Título: No fogo cruzado
Autor: Ribas, Silva
Fonte: Correio Braziliense, 19/04/2012, Economia, p. 20

No fogo cruzado

Ao expropriar 51% de ações da espanhola Repsol na petroleira YPF, a presidente argentina Cristina Kirchner abriu novas e variadas frentes de conflito. Além da série de barreiras comerciais já adotadas, a nova medida busca salvar o modelo econômico do governo em meio a duras críticas da União Europeia (UE), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e de diversas autoridades políticas e acadêmicas. Apenas do presidente venezuelano Hugo Chávez, por telefone, a presidente argentina encontrou apoio ontem. Chávez expressou que a reestatização "está em conformiodade com a doutrina de controle soberano dos recursos naturais".

O país sul-americano, no entanto, já tinha sido questionado em bloco na Organização Mundial do Comércio (OMC) por Estados Unidos, UE, Japão, México, Austrália, Israel, Coreia do Sul, Nova Zelândia, Noruega, Panamá, Suíça, Taiwan, Tailândia e Turquia. Eles expressaram na OMC suas "preocupações contínuas e crescentes sobre a natureza e a aplicação de medidas restritivas para o comércio" na Argentina.

Em meados de março, Peru, Chile, México e Colômbia também avaliavam questionar a Argentina na OMC. Seus parceiros no Mercosul — Brasil, Paraguai e Uruguai — se queixaram das medidas burocráticas de controle de importações adotadas por Buenos Aires. O governo argentino também dá fortes subsídios a setores da economia que favorecem o consumo, como transporte público e energia.

Para analistas, as pressões vão subir e a Argentina pode até sofrer represálias no G20, grupo das 20 maiores economias do planeta. Com as medidas protecionistas, o governo esperava manter o superavit comercial, que é a principal fonte de receita, diante do fechamento dos mercados financeiros desde o calote da dívida soberana, em 2001. A Argentina adotou também nos últimos anos restrições cambiais e enfrenta este ano vencimentos da dívida superiores a US$ 6 bilhões em meio à escassez de divisas.

Inglaterra Outra frente de conflito aberta é com a Grã-Bretanha, país com o qual intensificou o enfrentamento verbal em meio ao 30º aniversário da guerra pelas Malvinas de 1982. Ontem, o governo britânico criticou duramente a reestatização da YPF, em apoio à Espanha. Nesse cenário, a ministra da Indústria, Débora Giorgi, propôs a presidentes de ao menos 20 empresas que importam bens e insumos da Grã-Bretanha que substituíssem essa origem por outros mercados. O superavit comercial argentino caiu em 2011 para US$ 10 bilhões, 11% menos que em 2010, segundo o Ministério da Economia. As importações de gás e petróleo estão no caminho de serem triplicadas este ano em relação a 2010, segundo o Instituto Argentino de Petróleo.

US$ 10 bilhões

Superavit argentino em 2011