O globo, n. 30921, 04/04/2018. País, p. 7
No PMDB, Meirelles tenta virar nome do governo ao Planalto
Leticia Fernandes, Bárbara Nascimento e Bruno Góes
04/04/2018
Ministro se filia à sigla de Temer e quer defender ‘legado’ na eleição
-BRASÍLIA- Em ato com ares de campanha, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, oficializou ontem sua filiação ao PMDB, primeiro passo na tentativa de ser o candidato do partido a presidente da República. O evento, decorado com fotos do presidente Michel Temer e de Meirelles, teve trilha sonora de um jingle que repetia os versos “M de Michel, M de Meirelles e M de MDB”. Com a filiação, o ministro — que tem até sábado para deixar o cargo sem infringir a legislação eleitoral — tenta se viabilizar como candidato do governo, após o PSD de Gilberto Kassab não ter lhe dado legenda para concorrer ao Planalto.
Temer também trabalhava para ser, ele próprio, o candidato do PMDB, possibilidade hoje quase descartada depois da Operação Skala, que prendeu alguns de seus amigos mais próximos na semana passada. O presidente ficou enfraquecido pela chance de ser alvo de nova denúncia da Procuradoria-Geral da República.
Meirelles, porém, ainda precisa conquistar apoio dentro do PMDB. Se não conseguir, corre o risco de ser abandonado pelo partido na eleição, reeditando o ocorrido nas duas últimas vezes que o PMDB lançou candidato próprio à Presidência: em 1989, com Ulysses Guimarães, e em 1994, com Orestes Quércia.
Ao assinar a filiação, Meirelles defendeu o próprio trabalho no governo.
— Estamos construindo o país que queremos. Voltamos ao caminho do crescimento, o que parecia impossível. Esse legado não pode ser perdido.
Meirelles afirmou que fica no cargo de ministro até sexta-feira. Ele sinalizou que deixará o posto mesmo sem a garantia de que será candidato.
— Meu objetivo é contribuir com o país, como já fiz outras vezes. A questão de candidatura vamos tratar à frente.
Em seu discurso, Temer elogiou o ministro, classificado com alguém “habilitado a ocupar qualquer cargo do país”. Meirelles procurou desfazer o ambiente de disputa interna entre ele e o chefe sobre quem será o candidato do PMDB:
— Isso não está sendo objeto de discussão neste momento. A definição pode ocorrer no meio de agosto. Evidentemente que, se aproximando (da data) nós vamos ter essa definição. O importante é que se reconheça o que está acontecendo no país.
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Barbosa entra no PSB e estuda candidatura
Catarina Alencastro
04/04/2018
Ex-ministro do STF tem até agosto para se lançar; partido quer filiar Ayres Britto
-BRASÍLIA- O PSB confirmou ontem a filiação do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Joaquim Barbosa ao partido. Mas segundo o presidente do PSB, Carlos Siqueira, ainda falta uma “eternidade” para a sigla definir se ele será candidato à Presidência da República ou não. Barbosa entrará oficialmente no PSB na sexta-feira, último dia possível para a filiação, após uma série de idas e vindas em torno da decisão de entrar para a política. O presidente do PSB pondera, no entanto, que primeiro o ex-ministro ingressará no partido, e só depois, às vésperas das convenções partidárias, a sigla irá pensar sobre uma eventual candidatura presidencial.
— Primeiro ele vai se filiar. Depois vai pensar sobre candidatura, e o partido também vai pensar. Temos até 5 de agosto, é quase uma eternidade — disse Siqueira.
O prazo para a realização das convenções, que oficializam as candidaturas, é de 20 de julho a 5 de agosto. Ainda não foi definido se a filiação de Joaquim Barbosa ao PSB ocorrerá na sede do partido em Brasília ou se em São Paulo. Segundo integrantes do partido, a pedido de Barbosa, o ato deverá ser pequeno, sem grandes festejos. Além de sua filiação, membros do partido nutrem a expectativa de que outro ministro do STF, Carlos Ayres Britto, também entre no PSB.
— O Joaquim quer uma coisa discreta, bem ao estilo dele. E tem dito que a partir de então vai começar a galgar espaços, convencer as pessoas e fazer alianças para construir sua candidatura. Quem diz que ele não tem tino político se engana — diz um parlamentar da sigla.
Barbosa alcançou 5% das intenções de voto na última pesquisa Datafolha, divulgada em janeiro. Primeiro negro a ocupar uma cadeira na mais alta corte da Justiça, ele foi relator do mensalão, que condenou 24 réus, entre eles o ex-ministro da Casa Civil de Lula, José Dirceu. No meio político há quem o considere o “primeiro Moro”, em referência ao juiz Sérgio Moro, que ganhou notoriedade com a operação Lava-Jato. Embora sua atuação na relatoria do mensalão tenha rendido a inimizade dos petistas, Barbosa criticou publicamente o processo de impeachment de Dilma Rousseff, usando o Twitter para classificá-lo como “tabajara” e “patético”.
Quando o presidente Michel Temer tomou posse, Barbosa carregou nas tintas ao criticá-lo também nas redes sociais. Na ocasião, afirmou que Temer estava enganado em acreditar que teria o respeito e a estima dos brasileiros. O magistrado se aposentou do STF em julho de 2014, aos 59 anos. Pelas regras do serviço público poderia continuar ocupando uma das 11 cadeiras da Suprema Corte até completar 75 anos.