Título: O silêncio como estratégia
Autor: Decat, Erich
Fonte: Correio Braziliense, 25/02/2012, Politica, p. 6
Dona de um capital político que somou 19,5 milhões de votos nas últimas eleições presidenciais, Marina Silva adota, a sete meses do pleito municipal, uma estratégia de submersão política. Oficialmente, a reclusão se deve, segundo a assessoria da ex-senadora, a um recente mal-estar decorrente da elevação da pressão arterial. A doença também teria sido o motivo da ausência dela no Campus Party, considerado o maior evento de internet do país, promovido no início do mês. Aliados indicam, no entanto, que o silêncio atual deve ser rompido nos meses que antecedem a disputa eleitoral, mesmo que para apoiar apenas candidaturas pontuais.
A reclusão seria parte da estratégia da ex-senadora. "A Marina está num momento de controle da sua agenda", ressalta João Paulo Capobianco, coordenador de campanha da presidenciável na eleição de 2010. O 43 — número do PV — já não faz parte da vida dela desde julho do ano passado, quando anunciou a saída da legenda. "Não existe mais nenhuma relação (do partido) com a Marina. Não existe uma agenda em comum. Não há elementos para dizer nem que há uma aproximação", ressaltou Capobianco.
O ingresso numa nova legenda também é descartado, no momento. Uma outra alternativa, a da criação de um novo partido, não é prioridade em curto prazo. Mas a ideia deve se materializar após o pleito de outubro. "Imagino que ela vai apoiar os candidatos a prefeitos e vereadores que atuam em conjunto com o movimento, que agrega pessoas de vários partidos", avalia o deputado Alfredo Sirkis (PV-RJ), um dos poucos do partido que permanecem alinhados à acriana. "Ela poderá ter um peso muito grande nas eleições municipais, com os candidatos que aderirem à agenda da sustentabilidade urbana", acrescentou Capobianco.
Bandeira ambiental Segundo ele, parte da linha programática do discurso "sustentável" compõe hoje algumas diretrizes do Movimento Nossa São Paulo, que tem propostas em diferentes áreas como educação, cultura, transporte e espaços públicos, entre outras. A questão de poder apoiar candidatos que defendam a bandeira da sustentabilidade pode, entretanto, confundir o eleitor, uma vez que, atualmente, candidatos de diferentes partidos pegam carona na questão ambiental. "Dentro desse contexto vai ser muito eclético. Pode ocorrer apoio ao PT em um lugar e em outro ao PSDB. Isso pode confundir um pouco", avaliou o cientista político da Universidade de Brasília David Fleischer.
Segundo ele, em razão da falta de um palanque, Marina deve permanecer tendo visibilidade com a realização de eventos como a Rio+20, prevista para acontecer no próximo mês de junho. Na ocasião, líderes de diferentes partes do mundo vão discutir propostas de desenvolvimento sustentável. "Será importante para a Marina, que com certeza ganhará algum destaque na mídia", considerou Fleischer. Em relação aos debates previstos no Congresso Nacional, Marina também deve ter destaque no debate do Código Florestal previsto para ser votado neste semestre.
Divórcio conturbado Marina Silva deu início a uma diáspora no PV devido a problemas com a direção da legenda, mais especificamente o presidente, José Luiz Penna, e o deputado federal Sarney Filho (PV-MA). A ex-senadora lutava para modificar o comando Verde, enquanto os fundadores do partido pressionavam Marina para que ela abraçasse antigas bandeiras da sigla, como a descriminalização do aborto e a união homoafetiva, teses problemática a ela.