O globo, n. 30836, 09/01/2018. Opinião, p. 13
O senhor do PTB
Cássio Bruno
09/01/2018
O ex-deputado Roberto Jefferson não voltou à cena política. É um erro afirmar isso. Condenado por corrupção e lavagem de dinheiro no mensalão, nunca deixou de operar nos bastidores. Ao contrário. Fez o que sempre fez mesmo longe dos holofotes: continuou a comandar o seu feudo dentro do PTB.
Nem mesmo quando esteve preso, em Niterói, ele se afastou das articulações e dos conchavos. De dentro da cela, tomou decisões importantes para o partido. Era sempre consultado pelos subordinados e dava a última palavra.
Mas seu poder não se limitava a dar ordens. Ele comandou duas campanhas eleitorais em 2014: a da filha Cristiane Brasil (para deputada federal) e a do exgenro Marcus Vinícius (para estadual). Jefferson analisava pesquisas eleitorais e ditava os rumos a serem tomados pelos candidatos da família.
Além disso, Jefferson era bem tratado na cadeia comandada pelo governo do PMDB (hoje, MDB) — partido que o exdeputado apoiou nas últimas seis eleições no Rio, à prefeitura e ao Palácio Guanabara. Em todos os casos, garantiu mais tempo de propaganda na TV e no rádio para os peemedebistas.
O presídio onde ele ficou, por ironia do destino, foi inaugurado pelo amigo Sérgio Cabral. Em troca das alianças, Jefferson nomeou afilhados em cargos importantes, inclusive a filha, ex-secretária municipal de Eduardo Paes.
Fato é que Jefferson teve uma série de regalias na prisão. Entre elas, visitas de amigos e familiares de forma irregular. Sozinho e tranquilo na cela, tinha à disposição TV, aparelhos de ginástica e acesso diário a informações por meio de jornais e revistas. Tudo com o aval da direção do presídio. Mesmo assim, o petebista nunca foi investigado por nenhuma autoridade e nem pelo Ministério Público.
O ex-deputado sempre sonhou em ser o senhor feudal do PTB. Desde os tempos do programa “O povo na TV”, sucesso na década de 1980. Como um dos apresentadores, a convite de Wilton Franco, ele foi eleito deputado pela primeira vez graças à popularidade do vespertino. No PTB, brigou até com Ivete Vargas, sobrinha de Getulio. O ápice da carreira, porém, ocorreu na Era Collor.
Em toda a trajetória política, seu objetivo sempre foi estar próximo do poder. Foi aliado de todos os presidentes da República após a ditadura militar. Nunca mediu esforços para se apropriar de ministérios e de estatais para ganhar cargos e comandar orçamentos milionários.
No impeachment de Dilma, Jefferson estava no Congresso (exatamente atrás de Cristiane quando ela discursou e votou pela saída da ex-presidente). Com Michel Temer, não foi diferente. Na segunda tentativa, conseguiu, sem grande esforço, convencer o amigo a nomear sua filha ministra, mas a posse foi suspensa ontem. Afinal, o presidente precisa dos votos do PTB para aprovar a reforma da Previdência.
Em ano eleitoral, a indicada ao Ministério do Trabalho aparece em processos na Justiça acusada de não cumprir... as leis trabalhistas com seus próprios exfuncionários. É citada em duas delações premiadas nas investigações da Lava-Jato; o retrato fiel da política do Brasil.