O Estado de São Paulo, n. 45369, 04/01/2018. Política, p.A5
BRASÍLIA
O presidente Michel Temer confirmou a escolha da filha do ex-deputado Roberto Jefferson, Cristiane Brasil (PTB-RJ), como nova ministra do Trabalho. Condenado no mensalão, Jefferson chegou a chorar ao falar que a nomeação da filha “resgata” a imagem da família. Enquanto Cristiane chegava ao ministério de Temer, o ministro Marcos Pereira (Indústria, Comércio e Serviços), que comanda o PRB, pedia demissão. A saída de Pereira foi a terceira baixa ministerial em menos de um mês do governo. Apesar das trocas, o Palácio do Planalto afirma que não vai antecipar a reforma no primeiro escalão, prevista para abril.
Cristiane Brasil substituirá Ronaldo Nogueira (PTB-RS) que pediu demissão no último dia 27. Em dezembro, antes da saída de Nogueira, foi exonerado do governo o tucano Antônio Imbassahy (BA), da Secretaria de Governo. Imbassahy sofria pressão de seu partido e do Centrão para deixar o posto. Foi substituído por Carlos Marun (PMDB-MS). O nome de Cristiane para o Trabalho foi confirmado após reunião no Palácio do Jaburu entre Temer e Roberto Jefferson, que também é presidente do PTB. O pai de Cristiane chorou ao sair do encontro. Ele afirmou que a nomeação representa um “resgate” do nome da família. “É o orgulho, a surpresa, a emoção que me dá. É o resgate, sabe? É um resgate. (O mensalão) já passou. Fico satisfeito.”
Segundo o petebista, a sugestão saiu “da cabeça” de Temer e precisou ser referendada pelo líder do partido, Jovair Arantes (PTB-GO). Cristiane teve que abrir mão da campanha à reeleição. “O nome dela surgiu. Não foi uma indicação. Estávamos conversando eu, o presidente Temer e o ministro Padilha, e surgiu o nome da Cristiane Brasil. (O presidente) falou: ‘Roberto, e a Cristiane? Por que não a Cristiane?’. Aí foi da cabeça do presidente. ‘Ela é uma menina experimentada, foi secretária municipal em vários governos na cidade do Rio’. Falei: presidente, aí o senhor me surpreende. Eu vou ter que consultar. Liguei para ela e ela disse ‘pai, eu aceito’”, relatou Jefferson.
A posse será na próxima semana. Jefferson já havia tentado emplacar Cristiane como ministra, mas ela foi preterida na Cultura por Sérgio Sá Leitão. Ela foi indicada pelo PTB depois de Temer barrar o deputado Pedro Fernandes (PTB-MA), aliado do governador Flávio Dino (PC do B-MA). Segundo Jefferson, o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) cobrou de Temer que ele vetasse o nome de Fernandes, o que ele nega. “Essas coisas ficam no passado. Falei com o deputado Pedro Fernandes e não tem ressentimento”, disse Jefferson. O PRB ainda não indicou um substituto para Pereira, mas deve manter a vaga. Em carta, o ex-ministro e bispo da Igreja Universal rejeitou convite de Temer para permanecer até o fim do governo. “Preciso deixar o ministério para cuidar de questões pessoais e partidárias”, escreveu. O ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, disse que os ministros que pretendem deixar o governo por causa das eleições sairão de forma paulatina, negociada com Temer./ FELIPE FRAZÃO, CARLA ARAÚJO, ISADORA PERON e FERNANDO NAKAGAWA
Emoção
“É o orgulho, a surpresa, a emoção que me dá. É o resgate, sabe? É um resgate. (O mensalão) já passou. Fico satisfeito”
Roberto Jefferson
Presidente Nacional do PTB
PERFIL
Influência do pai garantiu primeiro cargo
Filha do ex-deputado federal Roberto Jefferson, delator do escândalo do mensalão em 2005 e atual presidente nacional do PTB, Cristiane Brasil, de 44 anos, entrou no mundo político ao ganhar um cargo comissionado na Eletronuclear, empresa de controle estatal responsável por administrar as usinas nucleares brasileiras. Sua contratação, em 2001, ocorrida na gestão do então presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e mantida durante pouco mais de três meses pelo sucessor, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), é atribuída à influência de Jefferson nesses governos.
Em outubro de 2004, Cristiane disputou sua primeira eleição e se tornou vereadora no Rio de Janeiro, função que exerceria mais outras duas vezes. Em 2014, ela se elegeu deputada federal pela primeira vez. Na Câmara, a parlamentar propôs um limite máximo de dois mandatos para presidente, governadores e prefeitos. Propôs ainda um código de vestimenta para proibir o uso de minissaias e decotes por mulheres que atuassem na Casa. “Queremos corrigir um erro histórico”, afirmou.
Fabio Serapião/ BRASÍLIA
Alvo de investigação no Supremo Tribunal Federal com base na delação de executivos da Odebrecht, o ex-ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços Marcos Pereira (PRB) deve ter seu caso remetido à primeira instância. Ele é investigado por suposto recebimento de R$ 7 milhões da empreiteira em nome do seu partido para que a sigla apoiasse a chapa da presidente cassada Dilma Rousseff. O inquérito foi instaurado em abril pelo ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no STF. Advogado e bispo licenciado da Igreja Universal, Pereira não tem mandato com prerrogativa de foro no Supremo. Embora outros investigados, como os exministro petista Antônio Palocci e o tesoureiro do PT João Vaccari, também sejam alvo do inquérito, Pereira era o único com foro. Agora, toda a investigação desse caso deve sair da Corte.
Ainda não há uma definição sobre para qual jurisdição será enviada a investigação. Como se trata de recebimentos em nome do diretório nacional do PRB, uma das possibilidades é que o inquérito siga para o juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10.ª Vara Federal em Brasília. Entretanto, como o caso guarda relação com a Lava Jato, outro destino possível é a 13.ª Vara Federal de Curitiba, cujo titular é o juiz Sérgio Moro. A decisão dependerá da Suprema Corte. Pereira também foi citado na delação premiada do empresário Joesley Batista, da J&F, mas nesse caso ele não é formalmente investigado. Por meio de nota, a defesa do ex-ministro afirmou que não comentará os casos em andamento. “Na qualidade de advogados de Marcos Pereira, vimos manifestar que nada comentaremos sobre os casos em andamento nem sobre a saída deste do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. Aguarda-se a reabertura do ano judiciário para se requerer o quanto necessário à defesa”, diz o texto assinado pelos advogados Antônio Sérgio de Moraes Pitombo e Flávia Mortari Lotfi.