Correio braziliense, n. 20129, 02/07/2018. Política, p. 2

 

PT deve acelerar escolha de Haddad

Bernardo Bittar e Antonio Temóteo

02/07/2018

 

 

ELEIÇÕES 2018 » Cresce a pressão de lideranças petistas para que o ex-prefeito de São Paulo seja designado pré-candidato do partido à Presidência. Ele passa a integrar a equipe de advogados de Lula, o que permitirá acesso livre ao mentor político preso

A insistência do PT com a candidatura do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso e impedido de concorrer pela Lei da Ficha Limpa, parece ter chegado ao fim. Movimentos internos no partido indicam que o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad poderá viabilizar-se como pré-candidato da legenda à Presidência da República em breve. Haddad foi convocado para detalhar o plano de governo do PT, que será apresentado durante a campanha e mantido caso Lula seja impedido pela Justiça de participar do pleito.

As diretrizes do plano de governo permanecem em sigilo pela cúpula do partido, mas assessores informaram ao Correio que as grandes preocupações do PT são segurança e economia. A oficialização da candidatura de Haddad, vista como certa, só será feita depois de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarar Lula inelegível. Contudo, o ex-prefeito já aparece em pesquisas de intenção de voto, como a divulgada semana passada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Ibope. No levantamento, Lula tem 33% e, em um cenário sem ele, Haddad registra 2%.

Lula está cada vez mais próximo de Haddad e já detalhou a ele suas ideias. Para facilitar a conversa, o ex-presidente decidiu que Haddad passará a integrar a equipe de advogados que irá representá-lo junto ao TSE. O ex-prefeito é formado em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), mas o objetivo está longe de ser aproveitar o seu conhecimento jurídico. A principal vantagem é que, graças ao fato de ser advogado de Lula, Haddad passa a ter o direito de visitar Lula todos os dias na sede da Polícia Federal em Curitiba, e pode receber orientação constante do mentor.

Levantamentos apontam que o nome de Haddad seria o mais palatável neste momento de radicalização. O ex-prefeito é visto como conciliador, com trânsito até mesmo na ala do PSDB liderada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Há quem fale, inclusive, que PT e PSDB estão fechados, atuando nos bastidores por um acordo político para conter movimentos externos.

Para fortalecer Haddad e sinalizar que ele será o candidato do PT, Lula também escolheu o pupilo para ser o interlocutor do partido junto às Forças Armadas. Foi Haddad quem conversou com o general Eduardo Villas Bôas dentro da proposta dos militares de ouvirem os pré-candidatos. A princípio, esse papel caberia a Jaques Wagner, ex-ministro da Defesa,  que circula com desenvoltura na caserna.

Há pressa dentro do PT para que o candidato do partido ao Palácio do Planalto seja definido logo, uma vez que os pré-candidatos estão mostrando a cara todos os dias, enquanto o partido perde tempo batendo o pé por Lula. Mas os petistas reconhecem que não podem abandonar o ex-presidente, uma vez que, até o posicionamento oficial do TSE, ele será o candidato oficial à Presidência da República.

A ideia é fazer com que Lula continue em alta, com força suficiente para transferir seus votos a Haddad. Em todas as pesquisas de intenção de votos, Lula aparece na liderança, quando citado. O partido também acredita que Haddad atrairá a atenção dos eleitores que dizem que anularão os votos ou votarão em branco.

Oficialmente, a legenda não confirma a candidatura de Haddad. Caciques petistas afirmam que a ideia de colocar os dois em contato surgiu apenas porque o ex-prefeito coordena o plano de governo petista. Em 15 de agosto,  Lula será registrado, segundo a assessoria de imprensa do ex-presidente. A equipe de Haddad, por sua vez, diz que a possibilidade de substituição sempre existe. “Todo padre quer ser papa. Existe a possibilidade? Sim. Mas nosso candidato é o presidente Lula”, afirma um petista próximo a Haddad que prefere não ser identificado.

Outro líder do partido que participou dos governos de Lula e Dilma detalha que Haddad tem ganhado cada vez mais força dentro do partido. Entretanto, ele relembra que os nomes da senadora Gleisi Hoffmann (PR) e de JaquesWagner ainda estão no páreo para substituir Lula nas urnas. Gleisi segue assombrada pela Lava-Jato, embora tenha ganhado fôlego após ser inocentada pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Caso não seja escolhida para disputar as eleições presidenciais, ela deve tentar uma vaga na Câmara dos Deputados.

Wagner, por outro lado, não quer ser candidato à Presidência de República. Pesquisas do partido na Bahia dão como certa a eleição do ex-governador ao Senado Federal. Entretanto, ele aguarda as bênçãos de Lula para disputar uma das vagas na Casa. “No fim das contas, quem vai decidir é o partido. E o partido é Lula”, afirma um petista graduado.

Necessidade

O professor de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense (UFF-RJ) Augusto Mendonça afirmou que a movimentação do PT é, além de esperada, muito necessária.  “Eles precisam parar de perder tempo com essa luta para colocar o nome do Lula em uma coisa que não tem razão de ser. Se você sabe que algo é proibido, e não terá permissão para continuar, é melhor deixar de lado.”

Mendonça se lembra da necessidade de alianças e explica que um candidato preso dificultaria muito as eleições, ainda que ele esteja na frente. “Você precisa de tempo e espaço para conseguir fechar os acordos necessários para uma disputa presidencial. Enquanto isso, os outros pré-candidatos estão aí tentando costurar apoio entre si e atacando seus adversários, o que inclui o Lula. Na minha opinião, ele tem de passar logo essa bola”, assinala.

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A busca pela informação

Leonardo Cavalcanti

02/07/2018

 

 

Ao longo de três dias, repórteres, editores, estudantes, professores e curiosos — de todos os cantos do país e do mundo — estiveram reunidos em São Paulo em busca da melhor informação. Uma das maneiras de fazer jornalismo é pensar e repensar o próprio ofício. No meio do pântano das notícias falsas capazes de interferir na democracia, a necessidade de proteger o bom caminho da reportagem é uma missão, quase uma profissão de fé.

O décimo terceiro Congresso Internacional de Jornalismo foi encerrado no fim da tarde do último sábado por Stephen Engelberg, ex-editor do The New York Times e atualmente editor-chefe da ProPublica. Organizado pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), o encontro em São Paulo teve mais de 70 palestras, painéis e cursos práticos sobre o ofício da reportagem. A equipe deste Correio apresentou uma série de publicações sobre o lobby das armas no Brasil, que descortinou como os grupos de pressão apoiam eleitoralmente parlamentares do Congresso e recebem em troca a baixa regulação do mercado por parte da burocracia.

Lava-Jato

Pelo menos duas palestras trataram sobre os erros e os acertos da cobertura da Lava-Jato. A primeira e mais óbvia das constatações é que, por uma série de motivos, a imprensa ficou refém das apurações do Ministério Público e da Polícia Federal. Jornalismo investigativo está longe de ser um mero divulgador de informações de órgãos oficiais, o que ocorreu na grande maioria das matérias da Lava-Jato. Chegar a tal conclusão depois de quase cinco anos da operação é pensar jornalismo, na tentativa de aprimorá-lo, inclusive com a ajuda da academia, como é o caso do tema de estudos do professor Solano Nascimento, da UnB, que desenvolve pesquisas separando jornalismo investigativo do jornalismo sobre investigações.

No debate binário que se estabeleceu no Brasil, o simples questionamento sobre a cobertura jornalística da Lava-Jato leva interlocutores mais rasos a raciocínios ainda mais estúpidos, como se o fato de tentar elencar erros no trabalho da reportagem fosse uma defesa da corrupção. A discussão é outra, senhoras e senhores — trata-se de trazer a melhor informação para o público. E isso significa, por parte dos profissionais da imprensa, pensar sobre o próprio ofício e aprimorar as tarefas no cotidiano. Até porque esse trabalho é dos jornalistas — procuradores ou policiais não estão, e nem devem, preocupados com isso. Eles têm os próprios erros e acertos, que também devem ser debatidos, inclusive pelo número de condenações em última instância efetivadas.

Tal busca, pela parte da imprensa, foi o mote do encontro de jornalismo em São Paulo. É assim que deve ser, sempre.