Título: Tecnologia de ponta alavanca a pecuária
Autor: Temoteo, Antonio; Amorim, Diego
Fonte: Correio Braziliense, 30/04/2012, Cidades, p. 17
Conhecido nacionalmente como polo de produção de grãos, o Distrito Federal começa a investir em tecnologias para ganhar espaço no mercado de leite e carne. Criadores locais têm recorrido a processos de recuperação de nutrientes do solo — desenvolvidos por agricultores — com o intuito de elevar a qualidade das pastagens e melhorar a alimentação dos animais. Apesar de possuírem rebanhos modestos e fazendas pequenas, os pecuaristas da região se destacam por usar técnicas de seleção genética para alavancar a produtividade.
O presidente do Sindicato dos Criadores de Bovinos, Bubalinos e Equídeos do DF (SCDF), Geraldo Borges, explica que entre os procedimentos utilizados estão a inseminação artificial, a transferência de embriões e o melhoramento genético. "Até a clonagem é feita", detalha. De acordo com Borges, apesar dos avanços tecnológicos, a maioria absoluta da carne e do leite consumida pelos brasilienses é importada de outros estados, como Minas Gerais, Goiás, Pará e Mato Grosso.
Dados da Secretaria de Agricultura e Desenvolvimento Rural do DF indicam que o rebanho bovino local é de 98.370 animais. Desse total, foram produzidos 396 milhões de litros de leite e 4.799 toneladas de carne. Levando-se em conta o consumo médio do brasileiro — equivalente a 40kg de carne bovina por ano —, a produção local atenderia apenas a 20% da demanda. "Para melhorar esse cenário, o governo precisa incentivar o confinamento e fortalecer a bacia leiteira existente no DF", afirma Borges.
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Oportunidades Ainda que os desafios para impulsionar o setor sejam enormes, o pecuarista e agrônomo André Luiz Gontijo, 38 anos, enxerga oportunidades na atividade. Natural de Formosa (GO), Gontijo comanda duas fazendas com um total de 830 hectares e possui 1,4 mil bois para produção de carne. Com o objetivo de aumentar a qualidade das pastagens, ele investe em técnicas de correção do solo para diminuir a acidez e melhorar o processo de enraizamento do capim. "Na mesma área, consigo dobrar o número de animais com investimento em tecnologia. E, nos períodos de seca, o animal não perde tanto peso. Quem não recorrer a esses métodos não vai prosperar", comenta.
A utilização desses procedimentos já começa a render frutos. Entre dezembro e março, período de menor oferta de carne, Gontijo abateu 400 bois e vendeu 6 mil arrobas — o equivalente a 88,1 toneladas. Esse negócio rendeu ao pecuarista R$ 522 mil, dos quais 85% foram reinvestidos na compra de novos animais. A outra parte do dinheiro é usada com despesas fixas. "Com a boa nutrição, diminuo o tempo que o boi leva para atingir o peso ideal. E a nossa produção vai para pequenos frigoríficos em Planaltina, Luziânia e Formosa", diz.
O secretário de Agricultura e Desenvolvimento Rural do DF, Lúcio Valadão, também destaca a força da avicultura e da suinocultura na região, além da presença de criadores que trabalham com o desenvolvimento genético de animais. Ainda há muito espaço para crescimento, avalia ele, na área de pecuária bovina, sobretudo no processamento de leite. "Podemos, com a ajuda de órgãos como a Emater e a Embrapa, intensificar a produção mesmo em pequenas áreas, recuperando pastagens e melhorando a genética do rebanho", avalia.
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Cooperativas A modernização das pastagens nos últimos anos, acompanhada do aumento da produtividade, deu segurança à Cooperativa Agropecuária de São Sebastião (Copas) — uma das maiores e mais bem estruturadas do DF — para disputar espaço no mercado. Criado em 2000, o grupo reúne hoje cerca de 220 criadores da região e ainda depende de programas do governo para comercializar a maior parte dos produtos (leite, queijo e bebidas lácteas). A meta, daqui para frente, é ampliar a área de atuação. "Já estamos competindo com as grandes empresas do ramo. Temos qualidade e vamos avançar ainda mais", sustenta o presidente, Luiz de França Torres.
Por dia, a Copas processa 10,5 mil litros de leite. Desses, 6 mil são recolhidos em pastagens do DF, e o restante em propriedades do Entorno, principalmente em Luziânia (GO). Até o fim deste ano, a média deve subir para 20 mil e, em 2014, para 25 mil litros — quantidade considerada bastante elevada, uma vez que a maioria dos cooperados são pequenos criadores. O moderno sistema de pasteurização está instalado na BR 251, na altura do Km 41, próximo a São Sebastião, em sede construída em terreno do governo cedido à cooperativa. A Copas emprega 23 funcionários.