Correio braziliense, n. 20153, 26/07/2018. Política, p. 3
Magistrados rebatem Ciro
26/07/2018
As declarações do candidato à Presidência do PDT nas eleições 2018, Ciro Gomes, de que é necessário “restaurar a autoridade do poder político”, fazendo com que juízes e o Ministério Público voltassem para suas “caixinhas”, foi criticada por juristas. Para eles, a postura do pedetista põe em risco a independência do Judiciário.
“Isso faz parte da reação de parte da política ao trabalho de juízes independentes. O mundo político precisa entender que o país precisa e quer trilhar outro caminho”, avalia Fausto De Sanctis, desembargador do Tribunal Regional Federal da 3ª Região. Em entrevista concedida ao programa Resenha, da TV Difusora, no Maranhão, no último dia 16, o candidato do PDT afirmou que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, condenado e preso na Operação Lava-Jato, só teria chance de sair da cadeia se ele (Ciro) fosse eleito.
“Só tem chance de sair da cadeia se a gente assumir o poder e organizar a carga. Botar juiz para voltar para a caixinha dele, botar o Ministério Público para voltar para a caixinha dele e restaurar a autoridade do poder político”, afirmou Ciro. Ele tentava explicar a estratégia do PT em insistir na candidatura de Lula — mesmo após a condenação em segunda instância da Justiça e prisão. “Se ele fizer isso, ele segue o caminho da Venezuela e de outros países totalitários. Mas parto da hipótese que o Brasil já escolheu a via democrática”, disse a economista Maria Cristina Pinotti.
No Pará, em evento da pré-campanha, Ciro afirmou ontem que as declarações foram tiradas de contexto para gerar intrigas. “Quando eu disse a gente, eu não quis dizer eu. Quis dizer os democratas, os que têm compromisso com o Estado democrático de direito, com o restabelecimento da autoridade, do império da lei que, no Brasil, parece estar completamente deformada.”
Segundo ele, o termo “caixinha” foi uma figura de linguagem usada para explicar que Judiciário e Ministério Público “não podem se meter em tudo”. “Isso é uma expressão que todo mundo conhece. Só a fraude tenta fazer esse tipo de intriga. No Brasil, está cada um trabalhando fora da sua caixa”, disse o candidato.
Ciro defendeu, ainda, a necessidade de restaurar “o império da lei”. “O Judiciário julga, o Legislativo legisla e o Executivo executa. Não é possível que o Judiciário queira executar. (Não é possível) que no Brasil cada prefeito esteja subordinado ao constrangimento, à humilhação de um jovem membro do Ministério Público que, ainda que de boa-fé, deforme reputações, se meta onde não deve. O país não aguenta mais essa baderna”, declarou pouco antes de subir ao palanque.