Título: Risco de endividamento
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Fonte: Correio Braziliense, 19/04/2012, Economia, p. 16
Crescimento acelerado do crédito pode ser armadilha para a América Latina, alerta Fundo Monetário Internacional
O rápido crescimento do crédito em alguns países da América Latina — inclusive no Brasil — deve ser um alerta para as autoridades, porque pode sinalizar futuros problemas de endividamento. A avaliação foi feita pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), no relatório semestral sobre a estabilidade financeira mundial, divulgado ontem. "Períodos nos quais o índice de crédito cresce muito rápido são indicadores de créditos ruins no futuro", declarou o diretor do Departamento de Mercados Monetários e Financeiros do FMI, José Viñals.
Em seu relatório, o organismo multilateral fez uma simulação sobre o possível impacto da crise bancária europeia na América Latina, cujos resultados não foram informados. Mas, segundo Viñals, no caso em que os bancos tenham de buscar em suas filiais no mundo todo a liquidez necessária, "há um impacto (na América Latina) que é relativamente pequeno se comparado a outras regiões, como a Europa".
Em relação ao Brasil, o documento destacou que o volume de crédito concedido anualmente pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) cresceu cerca de 20% entre 2008 e 2011. O fundo ponderou que a ação da instituição pública ajudou a minimizar os efeitos da crise internacional no país em 2009, mas alertou para o fato de a contínua expansão no volume de crédito concedido já estar provocando aumento nas taxas de empréstimos e crescimento da inadimplência, particularmente no segmento de pessoas físicas. "Nessas circunstâncias, o espaço para o uso do canal de crédito para conter choques negativos pode se mostrar limitado", alertou o FMI.
Para o fundo, é importante que os emergentes estejam preparados para uma saída repentina de capital, caso o cenário global se torne novamente mais adverso e cresça de novo a aversão ao risco. "A volatilidade no fluxo de capitais para os emergentes aumentou, mas a direção é altamente incerta", apontou o FMI.
Citando, especialmente, Brasil, Índia e Turquia, o relatório lembrou que o otimismo recente tem estimulado os investidores a tomaram mais riscos no mercado de ações e elogiou as medidas macroeconômicas adotadas pelos governos. "O uso cauteloso de medidas para fluxo de capital pode ter um papel de apoio", reportou.
Prudência No documento, o fundo considerou que a América Latina está a salvo da crise dos bancos europeus, mas a prudência é essencial. Para Viñals, a eficiente análise das provisões e a supervisão da qualidade de empréstimos são algumas das medidas que devem ser tomadas. "As autoridades deveriam exercer vigilância a respeito", afirmou.
O relatório destacou os riscos dos bancos na Zona do Euro, por conta da dívida soberana dos países-membros e de seus empréstimos não pagos, que podem custar até 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) da região em 2012 e 2013. Pelos cálculos do fundo, os 58 maiores bancos da União Europeia devem reduzir seus balanços em US$ 2,6 trilhões (2 trilhões de euros), ou 7% de seus ativos atuais, de setembro de 2011 ao fim de 2013.
O documento reconheceu que os novos governos da Itália e da Espanha responderam às pressões internacionais, adotando medidas importantes para reduzir os débitos fiscais e fortalecer suas economias. O fundo, entretanto, considerou que as ações recentes ainda não trouxeram de volta a confiança e que, mesmo no caso de a situação do mercado de títulos públicos na região ter melhorado, ela ainda é frágil.
EUA e Japão
O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou para o fato de que os altos deficits dos Estados Unidos e do Japão impõem riscos elevados à estabilidade financeira. "Houve pouco progresso até agora em colocar em prática estratégias para tratar do problema, em contraste com o que está ocorrendo na Europa", advertiu o fundo, acrescentando que esses dois países precisam adotar planos críveis de longo prazo para reduzir suas dívidas.