O Estado de São Paulo, n. 45370, 05/01/2018. Política, p. A4.

 

Polícia Federal reforça Lava Jato m Brasília

Fabio Serapião

05/01/2018

 

 

Inquéritos. Número de agentes, incluindo delegados, passará de 24 para 56; meta é concluir investigações sobre políticos no Supremo Tribunal Federal antes das eleições

 

 

A Polícia Federal mais do que dobrou a equipe que atua nos inquéritos envolvendo políticos no Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar encerrar as investigações antes das eleições deste ano. O chamado Grupo de Inquérito (Ginq) passará de 24 para 56 policiais federais a partir deste mês. Ficará responsável por 273 investigações ligadas a políticos com foro privilegiado que tramitam na Corte, das quais 124 são ligadas à Operação Lava Jato.

O diretor-geral da PF, Fernando Segovia, autorizou a nomeação de mais oito delegados, sete escrivães e 17 analistas para atuar no grupo. A meta é encerrar todas as investigações até o início da campanha eleitoral, que começa oficialmente no dia 15 de agosto. Em novembro, quando Segovia assumiu a corporação, procuradores da Lava Jato chegaram a colocar em dúvida o futuro da operação.

“Esse aumento significativo da equipe demonstra de forma clara que a prioridade da atual gestão da PF é o combate à corrupção”, afirmou o delegado Eugênio Coutinho Ricas, da Diretoria de Combate ao Crime Organizado (Dicor).

A PF deve se posicionar nos próximos meses em relatórios finais sobre a prática ou não de crimes em casos envolvendo o presidente Michel Temer, a cúpula do governo e parlamentares de oposição. Após tomar posse, Segovia chegou a questionar a investigação da Procuradoria-Geral da República, então comandada por Rodrigo Janot, que sustentou as duas denúncias contra o presidente. As declarações do novo diretor-geral da PF causaram polêmica.

São investigados pelo Grupo de Inquérito, além de Temer, os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil), Moreira Franco (Secretaria-Geral), Gilberto Kassab (Ciência, Tecnologia e Comunicações), Aloysio Nunes (Relações Exteriores) e aliados, como os senadores tucanos Aécio Neves (MG) e José Serra (SP).

Também estão na lista o presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR), o presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), e o senador Renan Calheiros (MDB-AL). Todos negam envolvimento em irregularidades. Ainda estão em andamento apurações sobre os senadores Gleisi Hoffmann (PTPR) e Jorge Viana (PT-AC) e os deputados petistas Arlindo Chinaglia, Carlos Zarattini, Zeca Dirceu e Marco Maia.

Os 56 policiais federais serão divididos em 13 equipes formadas por um delegado, um escrivão e dois agentes. Os outros investigadores atuarão no apoio a esses grupos. O número de delegados federais, que presidem os inquéritos, saltou de nove para 17. A equipe continua sob tutela da Coordenação de Combate à Corrupção, chefiada pelo delegado Josélio de Azevedo, e dentro da Dicor.

 

‘Prioridade’. Em sua posse, Segovia afirmara que uma de suas prioridades era dar celeridade às investigações envolvendo políticos para evitar influência na disputa eleitoral. “Foi detectado que uma falta de contingente da PF tem deixado a velocidade de produção um pouco menor do que talvez fosse o necessário. Tanto que já houve até uma reclamação de ministros do STF de que algumas investigações da PF estavam paradas”, afirmou no dia 14 de novembro.

Depois da posse, após reunião com a presidente do STF, Cármen Lúcia, Segovia voltou ao tema ao afirmar que a celeridade não deveria se restringir a inquéritos de uma operação específica. Ainda segundo ele, o aumento do efetivo a atuar na Corte não dependeria de concurso público e poderia se dar por meio do remanejamento.

“Devemos realocar nossa força de trabalho para investigações que hoje seriam mais importantes em detrimento de outras de menor complexidade e que talvez possam aguardar um pouco mais”, declarou Segovia.

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20ª denúncia contra Cabral cita propina em obras emergenciais

Constança Rezende

05/01/2018

 

 

Ex-governador do Rio é acusado de cobrar ‘vantagem indevida’ de construtora; defesa diz que não há provas

 

 

O Ministério Público Federal denunciou ontem novamente o ex-governador do Rio Sérgio Cabral (MDB) por corrupção. Chega a 20 o número de acusações formais contra o emedebista (19 no Rio e uma em Curitiba). Desta vez, o ex-governador é acusado de cobrar propinas em obras realizadas pela construtora Oriente. Também foram denunciados o diretor da construtora Geraldo André de Miranda Santos, o coordenador de licitações da empresa, Alex Sardinha da Veiga, o ex-secretário de Obras do governo Cabral Hudson Braga e o suposto operador Wagner Jordão.

De acordo com o Ministério Público Federal, pelo menos entre 2010 e 2014, por seis vezes, Cabral, por meio de Braga e Jordão, “solicitou e recebeu vantagem indevida (calculada, como regra geral, em 1% do valor faturado relativo às contratações realizadas) de Alex Sardinha da Veiga e Geraldo Miranda”. A denúncia cita e-mail trocado entre Jordão e Sardinha, com o assunto “cálculos”, que menciona valores de “O2” relacionados à construtora. O termo “O2” se refere, segundo investigadores, à “taxa de oxigênio”, a propina. O esquema teria funcionado em obras denominadas “Baixada Litorânea”, “Emergência Araruama”, “Emergência Saquarema” e “Emergência Maricá II”.

Em dezembro, Cabral foi condenado pela quarta vez na Operação Lava Jato. As penas chegam a 87 anos. Em novembro, o ex-governador completou um ano na cadeia. Defesas. O advogado de Cabral, Rodrigo Roca, afirmou que a denúncia “se baseia exclusivamente nas palavras de delatores, não apresentando qualquer elemento de prova”. Uma funcionária da Oriente informou por telefone que a empresa está em recesso. O advogado de Hudson Braga, Roberto Pugliuso, disse que não se pronunciaria. As defesas dos outros denunciados não foram localizadas.