Correio braziliense, n. 20074, 07/05/2018. Brasil, p. 6

 

Exército tira venezuelanos de praça em Boa Vista

Deborah Fortuna

07/05/2018

 

 

SOCIEDADE » Militares levam para dois abrigos da capital de Roraima 840 refugiados. Há 7 mil na cidade, dos quais 1.300 estão nas ruas. Governadora afirma que não tem como acolher mais pessoas e pede ao STF para fechar a fronteira

Mais de 840 venezuelanos foram retirados da Praça Simón Bolívar, em Boa Vista, e encaminhados para dois abrigos na capital. A ação ocorreu ontem pela manhã e durou até o começo da tarde. Por volta das 14h40, o Exército Brasileiro encerrou a operação. Os centros de apoio têm capacidade, juntos, para abrigar cerca de 900 pessoas.

De acordo com o Exército, é difícil cravar um número exato de imigrantes que estão em abrigos atualmente porque esse número muda constantemente. Se algum venezuelano consegue um emprego, por exemplo, ele deixa o local. O mesmo ocorre com os que estão sendo interiorizados, ou seja, encaminhados a outros estados do país. Mas a estimativa é de cerca de 3,5 mil acolhidos. No entanto, há quase 7 mil na cidade — sendo que 1.300 em situação de rua.

Na última sexta-feira, 233 pessoas foram levadas para Manaus e São Paulo. Até agora, 498 migraram para outras regiões do país. Ao todo, 241 militares das Forças Armadas participaram da operação de ontem. Além deles, cerca de 100 profissionais da guarda municipal e do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) também ajudaram no processo. Atualmente, há seis abrigos em Boa Vista, cada um com média de 500 vagas, e um em Pacaraima, na fronteira entre Brasil e Venezuela. O governo federal pretende promover a interiorização de 15 mil imigrantes. Estão sendo disponibilizados R$ 190 milhões para atender à operação ao longo de 12 meses.

Ainda assim, o estado se prepara para receber mais venezuelanos que fogem do país de origem por causa da crise econômica em em busca de melhores condições de vida. A onda migratória teve início em 2015, quando um grupo de índios venezuelanos pediu refúgio no país. Em 2016, o processo ficou mais intenso, e em 2017, o número de imigrantes no país chegou a quadruplicar. Este ano, os dados apontam 92,6 mil no país.

Fechamento da fronteira

A governadora de Roraima, Suely Campos (PP), entrou com uma ação contra União no Supremo Tribunal Federal(STF) para fechar as fronteiras com a Venezuela temporariamente. O pedido foi feito em abril deste ano. A justificativa é de que o estado não tem mais condições financeiras de abrigar todos os imigrantes que chegam à região.

Segundo a governadora, a imigração tem sobrecarregado as unidades de saúde e a segurança pública da região. Não é possível atender adequadamente nem os que vieram do país vizinho nem a população de Roraima. Com a ação, Suely pretende obrigar auxílio federal ao estado, já ela estima que R$ 70 milhões foram gastos apenas com o atendimento de imigrantes em unidades de saúde, o que representa um aumento de 3.500%. Ainda não há um ministro relator da ação no STF.

O governo federal enviou a Boa Vista o reforço de 12 equipes do Programa Mais Médicos, além de ter firmado um acordo com o Corpo de Bombeiros no valor de R$ 4,5 milhões. Além disso, foram empenhados R$ 563,3 mil para o Fundo Estadual de Saúde.