Correio braziliense, n. 20158, 31/07/2018. Mundo, p. 12

 

Depois de ameaças, Trump corteja o Irã

31/07/2018

 

 

ESTADOS UNIDOS » Ao receber o primeiro-ministro da Itália, o líder americano anuncia a disposição de se reunir com o homólogo Hassan Rouhani, sem pré-condições. Inclinação ao diálogo ocorre poucos dias após Washington recomendar cuidado ao regime de Teerã

Uma semana depois de trocar publicamente ameaças com o Irã, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu, ontem, ao dizer que está disposto a se reunir com líderes da república islâmica “quando eles quiserem” e “sem pré-condições”. A declaração, feita durante entrevista coletiva do republicano ao lado do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, é o primeiro gesto em direção ao diálogo com Teerã desde a retirada de Washington do acordo sobre o programa nuclear iraniano, em maio deste ano.

Trump abordou o assunto ao ser perguntado, durante a entrevista, se estaria disposto a conversar com o presidente iraniano, Hassan Rouhani. “Eu me encontraria com qualquer um. Eu acredito em reuniões. (…) Conversar com outras pessoas, especialmente quando você está  falando sobre os potenciais de guerra, fome, fome e muitas outras coisas... Não há nada errado em uma reunião”, disse o norte-americano. “Eu me reuniria com (dirigentes do) Irã se eles quisessem se reunir. Não sei se eles já estão prontos”, acrescentou. “É bom para o país, bom para eles, bom para nós e bom para o mundo. Sem pré-condições. Se eles quiserem se reunir, eu vou. Na hora que quiserem.” Em caso de sucesso, a ofensiva diplomática de Trump será a segunda aposta improvável de diplomacia em poucos meses: em 12 de junho passado, o magnata se encontrou com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un, em Cingapura.  Além do Irã, Trump busca estreitar laços com a Rússia, acusada de interferência nas eleições presidenciais de 2016.

Na segunda-feira da semana passada, depois de uma advertência provocadora de Rouhani de que os EUA não “brincassem com a cauda do leão” e de que políticas hostis poderiam levar à “mãe de todas as guerras”, Trump respondeu com uma mensagem atípica no Twitter. Em letras maiúsculas, o magnata disparou: “Nunca mais volte a ameaçar os Estados Unidos ou sofrerá consequências que muitos poucos sofreram ao longo da história. Não somos mais um país que suportará suas palavras dementes de violência e morte. Tenha cuidado!”, recomendou ao mandatário iraniano.

Horas mais tarde, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, replicou, também nas redes sociais: “Não estamos impressionados. Existimos há milênios e vimos a queda de impérios, incluindo o nosso, que durou mais do que a vida de alguns países. Seja prudente!”. A porta-voz da Casa Branca, Sarah Sanders, apontou, na ocasião, que a prioridade de Trump é “a segurança do povo americano” e garantir que Teerã não desenvolva armas nucleares. O pacto, negociado pelo antecessor Barack Obama, levou o regime iraniano a se comprometer a limitar as atividades atômicas em troca do alívio de sanções internacionais. Washington acusa Teerã de desempenhar um papel “desestabilizador” no Oriente Médio e apontou 12 duras condições para um novo acordo com o Irã.

Terrorismo

Ao anunciar a saída do pacto, Trump afirmou que “o Irã é o principal Estado patrocinador do terrorismo” e que nenhuma ação desse país foi mais perigosa do que sua busca por armas nucleares. Segundo o líder republicano, o acordo de 2015 deveria proteger os EUA e os seus aliados, mas permitiu a Teerã prosseguir com o enriquecimento de urânio. Trump garantiu que o Irã estaria próximo de obter armas nucleares e de lançar uma corrida armamentista no Oriente Médio — outras nações poderiam seguir o seu exemplo e buscar o arsenal de destruição em massa.

Em junho, um funcionário do Departamento de Estado americano que pediu para não ser identificado afirmou que todo o mundo deve parar de comprar petróleo do Irã antes de 4 de novembro, sob risco de se expor às sanções restabelecidas quando Washington deixou o acordo sobre o programa nuclear de Teerã. “Não concederemos isenções”, disse o funcionário à imprensa. “É uma de nossas maiores prioridades de segurança nacional”, acrescentou. “Eu não diria que haverá zero isenções de forma definitiva, mas a posição é que não concederemos isenções”.

 

Sanções contra Moscou seguem inalteradas

As sanções dos Estados Unidos à Rússia continuarão vigentes e inalteradas, disse ontem o presidente Donald Trump, duas semanas após uma polêmica cúpula em Helsinque com o líder russo, Vladimir Putin. “As sanções contra a Rússia permanecerão como estão”, disse o republicano, durante entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte. Para o premiê, “A Itália é favorável ao diálogo com a Rússia, mas também considera que o diálogo entre Washington e Moscou é fundamental para a estabilidade e a segurança global”.

 

Frase

“É bom para o país, para eles, para nós e para o mundo. Sem pré-condições. Se eles quiserem se reunir, eu vou. Na hora que quiserem se reunir, eu vou.”

Donald Trump, presidente dos EUA

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Frente populista

31/07/2018

 

 

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, trocou ontem sorrisos e elogios com o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, quando ambos demonstraram convergência em todos os temas tratados, de Rússia à imigração. Trump recebeu Conte — um populista de direita, como ele — de braços abertos na Casa Branca. “Nos damos muito bem desde o começo”, disse o presidente republicano sobre o chefe de governo da Itália, de 53 anos.

No Salão Oval, Trump declarou que era uma “grande honra” receber Conte e elogiou o líder italiano pelo “trabalho fantástico”, afirmando que eles se entenderam bem durante a recente cúpula do G7 no Canadá.

“Aplaudo o primeiro-ministro por sua liderança audaz, verdadeiramente audaz, e espero que outros mais sigam este exemplo, incluindo os líderes na Europa”, acrescentou.

Conte adotou “uma postura muito firme” acerca da imigração, afirmou Trump, que, por sua vez empregou uma política de “tolerância zero” nas fronteiras americanas — uma decisão que levou à separação de centenas de crianças de seus pais, que entraram nos EUA com a documentação irregular. “Estou muito de acordo com o que você está fazendo em relação à imigração e à imigração ilegal e, inclusive, à imigração legal”, comentou Trump, ao incitar outras nações a seguirem o seu exemplo.

Imigração

Na questão migratória, a principal bandeira de Conte é alterar as regulamentações da União Europeia (UE) que preveem que pedidos de asilo devem ser responsabilidade de um único Estado-membro —geralmente aquele por onde o refugiado chegou ao continente. A Itália argumenta que a legislação cria um peso injusto aos países na costa do Mediterrâneo.

Seu novo governo populista engrossou o tom para pressionar outro s países da UE a compartilhar a responsabilidade pelos refugiados recém-chegados. Conte fechou os portos italianos aos migrantes e rejeitou diversos navios com refugiados resgatados no mar, ameaçando o futuro dessas operações.

No setor de defesa, a Itália sublinhou que não tem chance de alcançar a meta de destinar 2% do Produto Intrerno Bruto (PIB) — e menos ainda a nova meta meta estipulada por Trump na última reunião da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), de 4%.

O premiê italiano aproveitou o encontro para promover a própria imagem e a da Itália, que há anos vive à sombra de outros países europeus. Ao descrever o “convite especial” de Trump como uma grande honra, ele explicou que Roma deseja se tornar um “interlocutor privilegiado” de Washington. A imprensa italiana avaliou que a reunião na Casa Branca vai impulsionar Conte, que costuma ficar à sombra do seu vice-primeiro-ministro e dos líderes dos partidos: Matteo Salvini, da Liga, e Luigi Di Maio, do M5E.