O globo, n. 30959, 12/05/2018. País, p. 3

 

‘Geisel passou a se responsabilizar pela repressão’

Matias Spektor

Leandro Loyola

12/05/2018

 

 

Responsável por encontrar o documento da CIA que liga a política de execução de opositores da ditadura ao Palácio do Planalto, o pesquisador Matias Spektor diz que o então presidente Ernesto Geisel chegou ao poder e chamou para si a responsabilidade da repressão para poder fazer a abertura

Professor do curso de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas e pesquisador irrequieto, Matias Spektor encontrou por acaso, na quinta-feira, o documento de enorme valor histórico, que coloca a condução de tortura e morte de opositores durante a ditadura militar no gabinete presidencial. Spektor olhava documentos liberados pela CIA em 2015, e que estão disponíveis on-line, quando se deparou com o relatório do chefe da agência, William Colby, para o então secretário de Estado, Henry Kissinger. Em um texto conciso, ficam expostas as tratativas entre o presidente Ernesto Geisel e três de seus generais de centralizar no Palácio do Planalto as decisões sobre as execuções.

— O que o Geisel faz é chamar para si a responsabilidade (da repressão) — afirma. O que é mais importante no documento que o senhor encontrou?

A coisa mais importante deste documento é que temos uma evidência empírica no mais alto nível, da agência de inteligência norte-americana, implicando três presidentes da ditadura militar na política não só de repressão à guerrilha no Araguaia, ou à guerrilha urbana, mas também à política de execuções sumárias de gente presa sob o resguardo do Estado brasileiro, gente desarmada. Ali está a segunda evidência de que o presidente Ernesto Geisel não só compactuava, como ordenou a continuidade de uma política de assassinatos.

Isso muda o modo de a historiografia enxergar Geisel?

Eu acho que ilustra, com nova evidência, aquilo que o (jornalista) Elio Gaspari já mostrou: que o Geisel, apesar de ser o presidente da abertura, também reprimia. Isso não é novo. Isso está no Gaspari (no livro “A Ditadura Derrotada”, de 2003). O ponto que confunde muito as pessoas é a ideia falsa de que a abertura é o oposto de repressão — e não é. Você pode ter abertura com repressão.

O documento muda o que se sabia sobre o presidente João Figueiredo, um personagem pouco estudado?

Ele é pouco explorado. O que mostra é o papel que o Figueiredo tinha, desde o início do governo (Geisel), de concentrar no Palácio do Planalto essas decisões. Isso é importante por quê? Porque quando Geisel chega ao poder, ele está entre a cruz e a espada. Se ele não reprimir, a linha dura vai continuar matando, derrubando a legitimidade e a força do presidente. (Geisel é) um presidente que não tem a legitimidade dos votos, ele depende do apoio da caserna para governar. Mas se ele continua reprimindo no mesmo nível, ele não consegue fazer a abertura. Então, o que o Geisel faz é chamar para si a responsabilidade (da repressão), para poder abrir, mesmo que essa abertura seja de cunho repressor. O Figueiredo, no documento, aparece como o implementador dessa política.

Qual a importância deste informe ter sido enviado pelo diretor da CIA, William Colby, diretamente ao secretário de Estado, Henry Kissinger?

É de importância absoluta. É um documento sobre uma conversa reservada na cúpula mais alta do regime, que é informada pela cúpula mais alta da CIA ao secretário de Estado dos Estados Unidos. Sendo que, no momento em que o Kissinger recebe esta informação, a política dele de aproximação com o Brasil já está em andamento há muito tempo. A política de aproximação do Kissinger ao Brasil começa no governo Médici: é quando Médici vai aos Estados Unidos, e o (presidente americano Richard) Nixon fala: “Para onde for o Brasil, irá o resto da América Latina”.

Neste momento, Kissinger está particularmente interessado em algo no Brasil?

Sim. Neste momento toda a América do Sul enfrentava níveis grandes de instabilidade. Tinha acabado de ocorrer o golpe de Estado contra Salvador Allende no Chile (que instaurou a ditadura de Augusto Pinochet, apoiado pelos Estados Unidos), e a preocupação do Kissinger era fortalecer o Brasil, para que o país pudesse cumprir uma função de organizador do espaço sul-americano numa chave autoritária. Ou seja: o Kissinger usa o Brasil para lutar a guerra fria na América do Sul.

Neste contexto, os métodos “extra-legais” de repressão aos “subversivos” eram fundamentais para o Kissinger saber que o Brasil estava cumprindo este papel? Exatamente. A atitude do Kissinger, que a gente sabe graças aos documentos já abertos, é sempre a de dizer para os regimes autoritários sul-americanos: “Façam o que precisam fazer, mas façam rápido”.

Qual a importância de saber que o presidente da República não só aquiesceu, mas ordenou uma política secreta de assassinato de opositores?

É de enorme importância para a historiografia brasileira. A gente já sabia que no regime militar houve assassinato de opositores, mas ler isso num documento nesse nível de detalhe — a referência a 104 pessoas mortas pelo CIE no último ano e pouco do governo Médici, ou seja, em 1973 — deixa qualquer um muito assustado a respeito de um período recente da história brasileira. É uma anomalia gigantesca.

Por que o senhor disse que o documento é perturbador?

Porque mostra que a liderança política no Palácio do Planalto estava tomando decisões sobre a vida e a morte de cidadãos.

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Jungmann diz que revelação não abala ‘prestígio’ do Exército

12/05/2018

 

 

Pré-candidatos à Presidência condenam teor do documento; Bolsonaro questiona veracidade

O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse ontem que a divulgação do documento da CIA revelando que o expresidente Ernesto Geisel deu aval a execução sumária de oposicionistas considerados “subversivos” não abala o “prestígio” do Exército brasileiro.

— Eu acredito que (o prestígio) se encontra nos mesmos níveis. Por uma razão muito simples: as Forças Armadas são um ativo democrático do país — disse Jungmann, ao lado de generais.

O ministro foi o único nome do governo a se manifestar publicamente. O Palácio do Planalto adotou a cautela: interlocutores do presidente Michel Temer consideram prematuro qualquer posicionamento antes que mais informações venham à tona.

Os pré-candidatos à Presidência, em maioria, condenaram o teor das revelações. Marina Silva (Rede) classificou, em nota, as informações de “assombrosas e repugnantes”. Segundo ela, este processo deve ser uma “etapa necessária para passar a história do Brasil a limpo”. Também em nota, Ciro Gomes (PDT) afirmou que é preciso “resistir aos extremismos”. O presidenciável disse que as revelações são “graves” e devem “jogar luz sobre um período” que não pode ser esquecido.

O presidente da Câmara dos Deputados e précandidato do DEM, Rodrigo Maia, considerou “estarrecedor” o conteúdo do memorando da CIA.

— Que durante a ditadura ocorreram centenas de mortes e torturas, eram fatos de amplo conhecimento público. Mas que esses fatos tivessem sido respaldados pelos próprios presidentes, isso é estarrecedor — disse Maia.

A pré-candidata do PCdoB, Manuela D'Ávila, acrescentou que a divulgação do documento comprova que houve uma política de extermínio:

— Continuamos buscando a verdade e honrar a memória dos que foram covardemente assassinados — afirmou Manuela.

Para o pré-candidato do PSOL, Guilherme Boulos, ficou claro que torturas não eram fatos isolados.

— Tinham a bênção do centro do poder da ditadura militar no Brasil — disse.

O pré-candidato do PMDB, Henrique Meirelles, disse que “é inaceitável que isto tenha ocorrido no Brasil”.

Já o deputado Jair Bolsonaro, pré-candidato do PSL, desqualificou o documento.

— Quantas vezes você falou ali num canto que tem que matar mesmo, tem que bater, tem que dar canelada. Talvez esse cara (autor) tenha ouvido uma conversa como essa, fez o relatório e mandou. Agora, cadê os 104 mortos? — questionou, em entrevista a uma rádio de Minas Gerais. Geraldo Alckmin (PSDB) não se manifestou. O presidente da OAB-RJ, Felipe Santa Cruz, disse que o memorando da CIA permitiu a ele conhecer “os mandantes do assassinato” do seu pai, Fernando Santa Cruz, desaparecido em 1974.

— São dois presidentes envolvidos. O documento que mostra que o sucessor do Geisel decidia individualmente quem morreria — afirmou, em referência ao general João Figueiredo, citado no relatório.

O filho do jornalista Vladimir Herzog, assassinado na cadeia durante a ditadura, pediu ao Ministério das Relações Exteriores que solicite ao governo dos Estados Unidos a liberação de todos os documentos da CIA que “tratam da participação de agentes do Estado brasileiro em operações para torturar ou assassinar cidadãos brasileiros”.