Título: CGU detalha 60 contratos firmados com a Delta
Autor: Correia, Karla
Fonte: Correio Braziliense, 18/04/2012, Política, p. 4
Construtora que, segundo a PF, tem ligações com bicheiro é acusada de não realizar obras. Valor de serviços chega a R$ 632 milhões
A Controladoria-Geral da União (CGU) enviou ao Ministério Público Federal o resultado da auditoria em que encontrou irregularidades em obras tocadas pela Delta Construções, em 60 contratos que somam R$ 632,3 milhões, ao longo do segundo mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo o ministro Jorge Hage, da CGU, o órgão está à disposição para qualquer demanda feita pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) mista que pretende investigar as ligações do contraventor Carlinhos Cachoeira — há suspeitas de que a empreiteira tem negócios com o bicheiro. Grande parte das obras em que a controladoria encontrou irregularidades foram em contratos firmados pela Delta com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
De 2007 a 2010, só do Ministério dos Transportes, a empreiteira recebeu R$ 2,1 bilhões. As ações envolvem a conservação, a recuperação e obras tapa-buracos em 31 estradas de todo o país. Entre as irregularidades, estão casos de superfaturamento, pagamentos indevidos e até indícios de montagem de fotos para comprovar a execução de obras. A auditoria mostrou a repetição de uma série de erros cometidos recorrentemente pela Delta.
Em mais de 20 rodovias, foram constatados trabalhos malfeitos ou com diversos problemas. Ao auditarem a obra de manutenção da BR-116, na Bahia, por exemplo, os técnicos do CGU encontraram "vários trechos com buracos e serviços malfeitos". Já na recuperação da BR-101, foram identificados "defeitos da pista de rolamento e acostamento", como trincas, grandes buracos e asfalto escorregadio. Na BR-230, no Pará, havia erros que comprometem, segundo a controladoria, a segurança dos usuários.
A falha na fiscalização das obras foi outro ponto que apareceu com frequência. Além de ineficiência, a CGU constatou que superintendências regionais do Dnit não foram diligentes o suficiente ao fiscalizar as obras. Nos diários de obras, documento que detalha o andamento de cada trabalho, foram encontradas manipulações e diversas partes em branco.
Duplicidade Uma série de pagamentos inadequados foi feita à construtora. Alguns serviços, como em trechos da BR-364, de Roraima, ocorreram em duplicidade. Também houve cobrança por obras que nem sequer foram feitas, ou fora das especificações técnicas traçadas nos projetos.
Segundo a ONG Contas Abertas, os contratos da Delta com a administração federal direta, sem contar as empresas estatais, cresceu 193 vezes nos últimos 16 anos. Em 1996, a empreiteira recebeu R$ 4,5 milhões da União. Em 2011, o valor chegou a R$ 884,5 milhões. Foi em 1996 que o engenheiro Fernando Cavendish, filho do fundador da empresa, Inaldo Soares, abandonou o ramo de confecções e assumiu os negócios da família. Investigada pela Polícia Federal (PF) por suspeita de envolvimento com o bicheiro Carlinhos Cachoeira, a Delta hoje é a empresa que mais recebe dinheiro do governo federal. Cavendish mantém relação próxima com diversos políticos. É amigo, por exemplo, do governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB).
Mais importante construtora do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a Delta esteve — e ainda está — ligada a empreendimentos de peso, como a transposição do Rio São Francisco em diversos estados do Nordeste, o Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), no Rio de Janeiro, o Arco Metropolitano fluminense e as obras do PAC no Complexo do Alemão, também no Rio. A empresa mantém ainda negócios nas áreas de montagem industrial, energia, saneamento, coleta de lixo e limpeza urbana.
Ao Correio, a Delta enviou nota por meio de assessoria de imprensa, na qual "reitera a regularidade e a lisura de todos os seus atos". Segundo a empresa, "as contestações podem ser feitas pelos órgãos de controle e, sempre que detectadas, são corrigidas", o que seria um "procedimento normal e corriqueiro na relação mantida entre o poder público e seus fornecedores de serviços".
"As contestações podem ser feitas pelos órgãos de controle e, sempre que detectadas, são corrigidas. Trata-se de um procedimento normal e corriqueiro na relação mantida entre o poder público e seus fornecedores de serviços"
Nota enviada pela Delta Construções