Valor econômico, v. 17, n. 4418, 10/01/2017. Brasil, p. A3.

 

 

Vendas de novembro reforçam recuperação do varejo

Bruno VIllas Bôas e Thais Carrança

10/01/2018

 

 

Depois de provocar a queda das vendas do varejo em outubro, as promoções da Black Friday tiveram um efeito positivo maior do que o esperado sobre o comércio varejista em novembro. O resultado reforçou as apostas de que o setor fechou 2017 em crescimento - pouco maior que 2% -, com altas disseminadas entre as atividades, após dois anos seguidos de baixa no volume de vendas.

Segundo a Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), divulgada ontem pelo IBGE, as vendas do varejo restrito (que exclui veículos e material de construção) cresceram 0,7% frente a outubro, após os ajustes sazonais. O resultado ficou acima da média das projeções dos 25 analistas ouvidos pelo Valor Data, de alta de 0,3%. As projeções iam de queda de 0,3% a alta de 1,5%.

No varejo ampliado - que inclui automóveis e material de construção - a expansão foi mais robusta, de 2,5%. O resultado foi influenciado pelo adiamento das compras em outubro para aguardar os descontos de novembro. Em outubro, as vendas recuaram 0,7% pelo conceito restrito frente a setembro (dado revisado de queda de 0,9%).

Dos destaques de novembro, o volume de vendas de Outros artigos de uso pessoal e doméstico (brinquedos, óculos, joias, cama, mesa e banho) cresceram 8% em novembro, frente a outubro. Móveis e eletrodomésticos avançaram 6,1% nessa base de comparação. As duas atividades tem forte correlação com o comércio eletrônico, que encabeçam as promoções de novembro.

O resultado gerou dúvidas sobre a capacidade da pesquisa de retirar os efeitos sazonais da Black Friday. Segundo Isabella Nunes, gerente da coordenação de serviços e comércio do IBGE, apesar do evento ser relativamente novo, a PMC já conseguiria tratá-lo sazonalmente. Sem o ajuste, o aumento das vendas teria sido de 26,1% para móveis e eletrodoméstico e 20,8% para outros artigos de uso pessoal.

"A pesquisa está captando o ajuste a Black Friday. Com o tempo, vamos ter um refinamento maior [do ajuste sazonal]. Em geral, cinco anos é o período mínimo, com padrão repetido, para termos ajustes na série. A série da PMC vem desde 2000. Já a Black Friday vem se consolidando de 2014 para cá", disse a técnica.

Impulsionada pelos preços menores, além do aumento da renda, os vendas de hiper, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que respondem por quase a metade da pesquisa pelo conceito restrito, tiveram crescimento de 0,8% das vendas em novembro, após estabilidade em outubro. Outro destaque foi o aumento de 1,2% em artigos farmacêuticos.

Dos dez segmentos do varejo, só dois tiveram queda. O destaque negativo foi a venda de combustíveis e lubrificantes, com baixa de 1,8% em novembro. No ano, o setor tem baixa de 2,9%. Os analistas são unânimes ao apontar um efeito preço sobre a comercialização dos combustíveis. O produto ficou 7,89% mais caro em 2017 nos postos com a nova política de reajuste de preços adotada pela Petrobras.

Na comparação a novembro de 2016, o volume de vendas do varejo restrito cresceu 2,5%, o melhor desempenho para o mês desde 2013 (7,1%). No comércio ampliado, o avanço foi de 8,7%. De janeiro a novembro, o varejo restrito acumula alta de 1,9%. No caso do varejo ampliado, que acrescenta veículos e material de construção, o aumento foi de 3,7% nessa comparação.

Segundo Thais Marzola Zara, economista da Rosenberg Associados, a alta de 0,7% das vendas na passagem de outubro para novembro sinaliza que dezembro deve ser um mês praticamente estável no comércio. Como consumidores provavelmente anteciparam compras de Natal, ela projeta uma aumento preliminar de apenas 0,2% no mês, frente a novembro.

Assim, o comércio deve ter perdido fôlego no quatro trimestre. Pelas projeções da LCA Consultores e da Rosenberg Associados, o varejo deve registrar alta de 0,2% e 0,3%, respectivamente, no quarto trimestre de 2017, frente ao terceiro trimestre. O UBS fala em queda de 0,3%. São taxas menores que a alta de 3,9% do segundo trimestre e 0,7% do terceiro trimestre.

Para Paulo Neves, economista da LCA Consultores, a perda de de ritmo pode ser atribuída ao fim dos efeitos de estímulos do governo ao consumo, sobretudo das contas do FGTS e PIS/Pasep. "É natural uma acomodação, mas essa desaceleração do quatro trimestre em nada atrapalha a recuperação de 2017 e o cenário mais positivo para 2018", afirma o economistas.

Nas estimativas da LCA Consultores, as vendas do varejo restrito devem ter fechado 2017 com alta de 2,4%. Para 2018, a previsão é de aumento de 3%. No banco UBS, o cenário é um pouco mais otimista, com projeções de alta das vendas de 2,6% em 2017 e 3,5% em 2018. O Bradesco prevê 2,5% e 3%, respectivamente.

"Neste ano vamos ver uma aceleração de massa de renda e do consumo. O salário não acelera muito, crescendo perto de 2% ao ano. O número de ocupados deve aumentar de 2% a 3% no ano. Quando você combina as duas coisas, a massa de renda deve crescer perto de 5%. E isso tem grande correlação com o consumo" disse Fabio Ramos, economista do banco UBS.

O dado melhor que o imaginado em novembro não mudou a perspectiva dos analistas ouvidos para o desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) do quarto trimestre. Para Ramos, o resultado indicou que a projeção do banco de crescimento de 3,1% do PIB no próximo está na "direção certa". No boletim Focus, do Banco Central, analista projetam alta do PIB em 2,69% para 2018.