Correio braziliense, n. 20047, 10/04/2018. Economia, p. 7
Dyogo quer BNDES mais ágil no crédito
Rosana Hessel
10/04/2018
GOVERNO » Novo presidente do banco diz que vai abrir oportunidades para todas as companhias com potencial de crescimento, evitando a estratégia adotada no governo passado de escolher "campeões nacionais". E promete atenção especial a pequenas e médias empresas
O ex-ministro do Planejamento Dyogo Oliveira tomou posse ontem na presidência do Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com a promessa de agilizar os empréstimos da instituição. “Trabalharemos em um processo de digitalização para permitir mais celeridade na aprovação e liberação dos recursos. O banco vai dinamizar sua atuação, mas com muito controle e transparência”, afirmou Oliveira. A cerimônia, na sede da instituição, no Rio de Janeiro, contou com a presença do presidente Michel Temer.
No discurso, o ex-ministro destacou que o BNDES deverá atuar em conjunto com outros bancos para promover, desenvolver e estruturar grandes projetos produtivos e de infraestrutura. “Não vamos ficar apenas esperando que nos batam à porta. Vamos buscar oportunidades de investimento, desenvolver projetos, buscar parceiros corretos, com transparência”, afirmou. Ele ainda destacou que dará “atenção especial” às micro, pequenas e médias empresas do setor industrial, além de continuar apoiando o comércio exterior e a internacionalização das companhias brasileiras.
Oliveira ressaltou que o banco estará focado na identificação de médias empresas com potencial de expansão e evitará a estratégia dos governos petistas de apoiar “grandes campeões nacionais”. “Em vez de focar apenas em grandes empresas e escolher os vencedores, vamos abrir oportunidade para todos que tenham potencial e permitir que se desenvolvam”, completou.
O novo presidente elogiou Temer, que concordou em nomear ministro do Planjejamento Eteves Colnago, secretário executivo e seu braço direito na pasta. “A história lhe fará justiça, presidente. Seu governo será lembrado como o que realizou mais reformas num período tão curto”, disse o ex-ministro, citando os números da recuperação econômica, após uma situação que classificou como “o fundo do poço mais fundo onde nunca o Brasil havia estado”.
Transparência
Oliveira é o terceiro presidente do BNDES do governo Temer. Após um ano no cargo, a administradora Maria Sílvia Bastos Marques deixou o comando do banco em maio de 2017, alegando motivos pessoais. A decisão foi anunciada poucos dias após a divulgação da primeira acusação de corrupção contra o chefe do Executivo, feita pelos irmãos Joesley e Wesley Batista, donos da JBS . A principal crítica à executiva na época era a de que o banco, embora tivesse bastante liquidez, não conseguia liberar rapidamente os empréstimos às empresas.
O economista Paulo Rabello de Castro, até então presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), assumiu o comando do BNDES em maio de 2017, cargo que deixou para concorrer à Presidência da República pelo PSC.
Apesar da troca sucessiva de presidentes, especialistas reconhecem que, desde o início do governo Temer, o banco passou a atuar no mercado de forma mais transparente. A instituição, inclusive, voltou a repassar dividendos para a União. “Minha impressão é que não deve mudar muita coisa com a nova gestão. Trata-se de mais uma questão da contingência que estamos vivendo. Não vejo como pode piorar. A situação, em geral, é mais difícil”, avaliou o economista e especialista em contas públicas Raul Velloso. “Não consigo ver nada contra a indicação de Dyogo, porque ele mostrou eficiência no comando do Planejamento”, destacou.
Após receber mais de R$ 400 bilhões do Tesouro Nacional no governo Dilma Rousseff, o BNDES vem reduzindo o volume de empréstimos. Entre 2016 e 2017, os desembolsos da instituição recuaram 22,4%, somando R$ 72,1 bilhões, o menor volume registrado na série histórica levantada pela Tendências Consultoria, com início em 2003. O volume de operações da instituição atingiu o pico em 2010, somando R$ 266,9 bilhões, e vem caindo desde então. Para este ano, a previsão era de R$ 90 bilhões, mas foi reduzida por Castro para R$ 80 bilhões. Desse montante, R$ 13 bilhões serão para o setor de energia elétrica.
A economista Alessandra Ribeiro, sócia da Tendências, lembrou que a queda dos desembolsos está mais relacionada à redução da demanda que à oferta de crédito. “Passamos por uma crise muito dura e as empresas não estavam com condições de tomar empréstimos. Agora, com a economia se recuperando, é possível que a demanda, aos poucos, volte”, apostou.
Na avaliação de Dyogo Oliveira, a diminuição do volume de crédito não é um desafio, mas “uma grande oportunidade”. “O Brasil mudou de patamar. Não vai ter mais os juros básicos do passado e o papel do banco não será mais o de oferecer juros subsidiados, porque a TLP (nova taxa de juros dos empréstimos do banco estatal) estará muito próxima às taxas do mercado”, afirmou.
Mais otimismo com o Brasil
A agência de classificação de risco Moody’s melhorou a perspectiva de nota de crédito do Brasil de negativa para estável. Apontou que há expectativa de que as “reformas fiscais” serão aprovadas no próximo governo e vê o crescimento econômico do país mais forte do que o esperado a curto e médio prazos. O movimento é contrário ao de outras agências, que acham incerta a votação dessas medidas. “A Moody’s acredita, em resumo, que os riscos negativos para o crescimento e as incertezas relacionadas ao ímpeto para reformas, que levaram à atribuição da perspectiva negativa para o rating Ba2 em maio do ano passado, diminuíram”, informou em nota. O Ministério da Fazenda atribuiu a melhora às ações realizadas pela equipe econômica desde maio de 2016.