Título: Insatisfação dos evangélicos
Autor: Gama, Junia
Fonte: Correio Braziliense, 02/03/2012, Politica, p. 5

A indicação do senador Marcelo Crivella (PRB-RJ) para o Ministério da Pesca ainda não produziu os efeitos esperados pelo Palácio do Planalto: turbinar a candidatura de Fernando Haddad em São Paulo e diminuir os atritos com os evangélicos. Parlamentares do PRB afirmam que a ida de Crivella para o primeiro escalão da Esplanada não altera o quadro político na capital paulista. Ao mesmo tempo, evangélicos deixam claro que a nomeação não servirá para aproximar a bancada do governo.

Ontem, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, afirmou que a escolha facilita a relação do governo com os evangélicos, apesar de o Planalto ter "priorizado" o PRB, partido do ex-vice-presidente José Alencar.

No entanto, evangélicos insistem que Crivella é um nome que contempla apenas seu partido, o PRB, e não todo o segmento religioso. "Nem sequer fomos ouvidos ou consultados, a nomeação dele não atende o segmento. Se o Planalto fez por causa disso, está sendo muito infeliz", apontou o deputado João Campos (PSDB-GO), presidente da Frente Parlamentar Evangélica.

Segundo Campos, da Assembleia de Deus — a ramificação evangélica com maior número de fiéis no Brasil —, no ano passado, o ministro da Secretaria-Geral, Gilberto Carvalho, assumiu um compromisso, em nome da presidente Dilma Rousseff, com a bancada, para receber representantes do segmento em reuniões mensais, o que não tem ocorrido. "Essa reuniões nunca ocorreram e a ida do Crivella não muda nada, mesmo que ele fosse o ministro mais importante da República", assevera.

"Terceira via" Enquanto evangélicos jogam no colo do PRB a "maternidade" de Crivella, parlamentares do partido devolvem a bola. O líder da legenda na Câmara, Antônio Bulhões (SP), afirma que, se a tentativa do governo foi dar um "xeque-mate" no partido, obrigando-o a retirar a candidatura de Celso Russomano à prefeitura de São Paulo, a jogada terá sido inócua.

"Não vamos abrir mão dos nossos ideais em serventia ao governo", diz o líder. Bulhões explica que o partido mantém a candidatura de Celso Russomano, mas, se não evoluir nas pesquisas, a opção seria uma aliança com o PMDB de Chalita.

"Para o partido seria mais vantajoso constituir uma terceira via, que seria chamar o vice-presidente Michel Temer e formar uma chapa com o Chalita, tendo Russomano como vice", aponta. O líder do PRB, partido de maioria evangélica, recorda que Fernando Haddad ficou com uma mácula para os setores ligados a igrejas por causa do kit contra a homofobia. "Ele vai levar essa pecha como candidato, não tem para onde correr", defende.

Já a bancada evangélica evoca três episódios para justificar o afastamento do grupo em relação ao governo: o que chamam pejorativamente de "kit-gay do Haddad"; as declarações do ministro da Secretaria-Geral, Gilberto Carvalho, no Fórum Social Mundial sobre os evangélicos; e a nomeação da ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Eleonora Menicucci, favorável ao aborto. "Ninguém pode pensar que, porque deu o ministério para Crivella, vai passar mel na boca dos crentes", afirma o senador Magno Malta (PR-ES). "Se foi para isso que o Planalto o escolheu, deu um tiro errado", completa.

"Não ponho uma minhoca no anzol" O novo ministro da Pesca, Marcelo Crivella (PRB-RJ), disse ontem que não tem conhecimentos sobre o setor pesqueiro. Senador eleito pelo Rio de Janeiro em 2010, Crivella toma posse no cargo hoje, às 11h, em solenidade no Planalto — ele substitui o petista Luiz Sérgio que reassume o mandato na Câmara. O novo ministro afirmou que vai "aprender com técnicos" da pasta por não ser um bom pescador e ter formação de engenheiro civil. "Eu não ponho uma minhoca no anzol, mas não estou indo para o ministério para pescar, mas para trabalhar."