O globo, n. 30973, 26/05/2018. País, p. 6
Para se defender, Moro recorre a fotos de Lula com Aécio e Geddel
Dimitrius Dantas
26/05/2018
Defesa do petista acusou juiz de ser parcial por posar com Doria
Acusado pela defesa do expresidente Luiz Inácio Lula da Silva de não ser imparcial para julgá-lo por posar ao lado do tucano João Doria durante um evento em Nova York, no último dia 15, o juiz Sergio Moro recorreu a duas fotos de Lula, com o senador Aécio Neves e o ex-ministro Geddel Vieira Lima, para se defender. Em despacho publicado ontem, Moro afirmou que uma foto em evento social “nada significa além de que as pessoas ali presentes tiraram uma fotografia”.
Após um jantar que o homenageou, o juiz foi fotografado ao lado de Doria, précandidato do PSDB ao governo de São Paulo. O magistrado disse não ter agido para promover o tucano eleitoralmente e destacou não ter citado o nome do ex-prefeito no discurso ou na palestra. Doria, no entanto, publicou duas imagens suas com Moro em seus perfis nas redes sociais.
Para refutar a acusação de que seria parcial para julgar Lula após a fotografia com Doria, Moro lembrou que o petista já apareceu em fotos com o senador Aécio Neves (PSDB-MG) e com o ex-ministro Geddel Vieira Lima, preso atualmente em Brasília. De acordo com o juiz, as fotos não significam que Lula e Aécio tenham se tornado aliados políticos ou que o ex-presidente e Geddel foram cúmplices na atividade criminal que levou o ex-ministro à prisão.
O magistrado também foi homenageado pelo Lide, grupo de líderes empresariais criado pelo ex-prefeito de São Paulo. Doria se licenciou do comando da empresa antes de assumir a prefeitura. Para justificar o evento com o grupo ligado ao ex-prefeito, Moro lembrou que dois membros da diretoria do Lide foram ministros do governo Lula.
“Seria de fato melhor para qualquer juiz evitar fotos com quaisquer agentes políticos, independentemente de seu mérito, a fim de evitar interpretações equivocadas ou incidentes processuais infundados, mas, em eventos públicos ou sociais, fotografias podem ser tiradas”, escreveu Moro, que chamou a dúvida da defesa de Lula sobre sua suspeição de “fantasmas da mente”.
Moro já se envolvera em polêmica semelhante em 2016, quando foi fotografado conversando e sorrindo com Aécio em premiação da revista “Isto É”. Pouco depois da repercussão da imagem, admitiu que a foto foi infeliz, mas alegou que se tratava de um evento público e que Aécio não estava sob investigação em Curitiba.
Para os advogados de Lula, a participação de Moro no evento do Lide reforça um posicionamento político do juiz “antagônico” ao do ex-presidente. Os advogados podem recorrer ao Tribunal Regional Federal da 4ª Região.
_____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Dodge avalia rescindir delação de Delcídio
André de Souza
26/05/2018
Procuradora-geral questiona se houve má-fé do ex-senador ao omitir fatos
A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, cogita rever a delação do senador cassado Delcídio Amaral. Na avaliação dela, Delcídio demorou para trazer informações sobre suposta propina paga pela Odebrecht em Mato Grosso do Sul e Mato Grosso, beneficiando os ex-governadores Zeca do PT e Blairo Maggi (PP), que hoje são respectivamente deputado federal e governador.
Dodge pediu que as declarações de Delcídio sejam anexadas a um processo em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) e “nova vista dos autos para análise quanto à viabilidade de abertura de processo de revisão da presente colaboração premiada”.
De acordo com a procuradora-geral, “a demora do colaborador em trazer os fatos ao conhecimento do Ministério Público Federal merece detida apuração, para que seja averiguada se houve má-fé na omissão, com violação do disposto na Cláusula 40ª e do acordo de colaboração premiada”.
Esse item diz que o acordo perderá efeito e será rescindido “se ficar provado que, após a celebração do acordo, o colaborador sonegou, adulterou, destruiu ou suprimiu provas que tinha em seu poder ou sob sua disponibilidade”.
O GLOBO não conseguiu entrar em contato com o advogado Antonio Figueiredo Basto, que defende Delcídio, para comentar o parecer da procuradora-geral. Segundo Dodge, o exsenador declarou que “deixou de esclarecer tais fatos durante a fase de colaboração premiada, devido à dificuldade de encontrar informações que corroborassem suas declarações”.
DECISÃO FINAL CABE A FACHIN
O acordo de Delcídio foi homologado em março de 2016 pelo ministro Teori Zavascki, antigo relator da Lava-Jato no STF, morto em janeiro de 2017. Em outubro de 2017, mais de um ano e meio depois, ele prestou um novo depoimento, narrando a suposta propina paga a Zeca do PT e a Blairo Maggi pela Odebrecht durante a campanha eleitoral de 2006. Delcídio relatou, por exemplo, o pagamento de R$ 400 mil a diversos agentes políticos, entre eles Zeca do PT.
O documento de Dodge é de 22 de maio e foi protocolado no STF no dia seguinte. Se ela realmente opinar pela rescisão do acordo, a decisão final será do ministro Edson Fachin, que substituiu Teori.