O globo, n. 30790, 24/11/2017. País, p. 7
Operação sacramenta o fim da 'República de Mangaratiba'
Chico Otavio e Daniel Biasetto
24/11/2017
Com a prisão de Georges Sadala pela Polícia Federal, dois símbolos da era Sérgio Cabral à frente do governo do Rio de Janeiro foram fulminados: a “República de Mangaratiba”, que reunia em um condomínio de luxo no município fluminense um grupo de empresários, gestores públicos e políticos ligados ao governador, e a “farra dos guardanapos”, um jantar em Paris, em setembro de 2009, que terminou com integrantes do governo Cabral e empresários dançando com guardanapos amarrados à cabeça. Agora, os integrantes da “República de Mangaratiba” estão presos — há um foragido — e, dos participantes da “farra dos guardanapos, o único que aparece nas fotos e está em liberdade é o ex-secretário municipal de Urbanismo Sérgio Dias, contra quem não há nada que indique participação no esquema liderado pelo ex-governador.
Levantamento feito pelo GLOBO no ano passado, e atualizado há seis meses, mostrava que antes da prisão da máfia comandada pelo ex-governador, ao menos 11 pessoas, entre empresários, gestores públicos e políticos ligados ao governo Cabral, compraram ou alugaram casas no Condomínio Portobello, em Mangaratiba. A lista era composta por dois secretários estaduais, um municipal, seis empresários, um prefeito e um assessor parlamentar.
Depois da prisão na Operação Ratatouille, em junho, do empresário Marco Antônio de Luca, que fornecia comida para presídios e escolas, faltavam apenas dois personagens para completar o álbum de figurinhas carimbadas da Lava-Jato no Rio. Em setembro, foi a vez do empresário Arthur César de Menezes Soares Filho, conhecido como “Rei Arthur”, ser alvo da Operação Unfair Play, que levou à prisão o ex-presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB) Carlos Arthur Nuzman. Arthur, que tem casa nos Estados Unidos, está foragido, e seu nome consta da Difusão Vermelha da Interpol. Agora, Georges Sadala, ex-dono do serviço Poupa Tempo, se juntou ao grupo de presos.
Da posse de Cabral no governo do Rio, em janeiro de 2007, até a passagem do cargo para Luiz Fernando Pezão, em abril de 2014, o Portobello foi ponto de encontro entre gestores públicos e empreiteiros com contratos de obras e de prestação de serviços com o estado. Procurados, eles garantiram que, nos momentos de lazer, mesmo na presença de Cabral, não misturavam os interesses públicos e privados.
Entre os assessores, Cabral dividia a quadra de vôlei e outros momentos de lazer em Mangaratiba com os ex-secretários Wilson Carlos (Governo) e Sérgio Côrtes (Saúde), ambos presos. Entre os empreiteiros, estavam Benedicto Júnior, então presidente da Odebrecht Infraestrutura, e Fernando Cavendish, da Delta Construções, hoje em prisão domiciliar e levado a depor na operação de ontem.
Depois que Cabral entrou em declínio e os boatos de que era alvo de investigações começaram a crescer, todos praticamente desapareceram. Cavendish foi o primeiro a se afastar. Atingido por denúncias que o ligaram ao bicheiro Carlinhos Cachoeira, foi praticamente excluído do grupo e vendeu a casa. Wilson Carlos devolveu a sua, que diz ter sido alugada. Os demais deixaram de frequentar a casa do ex-governador, principalmente as disputadas noites de pizzas e vinhos. Na fase de ouro, um convite para um evento deste era sinal de prestígio.
Já a “farra dos guardanapos” veio à tona quando imagens se espalharam pelas redes sociais e não deixaram dúvidas: aquela noite de segundafeira, 14 de setembro de 2009, em Paris, tinha sido animada para um grupo seleto de empresários e executivos do governo fluminense que comemoravam, em uma casa de shows na Champs Elysées, a honraria dada a Cabral pelo governo francês, a Medalha Légion d’Honneur. Oito anos se passaram daquele jantar, e com a deflagração da Operação Lava-Jato, só um personagem da foto está em liberdade.
Entre os que estavam com os guardanapos na cabeça, foram presos Wilson Carlos, Sérgio Côrtes, Fernando Cavendish e Georges Sadala, todos integrantes da “República de Mangaratiba”.
Na manhã anterior e na manhã seguinte à farra, aconteceram duas reuniões técnicas, no salão de convenções de um hotel em Paris, para discutir a apresentação da candidatura do Rio aos Jogos Olímpicos. Imagens obtidas pelo GLOBO comprovam que, além do ex-presidente do COB Carlos Arthur Nuzman e do diretorgeral de operações da Rio-2016, Leonardo Gryner, e Cabral, participaram destas reuniões os ex-secretários Sérgio Côrtes e Wilson Carlos.
As imagens reforçam as suspeitas do Ministério Público Federal (MPF), no âmbito da Operação Unfair Play, de que a “farra dos guardanapos” pode ter sido a comemoração antecipada da vitória da Rio-2016.
O PODER ATRÁS DAS GRADES
Só Garotinho está em galeria separada. Mapa mostra quem divide cela com quem.