Título: Sobrou para o baixo clero
Autor: Mascarenhas, Gabriel; Gama, Júnia
Fonte: Correio Braziliense, 25/04/2012, Política, p. 2

Os caciques dos principais partidos da base aliada ficaram fora da CPI do Cachoeira e fizeram uma escolha por eliminação para eleger os representantes do Senado que vão investigar as relações do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, com agentes públicos e privados. Como o Correio mostrou na última segunda-feira, caberá a senadores com pouca representatividade, como suplentes e parlamentares em primeiro mandato, a tarefa de blindar o Palácio do Planalto da ameaça de uma CPI, apoiada por opositores e governistas, que ninguém sabe onde vai respingar.

No fim da manhã, o deputado petista Odair Cunha (MG) foi anunciado como relator da CPI. Ele adiantou que, antes das primeiras convocações, quer ter acesso aos inquéritos do Supremo Tribunal Federal (STF), que tiveram origem nas operações da Polícia Federal que investigaram Cachoeira. À noite, em sessão do Congresso, os partidos apresentaram todos os nomes que vão integrar a CPI (veja acima).

No PMDB, o líder da legenda, Renan Calheiros (AL), o ex-líder do governo Romero Jucá (RR) e o atual representante do Executivo no Senado, Eduardo Braga (AM), confirmaram que estão fora da CPI. Embora as justificativas públicas sejam distintas, a razão para o declínio é a mesma: risco de desgaste político e de perda de prestígio com o Planalto, se surgirem denúncias contra o governo, e caso a base aliada não consiga administrar. Além de Vital do Rêgo, presidente da CPI, o PMDB escalou os senadores Ricardo Ferraço (ES), que cumpre seu primeiro mandato, e Sérgio Souza (PR), suplente da atual chefe da Casa Civil, Gleisi Hoffmann. "As pessoas não quiseram (compor a CPI). Indicamos os que toparam", admitiu Renan Calheiros.

O PT, o partido da presidente Dilma Rousseff, abriu mão de uma das três vagas de titular a que tinha direito e manterá na CPI apenas os senadores da legenda que integram o Conselho de Ética, onde corre o processo de quebra de decoro parlamentar contra o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), que esteve no plenário ontem. O parlamentar anunciou que apresentará hoje a sua defesa. Cotados para uma vaga de titular, os petistas Welington Dias (PI) e Jorge Viana (AC) ficaram como suplentes — o que também ocorreu com o líder do partido, Walter Pinheiro (BA). Sobrou para Lídice da Mata (PSB-BA) uma das cadeiras de titular do bloco, que conta ainda com PDT, PSB, PCdoB e PRB.

Convocações Entre os integrantes do bloco União e Força (PR, PTB e PSC), até a suplência assusta. Presidente do PR, o senador Alfredo Nascimento (AM) pediu para deixar o posto depois de o ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) Luiz Antonio Pagot acusar, por meio da imprensa, assessores do Planalto de trabalharem para derrubá-lo do cargo. "O cara ia entrar numa roubada dessas, tendo que escolher entre um correligionário e o governo? Claro que não", justificou um aliado de Nascimento.

O conteúdo explosivo da CPI está garantido com a participação de parlamentares ressentidos. Parte da bancada petista, que guarda mágoas do episódio do mensalão, e o senador Fernando Collor (PTB-AL), escolhido integrante da comissão a pedido próprio, estão nessa lista. As estratégias incendiárias não pouparão nenhum dos poderes. A primeira convocação seria a do procurador-geral da República, Roberto Gurgel.

No Legislativo, além de Demóstenes, outros parlamentares envolvidos com Cachoeira também estão na alça de mira. Convocações de governadores são dadas como certas. Mas é no Executivo federal que as investigações têm maior potencial de dano. O grande temor governista recai sobre possíveis revelações de Pagot. "Ele (Pagot) está descontrolado, não pensa em acordo e quer ser o primeiro a ser chamado. O Planalto já foi avisado", aponta uma liderança governista.

"As pessoas não quiseram (compor a CPI). Indicamos os que toparam" Renan Calheiros (AL), líder do PMDB no Senado

32 Total de deputados e senadores titulares na CPI do Cachoeira