Correio braziliense, n. 20132, 05/07/2018. Política, p. 4
Ciro e Bolsonaro entre dois polos
Bernardo Bittar e Deborah Fortuna
05/07/2018
ELEIÇÕES 2018 » Em debate promovido pelo PIB industrial, pedetista criticou a reforma trabalhista e acabou vaiado. O deputado do PSL e ex-militar, por sua vez, foi aplaudido 10 vezes e disparou comentários jocosos sobre minorias, citando gays e negros
Em sabatina promovida pela elite industrial do país, a polarização entre dois candidatos ao Planalto ficou evidente. Enquanto Jair Bolsonaro (PSL) foi efusivamente aplaudido pela plateia, Ciro Gomes (PDT) acabou vaiado ao criticar a reforma trabalhista. O deputado fluminense disparou comentários jocosos sobre minorias, citando gays e negros — também exaltou os militares, enquanto o ex-governador do Ceará defendeu reivindicações dos sindicatos para uma audiência que, aparentemente, não se interessou por elas. O “Diálogo da Indústria com os Candidatos à Presidência da República” foi promovido ontem pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Em mais um discurso controverso, Bolsonaro falou sobre a presença de militares no primeiro escalão em um eventual governo comandado por ele. “Vou botar alguns generais nos ministérios, caso eu chegue lá. Os anteriores colocaram corruptos e terroristas e ninguém falava nada.” O parlamentar também falou sobre gays, cotas raciais, fim de privilégios do serviço público e meio ambiente. “Sou contra as cotas (...) Não adianta inventar cotas, sou contra elas porque, a meu ver, somos iguais. Tem muitos afrodescendentes que concordam com essa ideia. Somos iguais, somos competentes”, declarou. No total, ele foi aplaudido 10 vezes.
Ciro Gomes também fez um acalorado pronunciamento, no qual criticou Bolsonaro e apresentou propostas para um eventual governo. O ex-governador foi vaiado ao responder sobre a reforma trabalhista, que qualificou como “uma selvageria”. Foi questionado sobre o assunto em entrevista coletiva após a apresentação, e demonstrou irritação ao responder perguntas, que considerou repetitivas. Uma repórter do portal Metrópoles quis repercutir sobre o mal-estar causado pelas vaias. “Escreva sua opinião. Tenho 31 anos de vida pública e nunca respondi por nenhum malfeito nem por um escândalo na vida toda. Você assistiu a uma coisa e fez uma ata completamente disforme.”
Um repórter da Folha de S. Paulo endossou a pergunta da colega, afirmando que o desconforto existiu, a ponto de o candidato chegar a pedir desculpas pela veemência com que tratou a questão no palco da CNI. Ciro respondeu: “Vocês escrevam o que quiserem. Metrópoles… Isso existe? Onde é? Quem é o dono? O Luiz Estevão, né? Mas ele não estava preso?”. Estevão foi condenado a 28 anos de prisão por desvios no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de São Paulo e cumpre regime fechado no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. A repórter disse que o candidato sabia da situação do dono do Metrópoles, até porque já deu entrevista ao portal. “Estou aqui trabalhando”, concluiu. “E eu soltinho da Silva aqui”, treplicou Ciro.
Investimento
Também participaram do evento os pré-candidatos Marina Silva (Rede), Álvaro Dias (Pode), Henrique Meirelles (MDB) e Geraldo Alckmin (PSDB). O tucano prometeu concentrar-se na pauta econômica do país caso seja eleito. Marina defendeu o aumento dos investimentos do Estado e defendeu o fim da reeleição para presidentes a partir de 2022. Henrique Meirelles ficou preso ao passado, divagando sobre suas conquistas. Álvaro Dias defendeu a “refundação da República” como forma de “substituir o sistema”. Cada um dos candidatos falou por 45 minutos.