O globo, n. 30968, 21/05/2018. País, p. 4

 

MP apura caixa dois da CCR para Alckmin

Dimitrius Dantas

21/05/2018

 

 

Executivos da empresa dizem ter feito pagamento de R$ 5 milhões

-SÃO PAULO- Segundo executivos da concessionária CCR, a campanha do ex-governador de São Paulo Geraldo Alckmin ao Palácio dos Bandeirantes, em 2010, recebeu dinheiro de caixa dois da companhia. Em relatos ao Ministério Público (MP) de São Paulo, funcionários da empresa confirmaram ter feito um pagamento de R$ 5 milhões por meio de doações ilegais ao tucano.

Os valores teriam sido intermediados pelo empresário Adhemar Ribeiro, cunhado do exgovernador e presidenciável tucano. Os relatos foram revelados ontem pelo jornal “Folha de S. Paulo” e confirmados pelo GLOBO. O próximo passo, após a admissão pelos executivos da CCR de pagamentos de caixa dois, é a negociação de um acordo formal de colaboração com as autoridades.

O ex-governador já é investigado por improbidade administrativa em outro procedimento do MP sobre pagamentos de caixa dois da Odebrecht também feitos à sua campanha de 2010.

A suspeita sobre a CCR é investigada em inquérito no qual o MP analisa o teor da delação do operador Adir Assad. Na sua colaboração, ele afirmou ter intermediado R$ 45 milhões para a CCR por meio de diversas concessionárias de rodovias controladas pela companhia.

Em nota, Alckmin afirmou que não tem conhecimento de qualquer denúncia relacionada e que os pagamentos não existiram. Além disso, reafirmou que continua disposto a prestar os esclarecimentos necessários e destacou que tal investigação está no âmbito do MP estadual, e não no Ministério Público Eleitoral

A investigação em relação aos pagamentos feitos pela Odebrecht, que corriam no Superior Tribunal de Justiça (STJ), foram enviadas à Justiça Eleitoral após o tucano deixar o cargo de governador e perder direito ao foro privilegiado.

Em fevereiro, O GLOBO revelou que o ex-diretor da Dersa Paulo Vieira de Souza, conhecido como Paulo Preto, teria recebido comissões de Adir Assad. Paulo Preto teria sido o responsável por indicar o operador para a CCR. A defesa do ex-diretor negou qualquer envolvimento no esquema delatado e também refutou qualquer relação com o operador.

Assad é considerado um dos principais operadores do mercado paralelo e era usado pelas empresas para a geração de valores em espécie. Em sua delação, contou ter feito diversas entregas de dinheiro em espécie nas sedes da CCR.

“Fez nas datas de, pelo menos, 24 de janeiro de 2012 e 2 de fevereiro de 2012 duas entregas de R$ 200 mil cada, entregues a um diretor da CCR no escritório da empresa em Botafogo, no Rio”, afirmou Assad em sua delação.

 

CCR DIZ QUE VAI INVESTIGAR

Por ser uma concessionária, a CCR, que é controlada pelas empreiteiras Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa, não podia fazer doações eleitorais.

Na semana passada, o Ministério Público de São Paulo abriu três inquéritos para investigar atos de corrupção delatados pela Andrade Gutierrez, incluindo a corrupção de agentes públicos na obra da Rodovia Carvalho Pinto.

Em nota, a CCR afirmou que está à inteira disposição para contribuir com o esclarecimento dos fatos e formou um comitê independente responsável por apurar os valores repassados a Assad, e que “continua a trabalhar em seu plano de crescimento qualificado, tendo como premissas a disciplina de capital, ética e transparência.”