O globo, n. 30885, 27/02/2018. País, p. 4

 

'Japonês da Federal' ainda curte fama, mas dispensa política

Bela Megale

27/02/2018

 

 

Aposentado, Newton Ishii continua desfrutando da popularidade trazida pela Lava-Jato, revela convívio com presos famosos e diz que abrirá empresa de consultoria em segurança

CURITIBA - O agente da Polícia Federal Newton Ishii, o “japonês da Federal”, que se aposentou ontem, viu de perto a mudança de Marcelo Odebrecht, de caladão a generoso com os colegas da cadeia. Em entrevista ao GLOBO, fala sobre o perfil de outros presos e a fama de símbolo da Lava-Jato. Viúvo, vive em Curitiba com a filha e um cachorro. Em 2015, poucos meses depois de aparecer na televisão escoltando o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró na Operação Lava-Jato, o agente da Polícia Federal Newton Ishii foi pagar a conta em um restaurante, em Curitiba. Ao chegar no caixa, a fatura estava liquidada. Em seguida, os clientes começaram a aplaudi-lo e pediram para fazer selfies com o policial, que já tinha ganhado a fama de “japonês da Federal”.

— Até hoje não entendo por que existiu o japonês da Federal, vários colegas saíam nas ruas comigo — disse Ishii, que pouco antes de ter a aposentaria publicada, ontem, concedeu sua primeira entrevista.

O agente da PF recebeu o GLOBO no apartamento onde mora em um bairro de classe média de Curitiba. Com poucos móveis e sem decoração, o local de 70 metros parece maior do que é. Viúvo, é lá que Ishii vive com a filha e o cachorro Zeca, cão da raça lhasa apso que tem tratamento de casa de madame, com direito a banho toda semana e acessórios no pescoço, de preferência gravata ou um lenço.

Entre goles de café em uma xícara que estampa suas fotos escoltando presos, Ishii falou sobre os quase quatro anos em que atuou na Lava-Jato, a experiência de se tornar homem de confiança dos empresários que pararam atrás das grades e a vida de celebridade.

— Como essa imagem (do japonês da Federal) foi criada, não queria aparecer numa festa e não tive vontade de ir — disse ele, que agora tem planos de quebrar o jejum e ir ao carnaval de Pernambuco no próximo ano. Sem admitir que pegou certo gosto pela fama, o agente destaca que “não é qualquer um que é homenageado com um boneco de Olinda”.

USO DE TORNOZELEIRA

Apesar de gostar do assédio, Ishii também credita à fama situações difíceis que enfrentou nos últimos anos, como a acusação de vazar uma delação de um preso da PF. Também passou três noites preso e quatro meses de tornozeleira eletrônica em 2016. Ishii foi condenado por facilitação de contrabando na fronteira entre Brasil e Paraguai e chegou a ficar detido por quatro meses em 2003. Ele sempre negou as acusações.

O agente tem a mesma defesa desde os tempos em que foi preso, há um ano e meio: foi detido porque queriam prejudicar a LavaJato e ele personificava a operação. Pouco afeito ao assunto, diz que “essas coisas tenta não guardar” e enfatiza que já enfrentou situações mais graves, como a morte do filho e da mulher. Ele se suicidou aos 27 anos, em 2005, e a mulher, que se deprimiu com a tragédia, teve um infarto em 2009.

— Às vezes tem até família de preso querendo tirar selfie, é engraçado, me surpreende. Mas tudo bem, vou lá e faço —, diz Ishii, que se tornou uma espécie de confidente de boa parte dos detentos, como Marcelo Odebrecht, que chegava a fazer piadas com o policial.

O agente contou que a família de Marcelo “recebeu um outro homem após a prisão”. Segundo ele, quando o empresário chegou a Curitiba mal se comunicava com os demais, mas mudou o comportamento meses depois, passando a dar roupas, toalhas e utensílios de higiene pessoal para companheiros com baixo poder aquisitivo que passavam pela PF.

Homem de confiança de Rosalvo Franco, superintendente da Polícia Federal do Paraná desde que a Lava-Jato começou, em 2014, até o fim de 2017, Ishii estava aposentado há 11 anos, mas teve que voltar à ativa para cumprir mais tempo de serviço por uma decisão judicial que determinou que ele devia dois anos de trabalho. O retorno aconteceu no mesmo mês em que a maior operação de combate à corrupção foi deflagrada.

As prisões dos empreiteiros mudaram a dinâmica do trabalho de Ishii, que era o responsável pela carceragem da PF, onde eles ficavam detidos. Antes local de passagem dos presos, foi transformada em cela para abrigar aqueles que optaram pela delação premida.

— Todo mundo acha que o preso chega e você tranca lá dentro. Tem que ter planejamento de horário de alimentação, banhos de sol, visitas, porque, poxa, são seres humanos. Eu não estava ali para julgálos. Estava ali para que não criassem problemas entre eles e que não tivessem complicações. Imagina se um preso desses morre? — questiona Ishii.

Detentos da operação que passaram pela carceragem afirmam que lá a vida é melhor que em outras prisões. Entre os equipamentos disponíveis nas celas da chamada “ala vip”, onde ficam os delatores da operação, há micro-ondas, geladeira e televisão. Ishii costumava descer até o espaço pelo menos uma vez ao dia para ver os presos. As conversas rendiam piadas e momentos de descontração.

Aposentado, o japonês da Federal nega que será candidato a algum cargo público:

— Não tenho (pretensões políticas), do fundo do coração. Talvez já tenha pensado de tanto as pessoas virem falar comigo, mas nunca me imaginei sendo deputado.

PROJETO PARA O FUTURO

Ele conta que abrirá uma empresa de consultoria em segurança, mas não quer detalhar o escopo de trabalho, possíveis clientes e prospecções. Representantes da OAS, empreiteira que tem Léo Pinheiro entre os sócios, um dos presos na carceragem de Curitiba, relataram que o executivo já falou sobre os planos do agente e manifestou interesse em contratar a empresa de Ishii para atuar na área de segurança do grupo. O policial não comenta o caso.

— Quero paz agora, só.