Título: Os desafios da capital da República
Autor:
Fonte: Correio Braziliense, 21/04/2012, Opinião, p. 30

Traçada com régua e compasso, Brasília nasceu vanguarda. As avenidas largas, a demarcação de setores, as amplas áreas verdes, o aconchego das superquadras, o arrojo da arquitetura, a convivência dos diferentes — tudo parecia projetar a cidade para patamar superior às urbes brasileiras cuja origem se deveu ao acaso, e o crescimento pagou tributo à improvisação.

Lamentavelmente, nem todos entenderam o alcance da utopia concretizada por JK. Sucessivas crises políticas tiraram a capital do rumo. O ápice do descontrole ainda não completou dois anos, mas as consequências de desgovernos que se arrastaram por décadas comprometeram o projeto de construir no cerrado a cidade que, além de levar o progresso para o oeste, serviria de exemplo para um Brasil justo e desenvolvido. A capital do futuro, porém, tinha marcas do passado arcaico. O mais visível: a falta de planejamento.

A explosão demográfica, fruto de irresponsável populismo, não foi acompanhada de suficiente investimento em infraestrutura nem tampouco em crescimento e qualificação dos serviços públicos. O trânsito congestionado e assassino, o transporte público dissintonizado com as exigências da sustentabilidade, o desrespeito ao meio ambiente, os apagões cada vez mais frequentes e com maior abrangência, a saúde que exclui e mata, a insegurança que torna a cidade uma das mais violentas do país, a educação que não consegue dar o salto de qualidade exigido pelo mundo globalizado — são sintomas de doença que, felizmente, temos tempo de curar.

Impõe-se frear a degradação e corrigir rumos. Ao contrário do que ocorreu com Salvador, Recife, São Paulo, Rio de Janeiro e tantas outras capitais que nasceram e cresceram sem conhecimento da ciência ambiental, Brasília é contemporânea do amadurecimento da ecologia. Não só do avanço do saber, mas também da consciência sobre os limites dos recursos naturais. O governo tem à disposição os meios aptos a promover as correções impostas pela realidade.

Urgem ações imediatas. De um lado, com medidas preventivas. Entre elas, a garantia de abastecimento de água e de fornecimento de energia, o fim da especulação imobiliária, a manutenção do projeto urbanístico, a preservação das áreas verdes, a qualidade do ar. De outro, com medidas corretivas. É o caso de elaborar projetos capazes de garantir a mobilidade, os investimentos necessários para humanizar a saúde e devolver aos brasilienses a segurança e a excelência na educação. Com providências sérias e tempestivas, a jovem Brasília retomará a utopia. Repete-se: ainda há tempo.