O globo, n. 30921, 04/04/2018. País, p. 4

 

Villas Bôas repudia 'impunidade'. e ministro 'tranquiliza' população

04/04/2018

 

 

‘Quem está pensando no bem do país?’, pergunta comandante do Exército

-BRASÍLIA- Um dia antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) julgar o habeas corpus do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva, o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, escreveu mensagens no Twitter fazendo referência à impunidade no país. Segundo ele, a instituição compartilha os mesmos “anseios” de todos. Sem citar diretamente Lula, Villas Bôas também criticou quem se preocupa apenas com “interesses pessoais”.

“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do país e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais?”, escreveu o comandante do Exército, por volta das 20h. Até as 23h15m, esse tuíte já tinha recebido 19 mil curtidas.

Em uma segunda mensagem, Villas Bôas falou das missões da instituição que comanda:

“Asseguro à nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais”.

Procurado, o Centro de Comunicação Social do Exército confirmou que as postagens são de autoria do comandante e que elas revelam o que ele pensa sobre o momento do país.

SEM “USO DA FORÇA”

O ministro interino da Defesa, general Joaquim Silva e Luna, afirmou ao GLOBO que as publicações de Villas Bôas foram no sentido contrário ao uso da força, e que a população “pode ficar tranquila” em relação ao teor do que foi dito.

— O general Villas Bôas tem mostrado coerência, é uma marca de sua gestão. Ele tem preocupação com preceitos constitucionais. E valoriza nossas bases, que são os anseios do povo, o legado em termos de valores para as gerações futuras. A mensagem é que a população pode ficar tranquila, pois as instituições estão aqui. Não é uma mensagem de uso da força. É o contrário — afirmou Luna.

Segundo Luna, Villas Bôas “jamais faria algo diferente disso”.

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STF pode soltar hoje Sérgio Cabral

Ascânio Seleme

04/04/2018

 

 

Além de impedir a prisão de Lula, condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de hoje pode tirar Sérgio Cabral da cadeia. Governador mais corrupto do Brasil desde Paulo Maluf, Cabral será um dos muitos beneficiados se o STF mudar o entendimento que, por ora, determina a prisão depois de condenação em segunda instância.

O que o STF está prestes a decidir é que um criminoso qualquer, corruptos como Lula e Cabral ou estupradores como Roger Abdelmassih, pode permanecer livre enquanto o processo estiver tramitando nas quatro instâncias judiciais.

Em favor do leitor e dos ilustres ministros do STF, vale lembrar que Sérgio Cabral já foi condenado em cinco dos 21 processos que correm contra ele. Suas sentenças somam 87 anos de prisão em regime fechado por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Seus diversos bens foram bloqueados e um número assombroso de joias e obras de arte foi confiscado dele e de sua mulher, Adriana Ancelmo.

O currículo criminal de Sérgio Cabral é impressionante. Todos os casos de corrupção desbaratados no Rio pelos juízes Marcelo Bretas e Sergio Moro nas operações Calicute e Lava-Jato têm o dedo de Cabral. Ele recebeu propinas em fraudes contra a Educação e a Saúde; desviou dinheiro de empresas estaduais; fez remessas de valores desviados para o exterior; comprou sete imóveis e carros de luxo com dinheiro de origem pública; recebeu propina de empresas de ônibus onerando a passagem; além, é claro, de ter comprado votos fraudando as eleições.

Este homem, campeão brasileiro de corrupção, ainda está recorrendo das suas condenações. Se o Supremo decidir que um criminoso só pode ser preso depois de sua sentença ter transitado em todas as instâncias, Sérgio Cabral poderá voltar para a sua casa no Leblon. Seu apartamento, aliás, fica ao lado do seu restaurante preferido, o Antiquarius, que servia quentinhas de bacalhau para o ex-governador no presídio de Benfica. A mesma sorte terá Abdelmassih, condenado a 278 anos de cadeia por 37 estupros.

Os efeitos do habeas corpus de Lula, se aprovado, podem alcançar dezenas de milhares de presos condenados em primeira e segunda instâncias, mas ainda não julgados no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e no próprio STF. Apesar dessa abrangência, apenas os mais ricos acabarão de fato beneficiados. Para recorrer, o condenado precisa de um advogado. E advogados custam caro. Os ministros do STF podem jurar que a decisão que tomarão logo mais alcançará a Lula e somente a ele, mas não é verdade. Todos sabemos como funciona a Justiça no Brasil.