Título: Mantega exige juros menores de bancos
Autor: Cristino, Vania
Fonte: Correio Braziliense, 29/03/2012, Economia, p. 18

Irritado com a elevação das taxas cobradas dos consumidores pelas instituições, o chefe da Fazenda convoca executivos e pede a contribuição do setor para recuperar economia

Os principais banqueiros do país levaram ontem um puxão de orelha do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Chamados para uma reunião em Brasília, que contou também com a presença do presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Murilo Portugal, e do presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, eles ouviram muitas cobranças do chefe da equipe econômica. A fim de pôr um basta na escalada do spread — a diferença entre o que as instituições pagam para captar e o que recebem pelos empréstimos — e da taxa de juros para os consumidores, Mantega exigiu uma ação conjunta, rápida e eficiente do setor.

Também participaram do encontro dirigentes do Itaú Unibanco e do Santander, além dos presidentes do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal. Ainda assim, o Ministério da Fazenda não confirmou a reunião. Mas interlocutores disseram que, primeiro, Mantega listou o esforço do governo para colocar a economia nos trilhos. A preocupação maior é com a indústria, que, apesar de todas as medidas compensatórias adotadas pelo governo, pode não reagir à crise e sair do atoleiro em que se encontra. A reclamação do ministro, contudo, é com as instituições financeiras, que andam pesando a mão para lucrar mais.

Abuso Responsáveis por oferecer crédito a preços e prazos compatíveis com a capacidade de pagamento da população, os bancos de varejo, que entram na ponta dos consumidores, ouviram que estão ganhando acima do tolerável ao aproveitarem um período de abundância de crédito e de elevada demanda. O Banco Central mapeou o lucro abusivo. Enquanto a taxa básica de juros da economia caiu 2,75 pontos percentuais em oito meses, o spread subiu 4,6 pontos percentuais em 12 meses. Ao lado dessa taxa, avançaram também os juros médios cobrados dos consumidores, hoje em 45,4% ao ano.

O ganho crescente dos bancos fica mais evidente quando se observa que, no mesmo período, eles remuneraram menos os clientes que têm dinheiro aplicado. A taxa de captação, que já foi de 12,6% em abril de 2011, caiu para 9,6% em fevereiro deste ano — uma queda de três pontos percentuais. Para o governo, diante dos números, os bancos não têm desculpa. Terão que dar sua contribuição para a economia continuar andando. Não por acaso, as duas grandes instituições públicas de varejo já se comprometeram a cortar drasticamente os juros.