O globo, n. 30906, 20/03/2018. País, p. 4
Bispo é preso acusado de desviar doações
20/03/2018
Esquema em Goiás tinha participação de padres; montante chega a R$ 3 milhões
-BRASÍLIA- O Ministério Público (MP) de Goiás suspeita que a quadrilha que desviava recursos da Igreja Católica de Formosa, em Goiás, deu um prejuízo entre R$ 2,5 milhões e R$ 3 milhões num período de três anos. Na Operação Caifás, que resultou, ontem, nas prisões do bispo de Formosa, dom José Ronaldo, e de quatro padres, foram apreendidos R$ 135 mil em um fundo falso do guarda-roupa da casa do monsenhor Epitácio Cardozo, além de dólares, euros e pesos.
O grupo é acusado de desviar dízimos, doações, taxas de batismo e casamento das paróquias da região. O MP já tem provas, inclusive com escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, que o grupo comprou uma casa lotérica. Há também a suspeita de aquisição de uma fazenda. Entre os presos no esquema estão os padres Mário Vieira de Brito e Moacyr Santana, e o secretário Guilherme Frederico Magalhães.
A investigação começou no final do ano passado quando um grupo de fiéis suspeitou da falta de transparência da Diocese de Formosa nos gastos com os recursos repassados. Os próprios padres da região começaram a perceber o problema. No entanto, os párocos ouvidos contaram que foram ameaçados de retaliação, como transferências e até mesmo perda de ministério. A diocese reúne 33 paróquias em 20 municípios de Goiás.
Segundo o promotor Douglas Chegury, um dos responsáveis pela operação, o bispo já esteve envolvido numa denúncia semelhante em Minas Gerais.
— O bispo enfrentou esse mesmo tipo de problema e resistência na Diocese de Janaúba. Ele veio transferido para Formosa e aqui implementou um esquema semelhante ao que operava lá.
Ainda de acordo com o promotor, o grupo praticou diversos crimes em três anos, desde que assumiu a diocese. O esquema tinha “vários braços”. O bispo, diz o promotor, fazia transferências bancárias da Cúria para uma conta particular e também recebia dinheiro em espécie. Segundo as investigações, o religioso convocou um juiz eclesiástico para intimidar os demais padres e maquiou um relatório contábil.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) informou que avalia o caso e aguarda um posicionamento de sua assessoria jurídica.