Correio braziliense, n. 20094, 28/05/2018. Política, p. 4

 

O que o eleitor quer dos governantes?

Deborah Fortuna e Bruno Santa Rita

28/05/2018

 

 

ELEIÇÕES » Pesquisa feita pelo Correio, com cidadãos entre 17 e 55 anos, revela que saúde, educação, Previdência, transporte

Saúde, educação, previdência, transporte e segurança pública: os temas mais recorrentes “na boca do povo” são essenciais para eleger o próximo presidente da República. É a sociedade que dita os assuntos que devem ser tratados nas campanhas para que um presidenciável, por exemplo, chegue ao posto de mais alto cargo do Executivo. Neste cenário incerto de eleições, o jogo político mostra que é necessário correr atrás e atender às principais demandas da população. Mas, afinal, o que querem os eleitores? Foi com essa pergunta que o Correio circulou nas ruas, ouvindo o que mais se espera do próximo eleito.

Entre os temas mais discutidos, cinco se sobressaíram como mais recorrentes (veja no quadro ao lado). A segurança pública tomou espaço na opinião pública, após as demandas do país com a intervenção federal no Rio de Janeiro. Saúde e educação, assuntos que fazem sempre parte da demanda populacional, também estiveram na lista, com pedidos de melhores investimentos. Os problemas nos transportes públicos também foram citados, com foco na infraestrutura e no preço das passagens.

Por fim, a questão da Previdência. Essa última ganhou força após o esforço do governo federal de tentar aprovar a reforma no começo do ano. Apesar de a maioria entrevistada acreditar na necessidade de haver uma mudança na legislação da aposentadoria, as críticas são por pontos específicos no texto.

Para o cientista político Márcio Cunha Carlomagno, os temas reivindicados pela sociedade fazem parte de uma antiga demanda. “Saúde, educação, transporte são pautas que sempre estão presentes, e são assim há muitos anos. São clássicas, que sempre estão no topo dos desejos. Historicamente, saúde é a principal queixa”, diz. Porém, Carlomagno acredita que há assuntos que variam conforme o ano eleitoral, isso porque a população muda, assim como os principais problemas do país. Um dos exemplos é a eleição que elegeu Fernando Collor, na qual a inflação era o principal tópico a ser trabalhado. “O candidato que vencer é aquele que souber responder essa pauta (da sociedade). A gente pode perceber, por exemplo, agora, um incremento da população com segurança pública e o crescimento nas pesquisas de candidatos que respondem a essa pauta”, explica.

Segundo o especialista, é essencial entender a demanda da população para que o presidenciável possa se beneficiar disso. “É interessante ver que alguns candidatos estão com pautas diferentes. Os mais à esquerda vão tentar trazer o retorno da ascensão social do governo Lula. O candidato do PSDB vai se valer da questão econômica e das reformas. O Bolsonaro, por exemplo, tem essa relação com segurança”, avalia.

E é exatamente pela tentativa de buscar votos que os candidatos tendem a fugir de pautas polêmicas e se esquivar até que tenham um eleitor fiel. Isso, no entanto, segundo Carlomagno, mudará este ano. O cientista político acredita que o “modelo clássico” de “ficar em cima do muro” em questionamentos controversos não será uma boa jogada este ano.  “Por causa dessa certa insatisfação do eleitor com a política, me parece que, ao menos parcialmente, esse tipo de comportamento do candidato, que evita se posicionar para não criar polêmicas, é um dos aspectos que desagradam a população”, analisa.

Economia

Do ponto de vista do presidenciável, o analista de contas públicas Fábio Klein, da empresa paulista Tendências, acredita que o candidato que tratar sobre desemprego e aumento de renda sairá na frente. “Temos um nível histórico de pessoas sem trabalho. Chega a 12% entre a população economicamente ativa. Se falamos de todo mundo, incluindo pessoas subalocadas, o número aumenta para 20%. Não me lembro de algo assim nos últimos 15 anos”, explica.

Para Klein, esses dois assuntos devem ser basicamente os primeiros itens de preocupação nos palanques. Ainda assim, quem trouxer soluções milagrosas corre o risco de sair desacreditado. “Não adianta trazer uma coisa esotérica e falar que vai resolver tudo em um ano. Viemos de um caos nas contas públicas há dois anos e o jeito é pensar em maneiras gradativas e eficazes para solucionar a crise.”

Investir em infraestrutura e trazer de volta a confiança do setor privado para o setor público podem ser os maiores desafios. “As pessoas precisam ficar confortáveis em investir numa administração. Só assim o dinheiro volta a circular”, pondera Fábio Klein, que sugere a despersonificação excessiva das pessoas durante as campanhas. “Você não pode achar que o cara vai fazer tudo sozinho. Ele não é CEO de uma empresa. É um presidente da República que precisa de uma boa equipe e boa capacidade de negociação. Só se consegue isso, por exemplo, tendo um bom relacionamento com o Congresso Nacional. E ninguém sabe o que vai encontrar ali”, completa. Colaborou Bernardo Bittar

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Descrença nos políticos é maior obstáculo

28/05/2018

 

 

A pouco mais de quatro meses das eleições, os presidenciáveis devem começar a ouvir as demandas dos agentes mais poderosos das urnas: os eleitores. O Correio conversou com cidadãos para ouvir o que eles mais levam em conta na hora de apertar o botão de “confirma”. Com a proximidade do mês de outubro, a sociedade já acompanha os passos daqueles que querem disputar o palanque. Porém, a descrença na política é um dos principais “obstáculos” no caminho para a escolha do próximo líder do Executivo.

O candidato ideal é aquele que age com transparência, e se importa com os principais desejos e problemas da população. Pelo menos é nisso que acredita a estudante Glauciane Martins, de 20 anos. Sem essas características, fica difícil escolher um lado. “Tem alguns políticos que fica difícil de confiar. Queremos mais transparência”, pede. Ela acrescenta que ainda não sabe quem vai escolher para o cargo. “Não sei de que lado eu estou. Ainda não vi coisas que me façam confiar em nenhum candidato”, lamenta.

Outro problema que o candidato deve estar atento a propor soluções é a questão da segurança pública. Ela explica que costuma sentir medo quando sai da universidade mais tarde e caminha pelas quadras próximas de casa, em Brasília. “A gente precisa de mais iluminação e mais policiais. Isso ajudaria”, comenta.

O sociólogo Antônio Flavio Testa também concorda que a segurança é um dos desejos mais recorrentes da população. O problema, no entanto, é a descrença na política. “Eu acredito que nenhum deles vai ter uma preocupação estratégica como essa. Só questões pontuais. isso é no Brasil todo. Eles só prometem, mas nenhum deles tinha projeto de segurança pública”, assinala.

Assim, o que vale na hora de escolher o presidenciável é a maneira como o candidato aborda as questões que a sociedade considera mais importantes.  Para o estudante Vitor Cardoso, de 25 anos, dois desses pontos “essenciais” são a melhora nas condições do transporte público e a mudança no texto da reforma da previdência. Segundo o estudante, o país ainda conta com o servidor público e, por isso, é importante rever trechos do texto da reforma.  “O setor terceirizado é muito prejudicado. O servidor público tem privilégios demais”, explica. Ele também reivindica mais investimentos para a indústria na capital federal, principalmente no setor tecnológico.

No que diz respeito às reivindicações de transporte público, o professor de engenharia de tráfego da Universidade de Brasília (UnB) Paulo César Marques acredita que a reclamação tem fundamento. De acordo com o especialista, antes de se pensar nas propostas, tem que se abrir espaço para que a própria sociedade dialogue com o poder público.  “A gente precisa, antes de tudo, fazer uma democratização da participação da população na elaboração dos projetos. A lei que discute mobilidade urbana devia ter o controle da população”, diz.

Para isso, também é preciso mudar a mentalidade do governo: os problemas devem ser resolvidos como um todo. “A possibilidade de dar universalidade à mobilidade urbana está no transporte público coletivo, e não no individual. Quem tem voz tem que começar a ver que a prioridade é o transporte público, o transporte ativo”, explica.

Já o estudante de engenharia elétrica da Universidade de Brasília (UnB) Robson Reis, de 22 anos,  considera que o discurso polarizado prejudica um debate de alto nível, focado em soluções, e não apenas em ideologias. “Tem temas que são mais importantes do que firmar as ideologias. Eles têm que falar do que importa”, recomenda. Um desses assuntos, para Robson, é a previdência. Segundo ele, o foco para garantir a reforma deve ser primeiro garantir credibilidade e confiança do povo. “Se quer fazer a reforma, tenha credibilidade”, sentencia.

Para o economista e consultor de Orçamento da Câmara dos Deputados, Leonardo Rolim Guimarães, a negativa da população a respeito da reforma indica que, muitas vezes, o texto não foi lido integralmente. “Elas foram muito contaminadas por informações deturpadas que ocorreram nas redes sociais, as pessoas não conhecem. A maior parte das pessoas achava que é certo se aposentar aos 55, por exemplo. Mas, se algumas já reconhecem a necessidade da reforma, isso é um grande avanço”, avalia.

Para Guimarães, no entanto, a população ainda está longe de aceitar de “braços abertos” pauta econômicas como cerne do debate político. “A não ser que o candidato tenha uma comunicação espetacular. O que a gente vê é que candidato com pauta econômica não costuma ter apoio e não sensibiliza a população”, completa. (DF e BSR)

Frase

"O que a gente vê é que candidato com pauta econômica não costuma ter apoio e não sensibiliza a população”

Leonardo Rolim Guimarães, economista e consultor