Título: Cinco negativas até achar um relator
Autor: Mascarenhas , Gabriel
Fonte: Correio Braziliense, 13/04/2012, Política, p. 2

Depois de duas semanas de discursos inflamados, pedidos de rigor e de celeridade na apuração das denúncias contra Demóstenes Torres (sem partido-GO), cinco senadores recusaram ontem a relatoria do processo aberto no Conselho de Ética da Casa que julgará se houve quebra de decoro por parte do parlamentar. Pela ordem, alegaram foro íntimo e declinaram em sequência Lobão Filho (PMDB-MA), Gim Argello (PTB-DF), Ciro Nogueira (PP-PI), Romero Jucá (PMDB-RR) e Renan Calheiros (PMDB-AL). Caberá ao senador Humberto Costa (PT-PE) ocupar a cadeira do parlamentar responsável por elaborar o relatório sugerindo o destino de Demóstenes — ele está sujeito à cassação.

Assim como os demais, Romero Jucá (PMDB-RR) argumentou ter se esquivado da função por ter acumulado diversos embates com o agora acusado. "Acabei de deixar a liderança do governo. Se eu fosse o relator, algumas pessoas poderiam pensar que minha intenção era fazer vingança, o que não é o caso", afirmou.

Demóstenes chegou à sessão meia hora depois do previsto para a abertura dos trabalhos, 10h. Cercado por jornalistas e um grupo de seguranças, venceu o empurra-empurra e entrou na sala, repetindo laconicamente que era inocente.

Adotando a tática do constrangimento, permaneceu no conselho até o fim das discussões.

Acompanhou a recusa dos cinco primeiros senadores sorteados para assumir a relatoria, rito previsto no regimento, e se pronunciou poucas vezes durante a sessão. "Farei minha defesa por escrito, e depois, de forma mais contundente. Ainda não tive oportunidade de fazê-la, mas eu farei e provarei que sou inocente", afirmou, em tom ameno, sem a veemência que marcou sua atuação parlamentar.

A presença de Demóstenes durou pouco, mas foi suficiente para constranger os cinco colegas que declinaram da vaga de relator. Ele chegou a contestar a validade da escolha, por conta da interinidade de Antonio Carlos Valadaraes (PSB-SE) na Presidência do Conselho. Para evitar contestações futuras, os senadores fizeram uma eleição relâmpago para confirmar o sergipano no posto.

Demóstenes acabou deixando a sala logo após o anúncio do nome de Humberto Costa — o relator terá 15 dias úteis para apresentar o parecer preliminar sobre o caso. Na avaliação de alguns senadores, Demóstenes saiu do Congresso mais forte do que entrou, embora ainda agonize politicamente e dificilmente escape da perda do mandato. "É lamentável. Quem renuncia à missão de relatar também deve renunciar à missão de julgar. Deveriam se sentir impedidos de permanecer no Conselho de Ética", criticou o líder do PSDB, Álvaro Dias (PR).

Estratégia de defesa O comparecimento de Demóstenes à sessão confirma a disposição do parlamentar em trabalhar para, na pior das hipóteses, atenuar a derrota anunciada no Conselho de Ética. Desde o início da semana, ele vem procurando senadores para pedir apoio e garantir que conseguirá provar inocência sobre as suspeitas de envolvimento com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Enquanto ocorria a sessão no Conselho de Ética do Senado, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciava a abertura de investigações sobre o vazamemento de grampos da Polícia Federal. "Os que acreditam que os vazamentos visavam prejudicar membros da oposição seguramente agora vão ter de repensar melhor as críticas que fazem à Polícia Federal, que tem atuado com correção, lisura e cumprido o seu papel", alfinetou.

Cardozo afirmou ainda que a presidente Dilma Rousseff está sendo informada sobre o desenrolar das investigações. "Evidentemente, ela é informada sobre tudo o que acontece de segurança pública", explicou. O ministro voltou a negar que as escutas telefônicas que flagraram diálogos entre Demóstenes e Cachoeira sejam ilegais, como argumenta a defesa do parlamentar. "As provas foram coletadas com autorização judicial. A PF cumpriu a lei, e os fatos estão aí colocados, aos olhos de todos: a PF cumpriu o seu papel."

Falcão diz que PT apoia comissão O presidente nacional do PT, Rui Falcão, afirmou ontem que o PT defende a instalação da CPMI para investigar o envolvimento do senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) com o bicheiro Carlinhos Cachoeira em crimes de "contrabando, jogos ilegais, arapongagem e interceptações telefônicas". Falcão afirmou ainda que Demóstenes comporta-se como uma vestal da UDN, que denunciava os outros para esconder as próprias ações. "Os udenistas faziam isso para conseguir votos depois, o Demóstenes agia assim para encobrir outros interesses", acusou Falcão. O partido também vai cobrar que o governo encaminhe ao Congresso o projeto de regulamentação da mídia.

"É lamentável. Quem renuncia à missão de relatar também deve renunciar à missão de julgar. Deveriam se sentir impedidos de permanecer no Conselho de Ética"