O globo, n. 30987, 09/06/2018. País, p. 4

 

Em viagem, Ciro admite incluir DEM e PP em aliança

Janaína Figueiredo e Bruno Góes

09/06/2018

 

 

Pedetista diz que há espaço para acordo, caso feche antes com PSB

O pré-candidato à Presidência do PDT, Ciro Gomes, admitiu ontem que pode incluir partidos como o DEM e o PP em uma aliança para a disputa pelo Planalto. Antes de uma palestra, na Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA), o presidenciável disse, contudo, que sua prioridade é liderar “uma ampla aliança de centro-esquerda”, fechando acordo antes com PSB e PCdoB que garanta “a hegemonia moral e intelectual” de uma eventual frente eleitoral.

Bem humorado e arriscando que na próxima pesquisa do Datafolha poderia ficar entre 10% e 12% das intenções de voto, Ciro evitou fazer comentários sobre o lançamento da candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para evitar ser criticado “pela burocracia do PT”. Perguntado sobre possíveis cenários, reiterou que se vê disputando o segundo turno com o tucano Geraldo Alckmin, já que “no meu cálculo, doído que seja, Lula não será candidato”.

— O que está em discussão não é a sorte do PT e sim do Brasil. Não podemos correr o risco de ver um golpe de Estado e as forças que o praticaram serem legitimadas pelo voto popular — declarou o pré-candidato, defendendo a necessidade de incluir a maior quantidade de partidos possíveis na aliança que está formando.

O pré-candidato foi recebido ontem pela vice-presidente da Argentina, Gabriela Michetti, já que o presidente Mauricio Macri viajou para o Canadá, onde participará de um encontro do G-7. Ciro também se reuniu com empresários e produtores agropecuários. No dia em que o PT lançou oficialmente a candidatura de Lula, a pergunta foi inevitável para Ciro, partindo até mesmo de jornalistas argentinos.

Embora esteja concentrando esforços para consolidar uma aliança de centroesquerda, Ciro não descartou uma eventual aproximação com DEM e PP.

— Quizás (quiçá em espanhol) tudo… nesse primeiro momento minha prioridade são PSB e PCdoB. Se esta aliança for fechada, posso avançar em partidos do centro à direita, porque a hegemonia moral e intelectual do rumo estará afirmada. Poderia incluir o PP e o DEM, desde que eu tenha o PSB e o PCdoB — afirmou.

A aproximação de Ciro com o DEM encontra eco dentro do partido do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (RJ), que se apresenta como pré-candidato à Presidência. Maia, inclusive, vai lançar hoje, no Rio, seu programa de governo. Integrantes do DEM consideram plausível um acordo com o PDT e trabalha ainda para testar a viabilidade de Josué Gomes (PR), filho do ex-presidente José Alencar. Apoiado por aliados do próprio Maia, o chefe do PR, Valdemar Costa Neto, encomendou uma pesquisa qualitativa para avaliar o nome do presidente da Coteminas. Se o empresário mineiro não for bem nas pesquisas, o DEM poderá apoiar Ciro Gomes (PDT) ou Geraldo Alckmin (PSDB).

 

PREPARATIVOS PARA ABANDONO

O sepultamento da candidatura de Maia já está sendo preparado há dias. O anúncio da desistência, segundo aliados, deve ser feito na primeira semana de julho. Nos últimos dias, políticos especularam sobre uma possível aliança de Maia com Ciro.

— É exagerado dizer há uma marcha do DEM em direção ao Ciro. Por enquanto, estamos com cautela. Precisamos de tempo para ver o que vai acontecer. Pode ser que o Ciro xingue alguém na rua ou que o Paulo Preto fale alguma coisa sobre Alckmin. Então, vamos esperar mais um pouco — diz o integrante da cúpula do DEM.

O levantamento do PR, focado em Josué, será feito em quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia. A partir do resultado, que será recebido no dia 21 de junho, as opções serão debatidas.

O DEM espera que Valdemar compartilhe o resultado da pesquisa para que tome uma decisão. Mesmo que o resultado indique pouca possibilidade de sucesso para o empresário mineiro ser o cabeça de chapa, a análise pode contribuir para que haja um diagnóstico sobre o empresário como vice em uma eventual candidatura apoiada pelo grupo.

Caso o DEM resolva fechar com Ciro, PR e PRB teriam mais dificuldades para embarcar na aliança. Hoje, o partido do presidente da Câmara tem uma interlocução mais firme com PP e Solidariedade.

A grande dificuldade de partidos de centro em relação a Alckmin é seu fraco desempenho em pesquisas eleitorais.

Oficialmente, Rodrigo Maia diz que não desistiu da candidatura. Mas, a aliados, afirma que já tem consciência de que não tem chance de ser o candidato.