Título: Turbulências persistem, diz Krugman
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Fonte: Correio Braziliense, 19/04/2012, Economia, p. 16
Turbulências persistem, diz Krugman
O pânico acabou, mas as economias avançadas ainda não se recuperaram da crise de 2008, quando o banco Lehman Brothers quebrou. A afirmação foi feita ontem pelo Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, que participou de um seminário em São Paulo promovido pelo Sebrae. Hoje, no entanto, o centro da crise migrou para a Europa, que vive um cenário semelhante ao enfrentado pelos Estados Unidos três anos atrás, com famílias endividadas, alta alavancagem de investidores e autoridades reguladoras complacentes.
O problema na Zona do Euro é agravado pela existência de uma moeda única, sem um Estado único. Caso a Espanha tivesse moeda própria, por exemplo, poderia desvalorizá-la para tentar reduzir os efeitos da crise no país. Com a moeda única, isso não é possível. "A situação da Europa é muito complicada. E a Espanha teve um problema semelhante ao dos EUA, que foi a bolha do setor imobiliário", comentou.
Uma saída para o continente seria a expansão da política monetária pelo Banco Central Europeu, com estímulo ao nível de atividade. O risco seria a alta de preços ao consumidor, mas, na visão do economista, poderia funcionar. Na opinião de Krugman, desde 2002 o Brasil passa por um período de fortalecimento da economia interna. A redução das desigualdades de renda aumentou o mercado consumidor, o que ajuda a mitigar os efeitos da turbulência que atingiu os Estados Unidos e a Europa. Além disso, as empresas e as instituições estão mais cuidadosas. "Aqui (no Brasil), as crises estão na memória mais recente. As pessoas não esqueceram que as coisas podem dar errado. O resultado é mais cautela no setor público e privado", disse.
No entanto, o Nobel alertou que "é difícil para as pequenas empresas exportarem. O Brasil está ganhando uma classe média, isso é um mercado que elas devem olhar para ter sucesso. É uma tendência", afirmou. Entre as dificuldades para as MPE venderem ao mercado externo, segundo o economista, está o fortalecimento da moeda local, que encarece os produtos brasileiros no mercado internacional. "O país enfrenta uma ameaça de perda de competitividade em função do real forte. Mas não é uma catástrofe", amenizou.
A valorização da moeda brasileira se deve, principalmente, ao acréscimo de investimentos estrangeiros na economia local. Krugman destacou que há um fluxo de capitais do norte para o sul, em referência aos investidores que deixam de aplicar nos EUA e na Europa e direcionam seus recursos para as economias emergentes.
Governo dobra emissão em real
O governo decidiu realizar uma emissão maior do que a prevista inicialmente para garantir liquidez aos bônus soberanos denominados em real, buscando combater a valorização do real e melhorar o financiamento de longo prazo de empresas nacionais. O governo captou US$ 3,15 bilhões nos mercados norte-americano, europeu e asiático, com um rendimento de 8,6% ao ano, o menor da história para títulos denominados em real. O papel utilizado foi o bônus Global BRL com vencimento em 2024. "Tínhamos anunciado que iríamos aumentar a nossa curva em real e até fizemos uma emissão um pouco maior para ter bastante liquidez e dar esse sinal de forma clara", afirmou o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin.