Título: Fluxo de problemas
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 25/02/2012, Economia, p. 14

Disposto a se defender na guerra cambial, sobretudo para atender às queixas da indústria nacional, o governo se deparou com uma encruzilhada: precisa diminuir o fluxo de dólares no país sem travar o mercado e minar a importante fonte de recursos para o setor produtivo, representada pela Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa). A equipe econômica também tem testado o humor dos investidores, ventilando informações de que estuda tributar todo e qualquer capital estrangeiro que ingressar no país, inclusive o investimento voltado para a produção. Corre, porém, o risco de ver um dos canais de financiamento do rombo nas contas externas secar, uma vez que os dólares que ficaram sem destino com o agravamento da crise na Europa e nos Estados Unidos poderiam fugir para outros países.

Ontem, em mais um dia de bom humor, a Bovespa fechou em alta de 0,19%, aos 65.942 pontos. A ideia de taxar todo e qualquer capital estrangeiro é alimentada por suspeitas de que parte do investimento estrangeiro direto (IED), destinado ao setor produtivo, esteja chegando ao país travestido para não pagar imposto e, ao invés de bater na economia real, acaba aplicado em ações e títulos de renda fixa. "Há uma desconfiança no mercado de que nem todo IED vai para o setor produtivo. Parte dele pode ser apenas engenharia financeira", explicou a economista Zeina Latif. Caso fosse implementada uma tributação para todo tipo de capital de fora do país, apenas aquele que se materializasse em investimento produtivo receberia incentivos.

O desafio da equipe econômica, para André Perfeito, economista-chefe da corretora Gradual Investimento, é brecar a queda do dólar sem gerar anomalias na economia. "O real está forte porque o Brasil está forte, logo, desvalorizar o real significa piorar o Brasil", alertou. Para ele, manter a cotação da moeda mais baixa de forma artificial, como o BC tem buscado fazer com os leilões, funciona apenas no curto prazo. "Tanto é que as reservas aumentaram expressivamente e o câmbio não reagiu de forma adequada mesmo com essas operações", ponderou. Na visão dele, reduzir os juros básicos da economia (Selic) e aumentar a competitividade da indústria por maneiras alternativas ao dólar baixo são os melhores remédios. (VM)