O Estado de São Paulo, n. 45502, 17/05/2018. Política, p. A10

 

Para PF, dinheiro desviado bancou sítio

Fabio Serapião 

17/05/2018

 

 

Em laudo, peritos dizem que Odebrecht usou caixa 2 com recursos da Petrobrás para reformar imóvel em Atibaia, pivô de ação contra Lula

Laudo produzido pelos peritos da Polícia Federal de Curitiba indica que o dinheiro destinado pela Odebrecht para custeio das obras no sítio de Atibaia, frequentado pelo expresidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua família, saiu do caixa 2 da empreiteira abastecido com dinheiro desviado de obras da Petrobrás, de outros órgãos públicos e ainda contratos no exterior.

O documento corrobora versão do engenheiro Emyr Diniz Costa Júnior que, em delação, disse que recebeu R$ 700 mil para a compra de materiais e serviços relacionados à obra por meio do chamado setor de Operações Estruturadas da empreiteira – que servia para o controle do pagamento de propinas.

Para a elaboração do laudo, os peritos da PF levaram em conta a análise dos dados contidos nos sistemas eletrônicos Drousys e Mywebday, utilizados pela Odebrecht como uma espécie de sistema financeiro paralelo da empresa. De acordo com os peritos, os dados são íntegros e autênticos.

O Ministério Público Federal sustenta que as reformas no sítio foram bancadas pela Odebrecht e também pela OAS como forma de repasse dissimulado de propina a Lula, que já foi condenado e preso em ação penal que apurou a reforma de um triplex no Guarujá.

O documento foi anexado à ação penal em que Lula é réu por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O Ministério Público Federal (MPF) baseia sua acusação na delação de Costa Júnior. O engenheiro da Odebrecht apresentou documentos sobre o recebimento, em dezembro de 2010, de dois pagamentos (de R$ 400 mil e R$ 300 mil).

Esses recursos, segundo o engenheiro da Odebrecht, foram usados para a compra de materiais e pagamento de serviços relativos à reforma do sítio em Atibaia. Ele disse ainda que a entrega foi viabilizada pela Odebrecht e teria como rubrica no sistema paralelo da empresa o nome “Aquapolo”.

Em resposta à questão feita pela defesa do ex-presidente – sobre se haviam lançamentos contábeis referente à obra “Aquapolo” (de saneamento realizada na região do ABC Paulista) – os peritos confirmaram que os valores saíram da obra “UO011203 –AQUAPOLO”. É a mesma obra que aparece nos documentos apresentados pelo engenheiro ao MPF.

Defesa. Em nota, o advogado do ex-presidente, Cristiano Zanin, disse que o laudo “não estabeleceu qualquer vínculo entre uma planilha apresentada por ex-executivo da Odebrecht e o sítio de Atibaia frequentado pela família do ex-presidente Lula, de propriedade da família Bittar”. “A planilha apresentada pelo delator se refere expressamente a obras realizadas no projeto Aquapolo, realizado na Sabesp, ligada ao governo de São Paulo, sem qualquer relação com Petrobrás e muito menos com Lula.” Zanin afirmou ainda que o laudo fez “descabidas” referências a recursos provenientes de contratos da Petrobrás e que Lula “jamais solicitou ou recebeu qualquer vantagem indevida da Odebrecht ou de qualquer outra empresa”.

A defesa da Odebrecht não se manifestou até a conclusão desta edição.

 

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