir do rótulo de populista reafirmando um compromisso com a responsabilidade fiscal.

“Esta carta não será como a outra, que foi mais dirigida ao mercado. Desta vez a ideia é dialogar com o povo brasileiro”, disse o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamotto.

Em conversas com colaboradores, o ex-presidente tem se referido à ideia como “uma Carta ao Povo Brasileiro só que para o povo brasileiro mesmo”.

Durante a vitoriosa campanha presidencial de 2002 Lula lançou a Carta ao Povo Brasileiro na qual, em síntese, se comprometia a manter os fundamentos da estabilidade econômica depois de décadas de confronto com o grande capital. O alvo era o mercado financeiro.

Em encontro com o PT de São Paulo, ontem, o ex-presidente disse que é alvo de “terrorismo de mercado” e que seus adversários “estão criando uma guerra de classes”.

Na semana passada a XP Investimentos divulgou relatório que aponta risco de queda da Bolsa e alta do dólar em caso de vitória de Lula. O PT avalia que parte da classe média é sensível a essa narrativa. O petista, no entanto, minimiza o poder da banca. Ontem, na reunião com o PT paulista, ele disse que “o mercado não vota”. Por isso o alvo agora é próprio eleitorado.

A nova carta ainda não tem data para ser lançada e nem mesmo começou a ser rascunhada. Segundo pessoas que conversaram com Lula sobre o assunto, o petista quer mostrar que, embora o contexto político e econômico seja muito diferente de 2002, a responsabilidade com a condução econômica é um princípio pessoal.

Para isso, Lula vai listar fatos de seus dois governos, como os seguidos superávits fiscais além da meta, trajetória de queda da dívida pública, obtenção do chamado “grau de investimento”, recordes de valorização de ações na Bolsa e aumento das reservas cambiais.

“Ninguém pode dizer que sou irresponsável. O mercado sabe disso”, tem dito Lula com certa frequência.

Governo Dilma. Além disso o petista deve demarcar as diferenças na condução da economia entre seus governos e os da presidente cassada Dilma Rousseff. Um colaborador de Lula destacou que os números da economia saíram de controle no governo Dilma.

O petista ainda não escalou o time que vai redigir a carta, mas, de acordo com colaboradores próximos, já falou sobre o assunto com o ex-presidente do PT Rui Falcão, o ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa e o exprefeito de São Paulo Fernando Haddad, entre outros.

Outra estratégia de Lula para reduzir as desconfianças quanto à condução econômica em um possível terceiro mandato é a tentativa de reeditar a vencedora chapa trabalho/capital. Em vez de José Alencar, seu parceiro em 2002, morto em 2011, o petista tenta convencer o filho do ex-vice-presidente, o empresário Josué Gomes da Silva.

Durante a passagem da caravana de Lula por Montes Claros (MG), Josué foi alvo de comentários e brincadeiras sobre sua disposição de concorrer em 2018 como vice de Lula. Em 2014 ele concorreu ao Senado pelo PMDB de Minas. Segundo dirigentes do PT, Josué teria sinalizado que pretende voltar a disputar o Senado. Um dos entraves para que ele seja o “vice dos sonhos” é a filiação partidária.

Lula lidera as pesquisas eleitorais em todos os cenários mas pode ficar inelegível caso o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) confirme a sentença de primeira instância que o condenou a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá. ‘Verdades alternativas’. O cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Hilton Cesario Fernandes, observa que a base eleitoral de Lula também sofreu diversas mudanças após sua primeira vitória. “A classe média se distanciou e formou a base da insatisfação popular que culminou na saída de Dilma em 2016, uma presidente mal avaliada mesmo entre as classes mais baixas”, disse.

“Neste contexto, uma nova Carta aos Brasileiros soa como uma tentativa anacrônica de repetir os passos que levaram o PT ao governo federal pela primeira vez. Resta saber, entretanto, se o partido irá apresentar novas lideranças e propostas ou se continuará a oferecer verdades alternativas sobre o passado recente.”

Diálogo “Esta carta não será como a outra, que foi mais dirigida ao mercado. Desta vez a ideia é dialogar com o povo brasileiro.” Paulo Okamoto PRESIDENTE DO INSTITUTO LULA

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ANÁLISE

 

O caminho para a reaproximação não será simples

Lincoln Secco

 

 

Apesar de seu berço simbólico ter sido o ABC da classe operária paulista, o PT nasceu como um partido policlassista. Ainda assim, o seu radicalismo verbal afastava tanto trabalhadores sem tradição sindical quanto as classes médias.

Foi só diante da insatisfação com o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso que o partido ampliou seu apoio entre os mais pobres. E em 2002 ganhou o respaldo dos estratos médios. A aliança, todavia, não resistiu ao escândalo do mensalão e, no segundo mandato de Lula, às suas políticas sociais que modificaram o padrão de classes no Brasil e geraram uma crise cultural que o cinema nacional tem retratado.

O crescimento econômico garantiu o aumento dos gastos sociais e o apoio dos de baixo. E a manutenção de uma política macroeconômica conservadora, a anuência dos de cima. Mas entre os dois extremos, as camadas médias sofreram a inflação dos preços dos serviços domésticos sem uma melhoria dos serviços públicos.

A insatisfação explodiu em 2013. Dali em diante o PT agiu como biruta de aeroporto. De acordo com a ventania diminuía e aumentava a taxa Selic; era radical no segundo turno de 2014 para em seguida implementar um programa neoliberal.

O caminho para a reaproximação com a classe média não será simples. Exige mais que um acerto de contas com as alianças corruptas e uma crítica do segundo mandato de Dilma. Se é verdade que a classe média progressista dos anos 1980 se deslocou para manifestações de preconceito, a reaproximação com a esquerda não depende só de pedidos de desculpas “republicanos”.

Oferecer aos setores médios uma educação política aliada à expectativa de retorno pelos impostos pagos e aos mais pobres a esperança de ascensão social sempre foi o dilema da esquerda. Porque implica tributar o grande capital.

Lula poderá recordar 1989 ou 2002. Namorar o perigo ou ser o conciliador nacional. O problema é que sem o antigo ciclo virtuoso das commodities o cobertor ficou curto demais. Não há orçamento para acomodar todo mundo.

 

É PROFESSOR DE HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA NA USP