O globo, n. 309003, 17/03/2018. Economia, p. 19
Papel verde-amarelo
João Sorima Neto, Roberta Scrivano e Ana Paula Ribeiro
17/03/2018
Com aval do BNDES, Fibria fecha com Suzano, criando ‘gigante mundial’ de mais de R$ 60 bi
A opção dos controladores da Fibria, a família Ermírio de Moraes e o BNDES, de vender a companhia para a Suzano, formalizada ontem, faz lembrar os tempos em que o banco de fomento tinha como estratégia financiar a criação de “campeãs nacionais”. Desta vez, contudo, em vez de aportes bilionários, o BNDES está reduzindo sua participação acionária e embolsando cerca de R$ 8,5 bilhões. E a companhia resultante da união das duas fabricantes nacionais de papel e celulose vai muito além do festejado selo verdeamarelo de anos atrás.
Juntas, Suzano e Fibria terão valor de mais de R$ 60 bilhões, com 11 unidades industriais, 37 mil funcionários e capacidade de produção de 11 milhões de toneladas celulose por ano. As receitas com exportações chegam a R$ 18 bilhões anuais, e os investimentos previstos para 2018, R$ 6,4 bilhões. Ou seja, uma gigante global, cuja produção abrange 28% do mercado mundial da commodity.
— É a maior empresa de agronegócio do país e a quinta maior empresa não financeira do Brasil — comemorou o presidente da Suzano, Walter Scharlka, ao apresentar detalhes da transação.
A nova empresa vai ultrapassar a JBS. Em valor de mercado, ficará atrás de Petrobras, Ambev, Vale e Telefônica.
A aprovação do negócio pelos controladores da Fibria foi comunicada pouco depois de baterem o martelo, na noite de quinta-feira, pelo BNDES, que, por meio da BNDESPar, detém 29% do capital da empresa. A fusão foi confirmada ontem pelas duas companhias, em comunicados ao mercado.
— Vamos fazer dessa empresa uma vitoriosa. Vai dar orgulho aos brasileiros — disse Walter Schalka, presidente da Suzano Papel e Celulose, ao apresentar detalhes da operação na tarde de ontem, citando que, somente em sinergias, a união das empresas deve gerar ganhos de R$ 8 bilhões a R$ 10 bilhões.
Os controladores privados das duas empresa, as famílias Feffer (Suzano) e Ermírio de Moraes, já haviam negociado anos atrás, e voltaram a conversar sobre uma combinação dos negócios no fim do ano passado. Há duas semanas, já próximas de um formato final para a fusão, foram surpreendidas por uma oferta do grupo asiático Papel Excellence, que apresentou uma proposta de compra da Fibria. Inicialmente de R$ 67 por ação, a oferta foi elevada, na semana passada, a R$ 71 por ação, o que daria à Fibria um valor de mercado de R$ 40 bilhões. Esse movimento ousado deixou em suspenso o desfecho do negócio. E, segundo fontes, deu ao BNDES um papel fundamental na sua conclusão.
EXECUTIVOS VEEM GANHOS FUTUROS
O presidente do banco de fomento, Paulo Rabello de Castro, classificou ontem a fusão de um “negócio extraordinário”. No ano passado, quando a Eldorado, fabricante de celulose controlada pelo J&F, estava à venda, Paulo Rabello chegou a afirmar que preferia que a compradora fosse uma empresa brasileira. Quem arrematou a Eldorado, porém, foi a Paper Excellence, por R$ 15 bilhões.
No entanto, ao comentar a fusão ontem, Paulo Rabello — que admite ter interesse em se candidatar à Presidência este ano —, rechaçou que, ao escolher a Suzano, o BNDES tenha se guiado por qualquer critério relacionado a uma ideia de campeãs nacionais.
— O que nos fez decidir foi a demonstração de um negócio otimizado, que cria valor — afirmou. — O indiscutível e indelegável papel dos arrojados empreendedores privados, e aí eu estou falando das famílias Ermírio de Moraes e Feffer, não torna ninguém campeão mundial, isso é pouco, mas gigantes mundiais.
Teriam pesado em favor da Suzano, ainda, dúvidas em relação à capacidade financeira da Paper Excellence para obter os recursos para fechar a compra da Fibria. Além disso, há restrições a estrangeiros no que se refere à propriedade de terras no país — a Fibria tem grande extensão de florestas de eucalipto em Mato Grosso do Sul.
Segundo fontes, em uma conta direta, a oferta da Suzano pela Fibria teria sido menor que os R$ 40 bilhões oferecidos pela Paper Excellence. Perguntado sobre um possível receio de acionistas minoritários contestarem a opção pela proposta da Suzano, supostamente menos vantajosa, Schalka negou e explicou que ainda é necessária a aprovação dos termos do negócio em assembleias de acionistas das duas empresas:
— Entendemos que temos, para os dois lados, maioria para a aprovação dessa operação. E nós estamos absolutamente tranquilos de dizer que essa transação cria valor para todo mundo, e as sinergias são a fonte principal da criação de valor.
De acordo com Marcelo Bacci, diretor financeiro da Suzano, “não é possível comparar preço entre ofertas com estruturas diferentes”. Mas ressaltou que a fusão com a Suzano dará ao acionista o benefício das sinergias:
— Portanto, vão ter um preço no futuro que será a combinação do que estão recebendo hoje, mais o que valerá a ação da Suzano.
Num primeiro momento, contudo, não foi essa a percepção dos investidores. Ontem, as ações da Suzano já abriram em alta na Bolsa — o acordo foi fechado no fim da noite de quintafeira —, fechando com um salto de 21,79%, cotadas a R$ 28,50. Os papéis da Fibria, por sua vez, desabaram 10,21%, a R$ 64,25.
Pelo acordo, os acionistas da Fibria receberão cerca de R$ 29 bilhões em dinheiro, e dividirão, proporcionalmente às suas participações, 255 milhões de novas ações da empresa resultante da fusão com a Suzano. A estrutura societária terá a seguinte configuração: 46,6% do capital em poder dos acionistas controladores da Suzano; 11,1% com a BNDESPar; 5,6% com a Votorantim, da família Ermírio de Moraes; e os 36,9% restantes pulverizados no mercado.
Pelo acordo aprovado pelos controladores, os acionistas da Fibria receberão R$ 52,50 para cada ação ordinária da Suzano em parcela única, mais 0,4611 ação ordinária de emissão da Suzano. Já os detentores de American Depositary Receipts (ADRs, papéis negociados em Nova York) da Fibria receberão ADRs da Suzano na mesma proporção. Concluída a operação, as ações e ADRs da Fibria deixarão de ser negociadas na B3 (antiga Bovespa) e na Bolsa de Nova York, respectivamente, sendo trocadas pelos papéis da nova companhia, que, por enquanto, chama-se Suzano.
Para desembolsar os R$ 29 bilhões prometidos aos acionistas da Fibria, a Suzano recorreu a instituições financeiras internacionais, com as quais conseguiu levantar US$ 9,2 bilhões, disse Bacci. Segundo ele, reduzir rapidamente o endividamento da companhia será prioridade nos próximos anos. Somadas, as dívidas de Fibria e Suzano somam R$ 21 bilhões.
— O foco será gerar caixa para reduzir o endividamento — disse Bacci.
À ESPERA DA DECISÃO DAS AUTORIDADES
Schalka explicou que, com a fusão, a alavancagem chega a 3,5 vezes o resultado operacional (Ebitda, lucro antes do pagamento e juros, impostos, depreciação e amortização) da nova empresa. E a meta é reduzi-la a 3 vezes em dois ou três anos.
— A companhia (Suzano) sempre se pautou por uma gestão consciente e conservadora, e assim vamos continuar. Vamos manter o foco no investment grade (grau de investimento, selo de bom pagador dado pelas agências de rating) — acrescentou Bacci.
De acordo com Schalka, ainda não está definido se o nome da empresa mudará, ou mesmo se a marca Fibria será extinta. A conclusão do negócio depende ainda da aprovação dos órgãos reguladores, como o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). em que pese o poder de mercado que a nova companhia terá, o executivo disse não acreditar na imposição de restrições pelos órgãos antitruste. Além do Cade, a empresa terá de consultar órgãos similares de países como China, Estados Unidos e Europa.
— Não entendemos que seja necessário nenhum desinvestimento (venda) de ativos. Estamos discutindo sobre um mercado de commodities. Tem muitos players no mundo que fabricam em condições adequadas — afirmou Schalka.
A Suzano informou ainda que o acordo prevê multa de R$ 750 milhões em favor da Fibria, caso a fusão não se materialize em função de restrições muito onerosas por parte dos órgãos antitruste, no Brasil e no exterior.